Rio Branco
22°C
terça-feira, 11 de agosto de 2026
23:55

“Tem família que faz uma refeição por dia, e feijão com arroz já é muito”, diz pastor do Acre em Moçambique

Em tempo de Covid-19, conheça o trabalho de Aymar Watinou, o acreano de coração que chefia uma missão de evangelização na África oriental

RESLEY SAAB

Às 3 horas da madrugada deste domingo, 12, horário do Acre, 10 horas na sua atual residência, o congolês naturalizado brasileiro Aymar Roger Watinou, 46 anos, começava a primeira transmissão ao vivo do dia, desde a África austral, em língua portuguesa, para a celebração da Santa Ceia a partir de uma plataforma de vídeo para o povo moçambicano.

Há dois anos, ele lidera uma missão evangélica acreana no continente africano, organizada por uma das mais significativas instituições evangélicas do Acre, a Igreja Batista do Bosque, com sede em Rio Branco. Em Moçambique, ela se chama Igreja Batista do Bosque da Beira a 10.923 quilômetros da capital acreana, no país localizado na parte mais ao sul da África oriental, e que é banhado pelo oceano Índico.

Em tempos de pandemia, OPINIÃO conversou por telefone com o médico veterinário de formação, que morou no Acre por 17 anos, tornou-se pastor evangélico, casou-se com a riobranquense Márcia, e que com ela teve dois filhos, a Beatriz e o Rafael. Ele narra os desafios de pregar o Evangelho numa das regiões mais pobres do mundo, em Beira, cidade de pouco mais de 530 mil habitantes.

Nesta entrevista, Watinou relembra os momentos de tensão vividos em março de 2019, quando o país foi devastado pelo ciclone Idai, deixando pelo menos 446 mortos e 128 mil desabrigados. Na ocasião, mesmo com a sugestão da direção da Igreja de retornar ao Acre, ele optou por ficar na África com a família, enfrentando então um dos maiores desafios da sua vida, mas sem deixar de desassistir as famílias que precisavam do seu apoio.

Neste momento, com a infestação da Covid-19 pelo continente, o maior desafio está sendo o de continuar o trabalho evangélico, que é feito via redes sociais, já que o templo está fechado e boa parte dos membros não tem internet em casa. Nesses casos, os grupos de WhatsApp e os serviços de mensagens via SMS ajudam neste trabalho. Confira os principais trechos da conversa.

Opinião Neste tempo de muito cuidado com a pandemia do novo coronavírus, como é o desafio de falar de Cristo para centenas de famílias pobres num dos mais lindos continentes do planeta, mas ao mesmo tempo tão carente de infraestrutura?

Aymar Watinou Com a igreja fechada fisicamente, estamos usando a plataforma do Youtube para evangelizar. Neste domingo, realizamos a cerimônia da Santa Ceia por meio de um vídeo. Mas aquelas famílias que não têm acesso à internet aqui, nós distribuímos previamente os elementos – que são o pão e o vinho representado por um suco de uva — aos líderes, que por sua vez os levam até essas famílias nos bairros acompanhado de um texto prévio da cerimônia. Mas também usamos recursos como o SMS e o WhatsApp.

Opinião Além do português, você fala o francês, que é a sua língua materna, o inglês, o espanhol e uma dezena de dialetos regionais. Também conhece muito sobre a África e seus meandros geopolíticos. Mesmo assim, acredito que não é fácil coordenar uma igreja evangélica num país que ainda é muito carente de tudo. É isso mesmo?

Aymar Watinou Sim. A cidade de Beira é a segunda maior de Moçambique, que já foi um dos países mais pobres do mundo. Já melhorou muito com a ajuda de organizações humanitárias também locais, que tentam ajudar o país e seu povo. O custo de vida é alto aqui e lidar com a classe média baixa é uma situação que não é fácil. A realidade do Acre não se compara com a realidade nossa local. Aqui, para muitos, a igreja, talvez, seja a única porta de saída para uma vida mais segura, não apenas espiritual quanto material mesmo.

Historicamente, Moçambique precisou muito de ajuda humanitária, e o setor evangélico não fica atrás. Muitos missionários têm ajudado, mas não é só trazer a palavra, senão também o sustento, o alimento propriamente dito. É criar também um meio para que eles possam ter, por exemplo, uma Educação pré-escolar também. Então, você percebe um cenário bem precário.

Tem família que faz uma refeição por dia. Dizer pro acreano que ele vai comer só arroz choca. É difícil, e tem que ter pelo menos um complemento, um ovo que seja. Então se você oferece a eles feijão e arroz aqui já é muito para muitos. Já está no lucro.

As condições são bem precárias, mas em meio a tudo isso, Deus tem nos dado graça para que possamos continuar propagando o Evangelho neste lugar.

Opinião Como você acha que é a sua relação com Deus?

Aymar Watinou Quando a gente quer algo de Deus, geralmente, a gente O busca quando queremos alguma coisa, porque entende assim: eu vou para perto Dele e Ele vai me oferecer, tanto coisas materiais quanto coisas que você não pode tocar. E hoje, a maioria das pessoas vai atrás de coisas palpáveis. E o que é mais importante são as coisas que você não pode tocar. Uma felicidade, uma paz, uma alegria, uma esperança, um amor. São coisas que você não pode tocar e que Deus sempre tem à disposição para cada um de nós.

Então, você pode buscar a Deus por uma necessidade momentânea. Porém, a Bíblia diz que quando estávamos sendo gerados no ventre de nossas mães, Deus já tinha um propósito para as nossas vidas. Desse modo, o mais importante é que você possa encontrar o teu verdadeiro propósito com Deus.

Hoje nós [a minha família] estamos no lugar em que Deus queria que estivéssemos. Eu acredito que o mais importante é quando o ser humano consegue isso: você começa a viver a plenitude de Deus na sua vida. A gente experimenta isso hoje. E torço para que realmente, possamos cumprir essa missão com sucesso, não para [satisfazer] o homem, mas para Deus.

Opinião E como é a reação dessas pessoas humildes diante da necessidade de confiar na igreja?

Aymar Watinou Toda mudança de liderança gera um impacto muito grande no modo como a igreja trabalha. O trabalho de se adaptar a uma nova liderança, que no nosso caso, já é era a terceira, gera uma dificuldade imensa. E nós sabíamos que precisávamos reconquistar a confiança das pessoas.

Quando o ciclone nos atingiu, as pessoas pensavam que iriam ficar sozinhas, que iríamos voltar para casa e deixá-las à própria sorte. O fenômeno climático que enfrentamos foi devastador. Acabou com tudo e as pessoas ficaram perplexas.

O ciclone varreu a nossa igreja, derrubou o nosso templo, mas serviu para ficarmos de pé com essas famílias, para mostrar-lhes que estaremos sempre ao lado delas, aconteça o que acontecer. E ficamos para que depois não duvidassem que nosso trabalho é o de cuidá-las para Deus. De que todas as coisas cooperam para Ele e que precisávamos estar unidos.

Foi um despertar. A tragédia nos deixou ainda mais unidos e nos trouxe coisas positivas também. Quando passou, tudo tinha sido destruído, mas meu carro estava intacto. Nenhuma telha sequer sobre ele. Eu entrei e fui ajudar no socorro às pessoas.

Eu sou feliz por ter tido a oportunidade de ficar com as pessoas, mesmo podendo voltar para o Acre, se quisesse. No fundo, entendi a velha máxima dos grandes líderes que são os últimos a deixarem o campo de batalha. Graças a Deus por isso.