Denys de Oliveira foi preso preventivamente durante Operação ‘Sangue Amargo’ nesta terça (13) com outro vereador, advogado e servidor do Idaf. Carne clandestina era proveniente de gado sem vacinação
A Polícia Federal no Acre (PF-AC) divulgou áudios entre o vereador Denys de Oliveira e uma mulher chamada Ellen com quem ele negocia a compra de carne clandestina. Em um dos trechos da negociação, a mulher diz que vai verificar se tem alguma sobra de fraldinha, lombinho e chicote para mandar alguns pacotes.
Em seguida, o vereador pergunta se as carnes ficaram muito pretas, pois seriam dadas a crianças em escolas do município de Plácido de Castro. A reportagem tentou contato com a Câmara de Vereadores da cidade para saber se o órgão vai se posicionar sobre o caso, mas não teve retorno.
“É pro consumo das crianças entendeu? Eu num quero… Aí eu sou político e tal… Não quero que… errar em nada disso aí”, responde o vereador.
A vendedora explica que a carne foi tirada do diafragma da vaca assim que separam o pulmão da barriga e que a cor do corte é mais escura, mas que é “bem limpinha” e não tem cheiro de nada.

Oliveira foi preso preventivamente na operação ‘Sangue Amargo’, que foi deflagrada nesta terça-feira (13) pela PF. Além de Oliveira, um outro vereador, um advogado e um servidor do Instituto de Defesa Agropecuária do Acre (Idaf) também tiveram as prisões preventivas decretadas.
O delegado Fares Feghali, responsável pelas investigações, afirmou que o grupo era altamente estruturado e já atuava no município há pelo menos três anos. Ele afirma que decidiram deflagrar a operação justamente pelo risco à saúde pública.
“O núcleo da organização criminosa era sediado em Plácido de Castro, foi, inclusive, um município lesado, pois parte da carne foi direcionada a colégios municipais. Mas, por se tratar de um bem que é exportado com muita facilidade, não podemos afirmar que esse crime se restringe a um ou outro município. O perigo é coletivo e ainda não temos a extensão dessa organização”, afirma.
Em outro trecho da conversa divulgado pela PF, o vereador fala com uma pessoa identificada apenas como Gerson sobre o pagamento de propina para a polícia boliviana e que já negociou tudo.
“Eu te dou o dinheiro e tu paga lá o ‘polícia’ que o comandante lá já liberou”, explica o vereador na conversa.

Gado furtado e sem vacinação
Ainda na investigação, os policiais descobriram que parte da carne vendida era proveniente de gado furtado. O restante era de gados que não foram submetidos às regras da vigilância sanitária, ou seja, não seguiam normas de vacinação contra a febre aftosa e, por isso, havia o risco de contaminação.
“Os valores que eles lucraram ainda estão sendo levantados, mas sabemos que era um grupo que atuava há muito tempo. Fizemos um acompanhamento minucioso dos atos da organização nesse período. Acreditamos que a quantidade de carne vendida ilegal e crimes praticados foi realmente enorme”, destaca.

Atuação do grupo
Quanto a atuação do grupo criminoso, Feghali explica que os vereadores exerciam influência política nos órgãos públicos, além de facilitar que os comparsas fugissem das fiscalizações para que pudessem praticar os crimes.
“Pelo o que foi apurado os vereadores estavam na alta cadeia da organização criminosa. Um deles estava no alto comando e o outro responsável por facilitar a emissão das documentações”, explica.
Ainda conforme o delegado, o grupo falsificava as Guias de Transporte Animal (GTA) com ajuda do servidor do Idaf, faziam pagamento de propina a servidores públicos e a própria organização mantinha grupos de vigilância sobre os órgãos de fiscalização para avisar quando eles estariam atuando.
“Era uma estrutura já organizada há muito tempo e preparada para se esquivar dos órgãos de fiscalização. Os vereadores também atuavam na compra e venda de gado. Uma parte das carnes foi vendida para escolas por meio de licitação para a prefeitura, o restante foi vendido em açougues e frigoríficos”, destaca.
Operação ‘Sangue Amargo’
A operação da PF investiga uma organização criminosa especializada na venda de carne clandestina que seria destinada a escolas e estabelecimentos comerciais no estado do acre.
Ao todo, foram cumpridos 26 mandados judiciais, sendo oito de prisão, 10 de busca e apreensão e oito ordens de indisponibilidade de bens dos investigados no município de Plácido de Castro.


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