Rio Branco
24°C
sexta-feira, 26 de junho de 2026
10:38

Ex-moradora de rua agora ajuda o Ministério Público em ações de recuperação de viciados em drogas e álcool    

Luz no fim do túnel

As atividades do órgão já eram conhecidas mas extrapolaram os limites da sede do Ministério Público do Acre (MPAC) por causa de sua forte atuação na investigação e repressão a um dos crimes mais odiosos já registrados na crônica policial do Acre: a “crucificação” de um homem suspeito de furto, inclusive com uso de pregos enfiados nos pulsos da vítima, por policiais militares, no assoalho de uma casa no bairro Papoco, na periferia de Rio Branco.

O caso foi registrado em janeiro de 1999, quando policiais militares, a pretexto de investigarem o furto a pertences de um colega de farda, prenderam e torturam um suspeito do crime até o ponto em que, como verdugos ou centuriões do Império Romano, na falta de uma cruz tradicional, deitaram o suposto ladrão no assoalho  de uma casa de madeira, de braços abertos e, como se o coitado fosse um Cristo moderno, o pregaram pelos pulsos, a despeito dos gritos de dores e desespero do rapaz.

A intenção dos militares era dar um bom exemplo à população de um bairro que há muito serve como ponto de tráfico de drogas, inclusive de crack, tão ou mais viciante quanto à heroína, e de esconderijo para viciados, traficantes e outros criminosos.

O caso chegou ao conhecimento do Natera – Núcleo de Atendimento Terapêutico (ou Psicossocial), órgão do MPAC, a partir de denúncias de testemunhas do crime praticado pelos militares. Criado há seis anos, com atendimento próximo a três mil pessoas, a maioria delas em situação de rua, por problemas de uso de drogas ou de excesso de álcool, o Natera, naquele caso, teve que recorrer  a outros órgãos do MPAC, como o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) e à promotoria de Defesa dos Direitos Humanos,  em busca da punição aos acusados. A operação de combate a este crime foi chamada, apropriadamente, de “Calvário”. Os policiais foram identificados e presos. Devem perder a farda, depois de condenados por torturas.

Parte desse trabalho do Natera só foi possível graças à dolorosa experiência de uma pessoa, a acreana Patrícia da Silva Neves, de 44 anos, três filhos,  funcionária comissionada do MPAC. Afinal, ela conhece bem o Papoco e as pessoas que ali vivem, inclusive o homem “crucificado’, o qual, aliás, foi socorrido a tempo e sobreviveu. Patrícia, não faz tempo, era uma moradora do Papoco. Mais que isso: era uma viciada em crack, depois de usar cocaína por mais de 20 anos e hoje, sóbria faz pelo cinco anos, é uma peça importante do MPAC, como assessora do Natera, no atendimento e socorro às pessoas em situação de rua como ela vivia no passado.

Patrícia Neves nasceu numa das mis tradicionais e numerosas família do Acre. Cresceu e viveu cercada de carinho até os 15 anos de idade, quando, por curiosidade e influência de amigos, foi sozinha a uma boca de fumo e adquiriu uma partida de maconha. Fumou., mas não gostou. “Vomitei até a alma e decidi que não queria mais aquilo”, contou.

No entanto, ainda por influência dos tais amigos, persistia a curiosidade em relação à cocaína. Experimentou e gostou. Aliás, gostou tanto que comparou a droga a um paixão arrebatadora, dessas que a gente julga ser amor à primeira vista. Era apenas o começo de um drama, outro calvário, que perdurou por mais de duas décadas.

Depois de várias e seguidas por várias clínicas de recuperação, no Acre e  em outros estados, de onde acabava sendo expulsa por brigas homéricas, inclusive físicas, com os monitores e outros servidores desses locais, ela acabava voltando para casa e para as ruas de Rio Branco, para continuar usando drogas. Do uso para o tráfico, foi só o tempo em que entrou para a faculdade. Ao invés de estudar, ela se tornou traficante na faculdade e, além de não conseguir estudar e se formar, acabou presa. Pegou três anos de cadeia.

Saiu da penitenciária pensando 170 quilos. Aliás, o peso acima da média sempre a perseguiu, desde o nascimento. “Já nasci com cinco quilos”, conta a própria. Na cadeia, ela só comia e dormia. Às vezes, aqui e acolá, cheirava alguma cocaína que conseguia lá mesmo, dentro do presídio, revela. Mas era preciso parar, parar com tudo, inclusive de engordar.

Um dia, numa conversa com uma de suas filhas (tem um homem e duas mulheres, de pais diferentes, cujos homens ela conheceu ao longo dos anos de uso de drogas mas com os quais não tem mais nenhum contato), ficou sabendo que ia ser avó. E a filha, a do meio, ainda menor de idade, foi severa: “se não parar de engordar, você não vai conhecer seu neto”. E se sobrevivesse, também não conheceria o neto porque a menina não queria seu filho em contato com uma avó drogada – foi muito mais severa ainda ao lhe dizer isso.  Patrícia entendeu que era hora de parar. Parar de engordar, parar de se drogar.

Parou para fazer a redução de estômago e, depois de cirurgiada, não mais fez uso de drogas e passou a viver sóbria ao ponto de hoje ser estudante da faculdade de Direito. Conheceu o neto, hoje com cinco anos, o mesmo tempo de sua sobriedade. Ao procurar emprego, conheceu o Natera, de cuja atividade havia ouvido falar quando ainda era interna numa das muitas unidades terapêuticas por onde passou.

Hoje, assim como no caso do homem “crucificado”, Patrícia Neves é peça importante nas atividades do Natera ao acompanhar outros técnicos nas visitas e abordagens às pessoas que vivem o drama que ela um dia viveu, de ter que mendigar nas ruas para poder sustentar o vício. Ela os conhece pelo nome, em sua maioria. Sabe até o número de pessoas que vivem nas ruas de Rio Branco, a maioria no centro da cidade, cerca de 250 pessoas,  cujo maior número é composto por homens – embora, ela admite, venha crescendo muito o número de mulheres naquelas condições. Em situação de rua em Rio Branco há também quatro menores de idade, dois meninos e duas meninas, ela aponta.

A participação de Patrícia Neves no Natera se torna importante porque as pessoas a serem abordadas as quais são oferecidas oportunidade de tratamento, quando ela está presente, se tornam menos arredias. A princípio, elas comparam o MPAC à polícia, vendo a instituição como repressora. Mas quando veem ou reconhecem Patrícia entre os técnicos, adquirem alguma confiança e se permitem a abordagem.

“Depois disso, uns até vêm à sede do Natera e vêm no MP descalças, sem camisa, do jeito que estiverem. Quando isso acontece, a gente sente uma espécie de vitória por sabermos que vamos conseguir tirar mais um das ruas”, diz, os olhos brilhando de empolgação e felicidade. “Só quem viveu nas ruas como eu vivi sabe o quanto isso é importante”, acrescenta.

Para a ex-viciada, todo dia é um recomeço. Assim como admite, sem constrangimento, tudo o que viveu e passou (“eu só nunca me prostitui nem roubei”, ela faz questão de ressaltar), ela revela a resistência em relação à abstinência. Segundo ela, há dias que sente vontade de voltar a usar droga. “Minha boca se enche d’água, de vontade”, admite, mas ela tem sido forte na luta consigo própria, a qual vai vencendo com o apoio dos colegas e com o forte trabalho do Natera nos exemplos de que nem tudo está perdido e que ainda há luz o fim do túnel.

Os coordenadores do Natera, Fábio Fabrício Pereira, e a procuradora de Justiça Patrícia Rego  são só elogios quanto à participação da servidora na abordagem e tentativa de resgate à vida de pessoas cujo vício e falta de estrutura emocional têm empurrado cada vez mis para a vala do desespero.

Mas, a depender de Patrícia Neves, as pessoas que quiserem voltar à vida normal, terão oportunidade. Ela tem consciência de que precisava passar pela experiência que passou para poder, hoje, compreender o tamanho da dor de quem perde a batalha para o vício. O Natera fez nascer uma nova Patrícia, que agora espera poder multiplicar esse nascimento em outras pessoas.