AGOSTINHO ALVES
FOTOS: AGOSTINHO ALVES
Demorou, mas aconteceu. O vice-prefeito de Boca do Acre, Carlos Afonso, mais conhecido por Carlinhos das Farmácia, resolveu falar do sobre a sua saída do grupo de político que apoia o prefeito Zeca Cruz, após nove meses que decidiu romper as relações. Teria sido um motivo em especial, ou a soma de razões que culminaram na fissura de uma parceria que parecia duradoura e de muita fidelidade de ambas as partes.
Carlinhos falou ainda do sonho para Boca do Acre, frustrado pelo que ele considerou falta de compromisso e pulso por parte do prefeito Zeca Cruz. Para o vice-prefeito, nada do que fora acordado durante as conversas, mesmo antes das eleições de 2016, foi realizado, porque, segundo ele, o prefeito é aconselhado por um grupo de pessoas que pensa o poder como status e benefício próprio e esquece se dedicar o mandato para a população, que de acordo com ele confiou na mudança.

Confira a entrevista
JORNAL OPINIÃO – Qual o foi o motivo da separação da dupla, que parecia ter a parceria mais afinada que já se apresentou para gerenciar o município de Boca do Acre?
CARLINHOS – O meu sonho era a gente fazer uma administração diferente de todas as outras. Eu como vice-prefeito sempre levei ao pé da letra o cargo que eu tinha. Então aconteceu uma situação com um secretário, que eu revolvi ter uma conversa com o Zeca, uma conversa normal, onde não houve discussão, e eu falei que se o secretário continuasse na secretaria, eu estaria fora do governo e eu acho que ele não acreditou. Esse foi o último dia que eu pisei na prefeitura, no dia 23 de outubro de 2019.
Na minha situação de vice-prefeito que não tinha autonomia mínima e ficar numa administração na qual o secretário manda no prefeito, eu ia ficar onde?
JORNAL OPINIÃO – O secretário foi o único motivo, ou já estavam acontecendo fatos que fizeram o senhor desanimar da parceria?
CARLINHOS – Já vinham acontecendo algumas coisas. Nós ganhos as eleições com um sonho, que era mudar Boca do Acre para melhor. E a gente tinha como fazer isso. Eu conversava muito com ele [prefeito], porque atendíamos um ao lado do outro e eu falava que tínhamos que colocar o mínimo de programas da nossa campanha para funcionar, como o leite e o pão, que foi o carro-chefe da nossa campanha, tinha condições de ter colocado.
Tínhamos condições de ter dado a bolsa de estudos, cuidar da iluminação pública e limpar a água. Mas infelizmente isso não aconteceu. Então eu fiquei na administração por dois anos e oito meses, acreditando que as coisas iam mudar.
Sempre eu dizia para o prefeito, que não deixássemos para fazer isso na última hora, porque a população não é mais besta. Eu aconselhava que a administração tinha que fazer aos poucos, mas continuadamente, mas outras pessoas aconselhavam que ele deveria deixar para fazer no último ano. Eu inclusive discordava e dava exemplos de outros prefeitos que fizeram isso e deu errado.
JORNAL OPINIÃO – Enquanto vice-prefeito, o senhor tem consciência de que fez a sua parte, apesar de estar fora do governo?
CARLINHOS – Eu acredito que sim, porque o papel do vice não tem muito a fazer, porque tudo depende do prefeito. Infelizmente o vice não assume a prefeitura, o que muita gente pensa errado. Só que as pessoas não entendem que para o vice assumir o cargo de prefeito, em caso de viagem, o prefeito precisa fazer um documento passando o cargo, mandar para a Câmara, a Câmara aprova e devolve para a Prefeitura. E naquele período que o prefeito viaja, o vice vira prefeito e o que ele fizer, o prefeito não desmancha, mas se ele não fizer esse documento, tudo o que o vice fizer, o prefeito pode desfazer.
Eu tinha um respeito muito grande. Quando ele viajava e que chegava alguma coisa, aquilo que eu não podia resolver, eu ligava e perguntava o que eu deveria fazer. Eu era orientado por ele, cumprindo o meu papel de vice-prefeito. Ele nunca chegou de uma viagem para encontrar alguma irregularidade que eu tivesse feito. Eu levava tão ao pé da letra, que mesmo na ausência dele, eu nunca sentei na cadeira dele.
JORNAL OPINIÃO – Alguma vez o prefeito deixou o documento dando ao senhor os plenos poderes?
CARLINHOS – Não, nenhuma vez. Eu nunca fui prefeito oficialmente. Quando ele viaja, não fica ninguém, a cidade fica sem prefeito, quando ele viaja. Nunca cobrei dele, porque era responsabilidade dele fazer o documento.
JORNAL OPINIÃO – Comenta-se de que a campanha de vocês foi toda empenhada para agiotas e que até hoje não sobra dinheiro para fazer as obras e serviços porque a conta ainda não paga. Essa informação procede?
CARLINHOS – Nem todas as negociações eu participei. Essa parte eu vejo muito nas redes sociais, ouço ser muito comentada, mas eu não posso afirmar, porque eu nunca vi nada sobre isso. Eu não participei de nenhuma conversa que tratasse de recursos. Se eu tivesse participado, seria muito claro a falar.
JORNAL OPINIÃO – Como o senhor avaliar a participação da Câmara no mandato?
CARLINHOS – A Câmara é um poder independente e precisa fazer com que esse poder defenda o povo. Eles estão lá para defender o povo. A Câmara não usou o poder que tem, de cobrança. Hoje existem situações de vereador de base que é vergonhoso, por não ter conseguido uma carrada de piçarra para tapar um buraco em frente a casa dele. O bairro em que ele mora, está todo esburacado e ele não conseguiu. Não entendo o porquê de tanta omissão por parte de um poder tão independente. A população espera que o vereador a defenda na tribuna, e isso não aconteceu, por isso que hoje os vereadores praticamente estão todos queimados perante a população.
JORNAL OPINIÃO – Que nota o senhor dá para o prefeito Zeca?
CARLINHOS – Dou uma nota um, para não dar zero. Tudo aquilo que a gente planejou, que a gente trabalhou em cima das coisas que era para ter acontecido no governo, não aconteceu praticamente nada. Foi um prefeito que correu atrás de obras, mas o que poderia ter sido feito com recursos próprios, não foi feito, que era para as obras estaduais e federais ter sido recheado com os programas municipais, e não teve isso, e era tudo o que debatíamos em reuniões, de 2012 a 2016 então tudo aquilo que a gente sonhou, não veio.
Muitas obras federais não vão sair, porque a Prefeitura não tem recurso para comprar o terreno. A prefeitura não conseguiu comprar o terreno, por isso corre o risco de perder, como é o caso da nova SASBA. O Ifam vai demorar para ser implantado na cidade, porque demorou para ter o terreno.
JORNAL OPINIÃO – O senhor se decepcionou com o Zeca?
CARLINHOS – Muito, porque aquilo que a gente sonhava para Boca do Acre, não aconteceu. Ele [prefeito] só vai cair na real, depois que ele perder o mandato. Ele vai ver que teve a oportunidade de ouro para mudar a história do nosso município e ele não mudou. As melhorias do município no mandato dele, foram mínimas, e a gente tinha como fazer muito mais.
JORNAL OPINIÃO – O senhor se sente parte desse mandato ruim?
CARLINHOS – Eu não me sinto parte desse mandato, porque o papel do vice é limitado ao máximo. Você não tem como fazer alguma coisa e se você tenta fazer, é bloqueado, porque há pessoas ao redor do prefeito, que têm a função de dizer para ele que o vice quer tomar o lugar do prefeito.
JORNAL OPINIÃO – Então a confiança que o senhor teve nele, de acreditar, investir e sustentar, mesmo quando ele não era prefeito, ele não teve no senhor?
CARLINHOS – As pessoas passaram a me jogar contra ele e ele contra mim. No começo do mandato, eu acreditava que ninguém conseguiria jogar ele contra mim, por conta da amizade, da confiança e daquilo que eu participei dentro do governo, que eu não dava motivo para que ele desconfiasse de mim em nada. Não tenho vergonha de ter entrado na política, do cargo que eu exerço, porque você é limitado e não pode fazer nada, fica com os pés e as mãos amarrados.
JORNAL OPINIÃO – Um vice-prefeito tem menos confiança do que um secretário ou cargo comissionado do prefeito?
CARLINHOS – Sim, com toda certeza. A confiança do prefeito no vice-prefeito, é menor do que a confiança em um secretário, porque existe o medo de o vice se destacar, e não existe isso.
