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domingo, 5 de julho de 2026
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Boca do Acre perde Manoel Cândido, o soldado da borracha de 111 anos

A longa e recheada história de vida de Manoel Cândido chegou ao fim à meia noite de ontem, quinta-feira (10). Aos 111 anos de idade, aquele que se acredita ter sido o soldado da borracha mais velho da região, quiçá do Brasil, não resistiu às complicações de um acidente que culminou com a fratura em uma de suas pernas e cerrou os olhos para sempre.

Conversamos com a neta de Manoel, Amanda Santos, que nos contou que o avô havia caído no banheiro e quebrou a perna. O bravo e longevo soldado da borracha foi encaminhado para a capital do Acre, onde passou duas semanas, e retornou para casa depois de ouvir dos médicos que ele não resistiria à cirurgia, em razão da idade avançada.

Amanda diz que seis dias após o avô chegar em casa, ele começou a sentir falta de ar, e com a piora no quadro de saúde, o idoso veio a óbito.

Conversamos com a Secretaria Municipal de Saúde de Boca do Acre, para sabermos se a causa da morte de Manoel teria alguma ligação com o Novo Coronavírus, mas a resposta foi negativa.

Quem foi Manoel Cândido?

Natural de Boca do Acre, Manoel Cândido da Silva foi pai de cinco filhos e teve por esposa a senhora Belmiro dos Santos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Manoel trabalhou como carregador de borracha, produto exportado para as grandes potências mundiais, para a fabricação, dentre outros artigos de primeira necessidade, dos pneus dos veículos que estavam no campo de batalha.

Na entrevista, realizada no ano de 2019, Manoel contava que a cidade de Boca do Acre, na época de sua juventude, era de vida fácil, mercadoria barata e muita fartura, principalmente do pescado.

Perguntado do sobre o segredo para ter uma vida tão longa, na iminência de completar 11 décadas de existência, 111 anos de idade, ele respondeu que durante todo esse tempo de vida, nunca ingeriu uma só dose de bebida alcoólica. Manoel disse ainda que o cardápio preferido por ele era carne de animais silvestres, popularmente conhecida na região como “carne do mato”.

Na época, para Manoel, estar com 110 anos de idade era se sentir diariamente um guerreiro. “E quero viver mais, se Deus quiser”, ressaltava o centenário.

A terra dos centenários

Boca do Acre parece ser a terra dos soldados da borracha que já passaram dos 100 anos de idade. Em 2018, também faleceu em Boca do Acre Juvêncio Arruda, que na época, aos 109 anos de idade, foi considerado o soldado da borracha mais velho do Brasil.

O soldado da borracha participava ativamente da exploração da borracha muito antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, data-se que desde a década de 20 do século passado, Juvêncio já trabalhava nas barrancas do alto rio Purus, região esta que fora um dos maiores redutos de produção de borracha nos anos 40, depois do estado do Acre.

O que é o soldado da borracha?

Soldado da borracha foi o nome dado aos brasileiros que entre 1943 a 1945, foram alistados e encaminhados para a Amazônia, com o objetivo de extrair borracha para os EUA e países aliados que participavam da Segunda Guerra Mundial. O 2º Ciclo da Borracha só foi possível em decorrência dos compromissos assumidos pelo Brasil e EUA através dos Acordos de Washington.