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Homero existiu? O mistério por trás do autor de ‘A Odisseia’

Tradicionalmente, Homero foi considerado um poeta que viveu por volta de 900 anos antes da Era Comum, na Grécia Antiga. Cego, ele teria sido o responsável por escrever dois dos poemas épicos fundamentais da Antiguidade: “A Ilíada” e “A Odisseia.

Um gênio, portanto —mas que, segundo especialistas, pode nunca ter existido.

Cada vez mais pesquisadores contemporâneos acreditam que Homero, como autor dessas duas obras basilares, não foi um indivíduo histórico. O nome seria a personificação de um coletivo de poetas e editores, de gerações que compilaram tradições orais e as fixaram em texto escrito.

“Não há nenhuma prova de que um autor chamado Homero tenha existido, ao menos enquanto autor de dois grandes clássicos da literatura mundial”, diz o historiador André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Muito provavelmente, é uma tradição posterior a que vinculou essas duas obras, ‘Ilíada’ e ‘Odisseia’, a um único autor chamado Homero.”

Segundo o historiador Daniel Brasil Justi, professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há um consenso já bem estabelecido no século 21 de que o mais correto seja falar em Homeros e não em um único Homero.

“A gente pode assumir que esses Homeros, no plural, foram os redatores que revisaram e copiaram essas obras em suas versões escritas enquanto a tradição oral não deixava de existir”, comenta Justi.

Assim, ele define Homero muito mais como “uma tradição de autores” do que como uma pessoa em si.

Autor do livro “Sábios, Filósofos, Profetas ou Magos?” e professor na Universidade de Brasília (UnB), o filósofo Gabriele Cornelli recorda que a questão permeou a primeira aula dada pelo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) na Universidade da Basileia.

“Ele trouxe uma visão muito equilibrada do problema. Disse que Homero era o poeta autor da ‘Ilíada’ e da ‘Odisseia’, mas esta não era uma afirmação histórica, e sim um juízo estético”, comenta Cornelli.

“Não adianta procurar o Homero histórico. Resta-nos entender o Homero autor estético, o autor literário.”

O professor Cornelli situa as obras atribuídas a Homero, ao lado dos textos da Bíblia judaica, como “os pilares que fundamentam a nossa cultura ocidental”.

Fato é que ainda na Grécia antiga já havia se consagrado a ideia de Homero como autor dessas obras importantes.

“Já no 5º século antes de Cristo os jovens estudantes atenienses tinham de aprender [os textos atribuídos a] Homero de cor, e saber inclusive comentar algumas das palavras mais difíceis”, diz Cornelli.

Foi nessa época, conta o especialista, que muitos estudantes começaram a notar que havia discrepâncias de estilo em parte dos textos atribuídos a Homero e a marcar as passagens que consideravam de autenticidade duvidosa.

Mas foi preciso muito tempo para que o debate ressurgisse com ênfase.

O questionamento da autoria veio com embasamento apenas no finzinho do século 18, por conta do filólogo Friedrich August Wolf (1759-1824). Estudioso das obras antigas gregas, ele considerou impossível que um só autor tivesse escrito “Ilíada” e “A Odisseia”.

A conclusão foi tirada depois que Wolf observou que poemas, daquela extensão, “não poderiam ter sido compostos e preservados por escrito” naquela época, explica o filósofo Dennys Garcia Xavier, professor na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

“A partir dessa premissa, concluiu que as epopeias deveriam ser entendidas como resultado de uma longa transmissão oral, tendo sido reunidas e fixadas apenas posteriormente”.

Wolf concluiu que o texto só poderia ser resultado de uma reorganização de composições orais, o que, na avaliação de Cornelli, foi fundamental para o debate, “porque deslocou a grande questão para observar se há um traço de originalidade por parte do autor Homero ou por parte dos autores Homeros, ou se eles seriam apenas compiladores de tradições orais anteriores”, afirma ele.

Outra questão que aparece, segundo Cornelli, é que o grego utilizado é ‘”uma mistura muito artificial, ao ponto de com certo exagero haver vários dialetos diferentes”.

Mas Xavier ressalta que Wolf não pretendia demonstrar que Homero jamais existiu. “Seu alvo principal era a concepção tradicional de um único poeta escrevendo, sozinho e de uma só vez, os poemas exatamente como chegaram até nós.”

