Defensoria e MP investigam denúncia de intolerância religiosa sofrida por Mãe de Santo no Acre

A Promotoria Especializada dos Direitos Humanos do MPE/AC investiga o caso

A dirigente da Tenda de Umbanda Luz da Vida, Mãe Marajoana de Xangô junto a outros membros da denominação religiosa formalizaram na Defensoria Pública do Estado (DPE/AC), Ministério Público do Acre (MPE/AC) e Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) na última terça-feira, 24, em Rio Branco, a denúncia de intolerância religiosa contra líderes evangélicos, que utilizam a imagem da mãe de santo para proferir palavras de ódio na internet.

A procuradora de Justiça do MPE, Kátia Rejane, assegurou a ação do MPE no caso (Foto: Ascom MPE/AC)

Após tomar conhecimento de vários vídeos no Youtube e outras redes sociais, em que pastores evangélicos utilizam a sua imagem – em um culto ecumênico de janeiro de 2020 – para proferir preconceito e compará-la ao diabo, a mãe de santo decidiu procurar a justiça e pedir ajuda para que os autores sejam responsabilizados.

“Entregamos a nossa carta de repúdio e o ofício, pedindo que as pessoas que praticaram o crime de intolerância religiosa e injúria contra mim e à Umbanda sejam responsabilizadas por seus atos, como prevê a lei. E nesse movimento nós observamos a necessidade de o Estado implantar núcleos especializados para atender demandas como a nossa, e garantir que todes tenham a sua fé e a religiosidade respeitadas “, explica a Mãe Marajoana de Xangô.

No MPE/AC a comitiva da Tenda de Umbanda Luz da Vida foi recepcionada pela coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, a procuradora de Justiça Kátia Rejane de Araújo, e sua equipe.

O caso também está sendo acompanhado pela Defensoria Pública (Foto: Maria Meirelles)

Na ocasião, Marajoana também denunciou as constantes ameaças que vem sofrendo pela internet e alertou sobre a possibilidade do aumento do preconceito e de possíveis ataques contra os terreiros e seguidores da religião no Acre, diante das manifestações de ódio disseminadas nas redes sociais.

Em resposta ao pedido, a procuradora Kátia Rejane informou que já existe um procedimento aberto na Promotoria Especializada dos Direitos Humanos para apurar o caso e o MP acreano planeja adotar outras providências.

“Vamos encaminhar as outras informações recebidas e buscar uma cooperação com o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública Estadual para discutir a melhor maneira de encaminharmos essa denúncia. Para que ao final possamos fazer a comunicação devida de que o Ministério Público não tolera nenhuma forma de discriminação e faremos o possível no que depender da nossa atuação”, afirmou Kátia Rejane.

Respeite o Meu Sagrado

Nas redes sociais, a Tenda de Umbanda Luz da Vida tem puxado uma campanha educativa (Respeite O Meu Sagrado) contra a intolerância religiosa.

Visando conscientizar a população, a Tenda Luz da Vida lançou a campanha #RespeiteOMeuSagrado (Foto: Maria Meirelles)

“Respeite O Meu Sagrado é um termo que pode ser utilizado por todas as denominações religiosas, que busca sensibilizar as pessoas quanto a esse crime que fere e exclui grupos de pessoas e ignora a beleza da diversidade”, observa Mãe Marajoana de Xangô.

A campanha #RespeiteOMeuSagrado traz para o foco do debate a Lei n° 9.459, de 13 de maio de 1997, que assegura a punição para os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Entenda o caso

Na última sexta-feira, 20, Marajoana Maia (Marajoana de Xangô) teve conhecimento de vídeos que circulam em canais evangélicos, em que pastares usam a sua imagem para tecer preconceito e reproduzir falas de ódio às religiões de terreiro. O primeiro vídeo foi identificado no canal “Povo de Deus”, do pastor Rodrigo Dias, no qual ele utiliza o vídeo de um culto ecumênico de 2020, no qual Marajoana participou ao lado de um padre e um pastor.

Os pastores criticam presença da mãe de santo Marajoana de Xangô, um padre e um pastor em um culto ecumênico (Foto: Reprodução)

A postagem é intitulada “Inacreditável! Pastor, padre e mãe de santo juntos na igreja. Onde iremos parar”. O vídeo viralizou novamente e foi usado pelo pastor para criticar a celebração.

“Olhando apenas com os olhos carnais, pode parecer algo normal, para algumas pessoas pode ser até bonito, como atitude de pedir o fim da intolerância religiosa ou dos ataques contra outras religiões. Mas, olhando através de uma ótica espiritual, podemos ver que existem coisas muito mais profundas por trás dessa cena”, diz no vídeo.

Após a postagem do pastor Rodrigo Dias, outros seis vídeos de pastores evangélicos também foram identificados com o mesmo teor de agressão do primeiro.