Enquanto muitos jovens abandonam a escola mesmo com todos os benefícios, idosos como Francisco Nunes e irmã Cícera dão lições de perseverança e inspiram a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no município

Na contramão da evasão escolar juvenil, histórias comoventes de perseverança vêm ganhando destaque em Boca do Acre, no sul do Amazonas. No coração da floresta, o que seria motivo de desculpa para muitos — distância, idade avançada, falta de estrutura — torna-se combustível para outros realizarem o sonho de estudar.
Francisco Nunes, de 74 anos, é um desses exemplos vivos. Morador da comunidade Cruzeirinho, ele enfrenta, diariamente, uma verdadeira batalha para chegar até a escola onde cursa a EJA (Educação de Jovens e Adultos). A escuridão da estrada, a lama do inverno amazônico e o cansaço acumulado pela idade não são suficientes para apagar o desejo de aprender a ler e escrever.
“É um exemplo do que estamos fazendo à frente do PACTO EJA. Tô muito feliz por isso”, comemora Adautivo da Silva, professor-formador do projeto no município. Segundo ele, o programa tem resgatado vidas e sonhos que pareciam esquecidos.
Outro exemplo emocionante é o da aluna Cícera Tito Serafim, carinhosamente chamada de “irmã Cícera” pela comunidade. Aos 60 anos, ela percorre cerca de 3 quilômetros a pé todos os dias para chegar à escola. No trajeto, atravessa um igarapé conhecido pela presença de cobras, mas a fé e a determinação falam mais alto. “Ela não falta um único dia de aula. É de arrepiar”, afirma o professor.
Essas histórias contrastam de forma chocante com a realidade de muitos jovens da zona urbana. Amparados por programas sociais como Bolsa Família, transporte escolar gratuito e o incentivo financeiro do programa Pé-de-Meia, ainda assim muitos escolhem se afastar da escola.
“É um verdadeiro tapa na cara desses jovens”, desabafa Adautivo. “Enquanto eles têm tudo à disposição e optam pela malandragem, nossos idosos estão mostrando que a vontade de aprender não tem idade e supera qualquer obstáculo”, reitera.
A equipe do PACTO EJA, liderada por Adautivo da Silva, segue firme no propósito de expandir o projeto e levar a alfabetização para quem realmente deseja aprender, valorizando histórias como as de Francisco e Cícera, que ensinam mais que qualquer lição de sala de aula: mostram que o saber é, de fato, um ato de resistência.
“Esses alunos são o retrato da esperança. Eles nos ensinam todos os dias que nunca é tarde para aprender”, conclui o professor-formador.


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