Nascida no coração do Acre, na sempre charmosa Tarauacá, e especialista em artes visuais, Rosilene Nobre personifica o legado de Hélio Melo, cujo conhecimento utilizado na pintura foi apontada como tecnologia altamente inovadora pela Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac). Artista popular e um pesquisador de seu tempo, das coisas do Acre, Hélio Melo lançou mão de intensos estudos para apresentar ao mundo algo que se não fosse complexo seria trivial –as formidáveis tinturas com as quais montou o acervo hoje reconhecido internacionalmente.
Aparentemente, Hélio Melo deixou poucos herdeiros –todos, porém, de alta qualidade técnica. E uma avaliação mais acurada da pesquisa de Rose Nobre, como é conhecida a taraucaense, qualquer um vai passar a considerá-la no rol dos sucessores de Hélio Melo. Versátil como foi Melo, Rose atualmente prossegue com o projeto CorPura, que consiste, segundo ela mesma, “em uma investigação e extração de corantes e pigmentos orgânicos para a utilização pictórica”.
CorPura, explica-se, busca nas aguadas e aquarelas a desconstrução natural das manchas, fazendo com que cada trabalho movimente a imaginação, além de enfatizar os traços monocromáticos. Em 2007 Rose iniciou a pesquisa, que mesmo embrionária resultou em um artigo científico, explorando, na sequência, possibilidades de elementos para compor o seu trabalho artístico.
“Qual a cor do seu olhar”, o artigo, à época buscou alternativas ao uso de pigmentos promovendo a investigação de fontes de pigmentação natural encontrados em nossa região –ou seja: Rose foi a campo caçando de tudo o que poderia resultar em tinta. São plantas como Camomila, Açafrão, Cenoura e Laranja –estas para se obter a cor amarelo após infusão ou cocção com óleo de cravo ou bicarbonato de sódio utilizando goma ou cola como fixador –para citar um único exemplo da capacidade inventiva de Rose, que é professora de Artes Visuais da Secretaria de Educação do Acre.
Tempos mais tarde, com base na pesquisa e na coleta dos materiais selecionados o resultado foi a obtenção de tintas e uma seleção de cores, que aliada aos seus respectivos diluentes e aglutinantes, “concretizou a manufatura” de materiais alternativos, “capazes de serem aproveitados em atividades expressivas e criativas em diversos suportes, visando um processo consistente de formação, pesquisa e experimentação de materiais”.
Os pigmentos vegetais, também chamados de corantes, são extraídos de folhas, flores, sementes, cascas, e raízes, através de diversos processos. Algumas tintas transparentes não apresentam cores fidedignas, devido alguns fatores como: o procedimento de aquisição do pigmento, suporte utilizado e a oxidação. “Podemos citar como exemplo o corante retirado do repolho roxo, que no momento da cocção o mesmo apresenta a cor roxa, e em seguida quando a tinta é depositada no papel, sua cor sofre alterações com nuanças de azul. Além do que as anilinas são menos resistentes que os pigmentos minerais, pois a ação do calor, da umidade do ar e dos gases da atmosfera causa-lhes alterações cromáticas. Porém são luminosas claras e coloridas, mas, muito inconstantes, geralmente quando secas possuem a cor mais concentrada, apesar de menos luminosas, podendo ser dissolvida na água ou nos aglutinantes, colorindo-as sem formar pasta”, relata Rose. O resultado é um produto de fácil acesso e de baixo custo.
Uma das invenções de Rose é um giz colorido que serve bem às cores pastel. Uma argila encontrada no Paredão de Terra localizado na Estrada de Sena Madureira. Em seu estudo a artista diz que mesmo tendo dificuldades quanto à coleta dos recursos naturais, alguns fatores como o clima, a estação chuvosa, e o tempo de observação, limitaram e condicionaram novas oportunidades de descobertas. “Entretanto, foram superadas pelo prazer de ver o jogo das cores extraídas dos pigmentos naturais, gerando uma reflexão sobre as questões do meio ambiente e saber que seu nível de aderência é bom e não agride a saúde das pessoas, colaborando para a qualidade de vida do nosso planeta”, diz, como que permanentemente lembrando que o legado de Hélio Melo não apenas vive como é inovado a cada dia.


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