Faziam parte da tradição grega antiga os poetas cantadores —os aedos— que se apresentavam em público, de vilarejo em vilarejo. O mais provável é que essas histórias corressem desta forma, por tradição oral.

Com o passar do tempo, grupos de escribas passaram a compilá-las, em um trabalho coletivo que deve ter se prolongado por gerações, com revisões, edições e enxertos.

“Eram histórias que já circulavam, amplamente conhecidas e que de alguma forma foram sistematizadas por volta do século 8º ou 7º antes da Era Comum”, pontua Chevitarese.

Para o historiador, o que havia era uma escola de aedos, os poetas cantores da época, que deve ter se ocupado em reunir as obras que circulavam naquele contexto.

Chevitarese acrescenta que tudo indica que a Ilíada e a Odisseia nem tenham sido feitas pelas mesmas pessoas.

“São duas narrativas absolutamente diferentes, situadas geograficamente em lugares diferentes. Em comum, lidam com tradições orais que foram transformadas, passadas para a escrita em um longo processo temporal”, analisa.

O filósofo Aldo Dinucci, professor na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), lembra ainda de uma outra teoria, a levantada pelo escritor britânico Samuel Butler (1835-1902), tradutor da “Odisseia”.

No seu livro “The Authoress of the Odyssey” ele sustenta uma teoria de que a obra teria sido escrita por uma autora mulher —enquanto Ilíada, esta sim, teria sido feita por um homem.

Dinucci afirma que a arquitetura e a narrativa coerentes da obra permitem ver uma forma final como resultado de “um planejamento sofisticado”.

“Mas se entende que tanto Ilíada como Odisseia nascem de uma longa tradição oral herdada ao longo de séculos. E que o texto que nos chegou é uma certa cristalização dessa tradição”, afirma.

O nome

O professor Xavier apresenta algumas hipóteses interessantes que podem dar pistas sobre o nome Homero, caso tenha sido esta uma denominação inventada. Segundo ele, a etimologia mais imediata alude ao substantivo “refém”, em grego. “Nesse caso, o nome poderia ter significado literalmente ‘o refém’, ‘aquele entregue como garantia’ ou ‘o penhor’”, explica.

Pode-se interpretar que seja o nome escolhido para salvaguardar os itens de valor daquela tradição oral, como uma garantia que ficaria em cofre seguro —o registro escrito— enquanto a versão oral poderia se perder.

“Biografias antigas procuravam explicar nomes famosos mediante episódios narrativos, construindo uma circunstância biográfica a partir de uma semelhança lexical. O procedimento é conhecido como etimologia biográfica ou narrativa: parte-se do nome para inventar ou organizar uma história que pareça justificá-lo”, diz Xavier.

“No caso específico de Homero, a coisa toda resta por ser explicada”, acrescenta.

Há ainda a tradição que retrata Homero como um velho sábio cego. Isto porque, conforme explica Xavier, a palavra poderia significar “cego” em um dialeto da região da antiga cidade de Cime, na atual Turquia.

Ele conta que há um relato biográfico antigo de Homero que diz que o poeta se chamava originalmente Melesígenes —e passou a ser chamado Homero depois de perder a visão.

“Essa explicação exerceu enorme influência sobre a imagem tradicional de Homero”, afirma o professor. “O poeta cego tornou-se uma figura canônica na arte, na literatura e na historiografia antiga.”

Chevitarese não descarta, contudo, que o nome Homero seja uma referência ao mais famoso dos compiladores daquela época.

“Embora seja algo muito mais teórico do que algo que possamos demonstrar”, ressalva.

Mistério eterno

Dada a carência de registros, muito provavelmente nunca ficará provada a existência ou não de Homero enquanto figura histórica.

“A resposta mais rigorosa que a boa ciência pode oferecer é: não existem provas diretas de que Homero tenha existido, mas também não existe qualquer evidência irrefutável que permita concluir que ele nunca existiu”, afirma o professor Xavier.

A posição predominante entre os especialistas evita ambos os extremos.

“Homero permanece uma figura historicamente possível, embora sua existência não possa ser demonstrada com os critérios normalmente exigidos pela investigação historiográfica moderna”, prossegue Xavier.

“Não temos inscrições, documentos oficiais, correspondência, dedicatórias, moedas, túmulos identificáveis ou qualquer testemunho contemporâneo que mencione um poeta chamado Homero.”

Assim, resta a literatura atribuída a ele. Esta, ao que tudo indica, permanece inesgotável.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO