Não me lembro ao certo o dia, mas, recebi semana passada um vídeo em meu WhatSapp no qual me tirou algumas noites de sono e me fez parar e refletir sobre as dores da “alma”, se assim posso dizer. No vídeo um velho amigo expressava sua dor, seu luto, pela pessoa amada como se ela estivesse partido ontem, fiquei perplexa com a cena na qual seu choro inconsolável e tão doloroso me tocou profundamente e eu pude “compartir” e sentir de sua angustia. Mas, o que mais me fez sentir compaixão foi ao final do vídeo ouvir risos de quem estava gravando, como se a dor do protagonista fosse uma piada.
O ator principal do vídeo, se assim posso dizer… ah… (suspiros) ele tem uma história linda de paixão e dor por seu grande amor.
Era inverno de 1972 na querida Boca do Acre, ele se preparava junto com seu pai e tio para uma inesquecível viagem a capital do Acre, onde já tinha preparando toda a mercadoria a ser vendida e entregue, a embarcação estava repleta de latas de óleo, querosene entre outras mercadorias que vinha de Manaus ou Belém até nossa cidade e de lá com destino a Rio Branco, onde na época não existia estrada. As embarcações não só da família dele mais outras levavam essas mercadorias e voltavam a Boca do Acre com castanhas, borracha, farinha entre outras estivas, para de lá carregar as grandes embarcações de volta as capitais.
Nas margens do Rio Acre na beira do barranco sua amada acenava já saudosa para ele que subia rio acima ansioso pela volta. O barco ficava mais distante e seu amor, lá mesmo lugar, acendo com as mãos, (talvez aquele gesto significava “Eu te esperarei…”) a “Balieira” sumiu de vista, mas, em seu coração a certeza de o retorno para seus braços era certo e o mais breve possível.
Quando ao porto Rio Branco ele chegou mais que depressa já articulou a venda de toda mercadoria por um bom preço, valor o qual ele estimou tanto em receber, sonhava para que em seu retorno a terra querida pudesse celebrar seu matrimonio com o amor de sua vida, onde a festa com amigos e parentes compartilharia a felicidade do casal.
Chegou o dia de seu retorno a Boca do Acre, muito tempo já havia se passado desde que ele havia saído de lá. Seu coração era só alegria e amor, ele não pensava em mais nada, somente em sua amada e no memento de reencontra-la, fazia planos da vida a dois e quem sabe logo três ou quatro, sim, ele sonhava em ter filhos e tinha uma grande prospecção de futuro com seu amor.
A medida que o barco ficava mais próximo do porto a ser atracado seu coração disparava, o cenário ao qual ele contemplava com lindas paisagens verdes ao longo do rio o fazia suspirar em uma viagem interna de sonhos e expectativas de uma vida feliz com sua família e futura amada esposa.
Es que o grande dia de seu retorno chegou, ele já de longe começou a ver as casinhas coloridas da querida Boca do Acre, o barco mal tinha parado o motor no porto e ele já pulou no barranco subindo eufórico aquele morro e indo primeiramente ao encontro de sua amada.
O sereno forte daquela manhã de inverno amazônico não o impediram de caminhar a longos passos até a casa de seu amor, era início de janeiro de 1973, e a medica que se aproximava de seu destino seu coração acelerava ainda mais. Ao chegar na casa dos pais do amor de sua vida ele foi recebido com a notícia que mudaria para sempre seu destino. Seu coração quase parou, o ar faltou e a dor o consumia de uma forma que não pode mensurar, ele gritava, chorava e pedia a Deus para que fosse somente um pesadelo, que não fosse verdade que ele queria acordar.
Infelizmente, no dia 25 de dezembro de 1972 sua amada havia falecido, levando com ela todos os sonhos, amor e felicidade que haviam nele, ele que era só alegria também partiu e hoje, quase 47 anos depois sobrevive um homem cheio de resiliência, saudades, amor e dor. Seu nome é Braz João Barros Muniz, conhecido popularmente em nossa cidade como Braz.
Resiliência é umas das palavras que define o Braz, ele não teve só a perda de sua amada. Em 2 de novembro de 1966, ele perdeu sua querida irmã que morreu afogada, e em 25 de dezembro de 1972, dia de Natal ele perdeu sua primeira namorada e amada, sabendo da notícia somente em seu retorno, 8 dias após seu falecimento. Anos passaram com sua dor e em 2 de fevereiro de 2013 seu pai falece e seu coração já quase não aguenta tanta dor, porém, esse ano em 12 de fevereiro sua mãe que estava bem de saúde veio a óbito, Braz estava viajando, o mesmo não pode sepulta-la ou despedisse dela. Nesta perda ele também estava viajando.
Todos nós temos uma dor, seja por uma partida inesperada de um filho(a) ou ente querido, um relacionamento desfeito onde ainda existe sentimentos, uma amizade acabada, um desentendimento na família ou que quer que seja, todos nós temos uma dor. Você já parou para pensar qual o tamanho de sua dor? A dor é algo que não podemos mensurar cada um sente de uma forma, e não devemos julgar a dor do outro, cada um reage do seu jeito único, as vezes, você pode olhar para sua dor e falar: “você vai ficar no meu passado eu vou seguir” ou você pode escolher conviver com ela, é um direito seu… a vida é sua… a dor e sua. Pense nisso.
Eu por exemplo tive dores que me transformaram que me “mataram” e me levaram a uma depressão na qual somente Deus e eu sabíamos o tamanho da minha dor. Eu sempre sorridente e comunicativa, mal conseguia falar ou quereria ver alguém. Eu decidi deixar tudo pra trás. Siguir em frente sem luto pelo que se foi, aprendi duramente a deixar ir o que tinha que ir e deixar vir somente o que me fazia e me faz evoluir, aprendi com a dor que precisamos deixar nosso passado para trás para que novas coisas aconteçam em nosso futuro. Não foi fácil, não é fácil, mas, após um grande mergulho e reflexão em minhas dores aprendi que só Deus pode nos ajudar, ele é nosso melhor amigo.
É por isso, e muito mais, e, analisando todo o texto aqui narrado, percebi antes mesmo de começar a escrever que o Braz é o homem mais corajoso que eu conheço na minha vida. Ele ainda vive seu primeiro amor e eu falo corajoso por que, homens e mulheres não declaram seus sentimentos, somos induzidos por amigos, familiares e pela sociedade em não demostrarmos o que sentimos, tipo: “não deixa ninguém saber que você está sentindo”.
O Braz não, ele é verdadeiro, ele chora, grita, sente saudades e fala pra quem quiser ouvir que ama, que vive com a dor e que seu coração e cheio de amor e muita, muita saudade. Ele não tem medo de falar de sua dor de seu amor de sua eterna saudade.
A você meu amigo Braz, te dedico todo o meu respeito e admiração, sinto-me honrada em conhecer você e sua história. Que ela seja exemplo para que haja mais amor entre as pessoas no mundo. E como escreveu Willian Shakespeare: “É sempre bom deixarmos quem amamos com palavras doces e gentis, pode ser a última vez que a vejamos”
E você que está lendo esse texto agora? Mais uma vez te pergunto… qual é a sua dor? Você vai deixar ela pra trás, vai juntar os cacos que ficou e vai seguir? Não sabe ainda o que vai fazer? Está de luto? Não se desespere, está tudo bem… tudo tem o seu tempo e cada pessoa tem o seu momento. Viva ele intensamente com dor ou sem ela, todos nós a sentiremos em alguma fase da vida, e será inevitável, as primeiras dores serão tão fortes que quando as outras dores chegarem você já estará mais “acostumado” com a companhia da dor, como se já soubesse como seria, ou não, já que cada dor é única.
Chore, grite, “esperneie” o tempo que você achar que deve, uma semana, um mês, um ano ou uma vida inteira, é um direito seu e não deixe que ninguém lhe tire isso, é um momento seu, só seu, a vida é sua, a dor é sua. E, essa forma abstrata de sentir que é incalculável, imensurável é algo que só você sente, faz parte de sua história, parte de vida, onde somente você é o protagonista, o ator principal. Não deixe ninguém falar a você como deve ou não viver, como deve ou não fazer, o momento é seu e viva ele com amor, com dor com o que você quiser. Ninguém vai ser feliz ou triste por você, e se quiser contar pra alguém o tamanho de sua dor, conte para Deus. Ele e mais ninguém vai saber verdadeiramente entender seu coração.
Lembre-se, parar ou seguir é uma escolha sua, só sua… Viva o seu momento.
Braz, mais uma vez te agradeço por seus ensinamentos de vida, os quais serão exemplos para muitos e onde quer que eu vá ou esteja contarei com orgulho sua linda história de vida e amor. Chore meu amigo, em breve estarei perto de você e choraremos juntos nossas dores, nosso chora nos faz aliviar nosso fardo, nosso pesado fardo. Continue com a coragem e resiliência que tens, você é único, e aos que riem, debocham ou tiram algum sarro de você, vamos orar por eles, acredito serem pessoas vazias e sem amor, não tiveram a honra de sentir o que é verdadeiramente amar, de sentir o verdadeiro amor.
Abraços…


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