Na minha cabeça sempre passou que o Zeca era o destaque, nunca eu quis passar na frente dele. Sempre eu me comportava como vice-prefeito. Então existe uma ciumeira do próprio grupo que joga um contra o outro.
JORNAL OPINIÃO – Quando foi que o senhor percebeu que o mandato não seria aquilo que o senhor sonhava?
CARLINHOS – No início do mandato, já começaram a acontecer coisas que a gente repudiava do mandato anterior, e que estavam acontecendo do mesmo jeito. Teve um momento em que a própria população esperou muito a mudança de secretário para ver se a coisa acontecia. Isso era uma das coisas que eu cobrava e não veio. Alguns secretários precisavam mudar, mas não aconteceu.
JORNAL OPINIÃO – A foto ao lado do ex-prefeito Iran, significa alguma aliança?
CARLINHOS – Eu tive duas conversas com o Iran. Na primeira conversa que tivemos, ele me convidou para uma visita no interior. Como eu não faço mais parte do governo, eu sou livre para ir para onde quiser. Lá foi batida aquela foto. Hoje estamos conversando. O futuro só a Deus pertence. Hoje eu estou no grupo dos amigos do Iran.
JORNAL OPINIÃO – Se o senhor tivesse que escolher entre ser vice-prefeito do Zeca e vice do Iran, qual seria a sua decisão?
CARLINHOS – Hoje eu escolheria o Iran. Porque eu gostaria muito de contribuir para o meu município mais e mais. Eu escolheria o Iran para tentar melhorar a administração.
JORNAL OPINIÃO – Quem foi melhor prefeito, Zeca ou Iran?
CARLINHOS – Entre os dois, o Iran se destaca porque tem pulso. Para você ser prefeito, precisa ter pulso forte. Ter pulso forte não é tratar mal as pessoas. Você tem que ter os dois termos: ser forte e ter pulso na hora que tem que ter, e dar carinho na hora certa. Para ser prefeito, tem de ter pulso, senão as pessoas querem passar por cima de você. Eu dizia para o prefeito, que entendesse que as pessoas tinham votado no Zeca para ele mandar e determinar e não ser mandado. Eu dizia que as pessoas estavam esperando que ele mandasse e não fosse mandado por secretário. E não o secretário andar na rua dizendo: “O prefeito faz o que eu quero”. Isso não existe.
JORNAL OPINIÃO – O senhor tem intenção de continuar na política?
CARLINHOS – A política, o que você vai ser, está nas mãos de Deus. Hoje eu estou deixando as coisas acontecerem. Mas eu estou preparado, pelo que já passei, eu me sinto preparado. Você precisa ter pulso para fazer Boca do Acre mudar. No primeiro momento até vão te odiar, depois vão aplaudir pelo que você fez. Se não fizer essa mudança, não vai ter Boca do Acre diferente.
Eu vejo muito candidato enfeitando as coisas, e não é por esse lado. Só vamos mudar a história de Boca do Acre quando começarmos pelo código de postura e o código tributário. Você não tem que olhar pelo voto que pode ser perdido, mas pelo que precisa ser mudado.
Eu acho que não devo sair da política, porque ainda tenho muito a contribuir. Meu sonho é que Boca do Acre cuide de duas coisas para mudar. Da arrecadação interna e do setor primário. Hoje nós comemos peixe que vem de Porto Velho e de Rio Branco.
Os pré-candidatos não estão preparados para que quando sentarem na cadeira de prefeito, o CPF deles ser colocado em um dívida de mais de 40 milhões de reais e que esse valor ele vai ter que saber mexer muito bem, para que as contas da prefeitura não sejam travadas.
JORNAL OPINIÃO – Deixe suas considerações
CARLINHOS – Deixo para Boca do Acre é que precisa saber muito bem em quem vai voltar. Eu acredito que o povo está calado, analisando as propostas, tem que ver as propostas com uma responsabilidade muito grande. Boca do Acre precisa de um administrador consciente, do que a comunidade precisa para melhor. Não vai ser a toque de mágica que vai melhorar. Vai ter que ter um administrador que faça mudanças impopulares. Que Deus possa cuidar de Boca do Acre.
Falar para a população que analise bem em quem vai colocar no poder, para não ficar sofrendo mais quatro anos.



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