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“Um dos maiores personagens da história do Acre”, fala historiador sobre dom Moacyr

O nome de dom Moacyr Grechi é recorrente em vários episódios que montam a história do Acre. O historiador Marcos Vinícius Neves comentou a importância das ações e da própria figura do religioso que ficou conhecido por sua intrepidez ao defender a justiça social. Devido ao seu trabalho, ficou conhecido como o “bispo dos pobres”.

A Diocese de Rio Branco divide-se em dois momentos: antes e depois da chegada de dom Moacyr, um catarinense de nascimento, mas que escolheu o Acre para viver. Suas ações sempre foram além da evangelização e gestão da Igreja.

Talvez por isso, seja tão difícil falar sobre ele. De acordo com Marcos Vinícius, Grechi teve tanta importância de diferentes maneiras que é difícil avaliar o que foi mais significativo. “Apesar de achar que tudo foi relevante. A presença dele no Acre foi imprescindível. Sem dúvida nenhuma foi um dos personagens mais importantes da história do Acre nos últimos 50 anos. Sem detrimento de nenhum outro personagem. Ele foi um dos maiores”, ressaltou.

Ele teve um trabalho extraordinário na defesa dos mais pobres, dos mais humildes, dos trabalhadores da área rural, florestal ou urbana. Ele foi responsável pela implantação das Comunidades Eclesiais de Base que tiverem uma importância imensa na resistência a nova política implantada pela Ditadura Militar e todas as suas consequências nefastas que teve para o povo acreano.

O bispo apoiou a criação de mecanismos e instituições de resistência aos desmandos e violências cometidos pela Ditadura ou a partir da Ditadura, como por exemplo, apoiou o jornal Varadouro, que denunciava os absurdos que estavam sendo cometidos.

“Ele apoiou lideranças como o João Eduardo que foi assassinado em uma das invasões na Baixada, em Rio Branco. Ou seja, o povo que estava sendo expulso dos seringais e vinha para a cidade e que não tinham em quem se socorrer, recorria a ele”, comentou o historiador.

Moacyr era adepto da Teologia da Libertação, apesar da sua prática cotidiana ter sido mais ampla do que qualquer teologia escrita, apontou Marcos.

A Teologia da Libertação é uma corrente teológica cristã nascida na América Latina que parte da premissa de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres e especifica que a teologia, para concretar essa opção, deve usar também as ciências humanas e sociais.

É considerada como um movimento supradenominacional, apartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais.

Além disso, dom Moacyr apoiou muito o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e suas principais lideranças como Wilson Pinheiro, Raimundão, Chico Mendes. “Ele viabilizava o espaço de refúgio, conversa e debate dessas forças populares que resistiam aos desmandos e violências”, disse o historiador.

A preocupação com o sistema educacional praticado na época era latente no religioso. Por isso, ele trouxe educadores como Evaristo de Luca e Itamar Zanin para desenvolver no Colégio Meta uma educação mais avançada do que a que vinha sendo praticada no Acre.

“Foi uma figura extraordinária do ponto de vista social, cultural, político. Me faltam critérios e recursos para avaliar sua importância espiritual para o povo acreano. Ele era um homem que não se esquivava de nada e que defendia com muita coragem os mais necessitados. A perda é gigante e incomensurável”, finalizou o historiador.

OLHO:

“Ele apoiou lideranças como o João Eduardo que foi assassinado em uma das invasões na Baixada, em Rio Branco. Ou seja, o povo que estava sendo expulso dos seringais e vinha para a cidade e que não tinham em quem se socorrer, recorria a ele”, comentou o historiador.

 “A perda é gigante e incomensurável”, finalizou o historiador

Quem foi dom Moacyr?

Natural de Turvo, uma pequena cidade – a 230 km de Florianópolis, a capital de Santa Catarina, um dos Estados mais ricos e prósperos do Brasil, mas que também convive com desigualdades sociais. Por isso, o bispo sempre foi preocupado com a condições de vida da população mais pobre.

Dom Moacyr fundou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em 1972. O objetivo do bispo era lutar pelo direito à diversidade cultural dos povos indígenas. Seu grande sonho era fortalecer a autonomia destes povos na construção de projetos alternativos, populares, uma vez que os secretariados regionais, o Cimi oferece aos missionários, índios e suas organizações apoio e assessoria nas áreas jurídica, teológica, antropológica, de comunicação, formação, educação, saúde e documentação.

A importância da Comissão Pastoral da Terra

A criação da “Comissão de Terras”, ligada à linha Missionária da CNBB, que teria por objetivo: “interligar, assessorar e dinamizar os que trabalham em favor dos homens sem-terra e dos trabalhadores rurais, e estabelecer ligação com outros organismos afins, também foi proposto e defendido por dom Moacyr.

Coube a dom Moacyr, que representara a Presidência da CNBB no encontro de Goiânia, encaminhar as resoluções à Presidência da CNBB e ao Conselho Episcopal de Pastoral (CEP). Tais resoluções foram aprovadas na reunião da CNBB, realizada em 26 de agosto.

Nesse período também foi criado o Movimento de Reintegração dos Hansenianos (Morhan), a CPT, no Acre.

Hoje, 43 anos depois, os trabalhadores rurais reconhecem que a CPT teve importante papel na defesa das pessoas contra a crueldade deste sistema de governo, que só fazia o jogo dos interesses capitalistas nacionais e transnacionais, e abriu caminhos para que ele fosse superado.

Comunicar é preciso, dizia dom Moacyr

A TV Diocese, principal veículo de comunicação da Diocese de Rio Branco, hoje realidade, foi sonhada por dom Moacyr.  Ele também pretendia montar uma rádio, mas não teve tempo para isso, uma vez que foi transferido para Porto Velho (RO), em 1998. “Comunicar é preciso”, dizia o bispo.

Para provar a iniciativa visionária na época sobre a necessidade de comunicação, ele apoiou a criação no Acre do jornal Varadouro, em 1977, a iniciativa reuniu ativistas e jornalistas como Sílvio Martinello e Élson Martins.

Em suas 24 edições, o Varadouro deu voz aos trabalhadores do campo e aos índios da região, ajudando-os a organizar um forte movimento que integrou a luta por melhores condições de vida e a defesa da floresta contra a ganância predatória de madeireiros e pecuaristas. Foi o primeiro jornal a publicar uma entrevista com Chico Mendes, líder dos seringueiros e ambientalista que se tornou um colaborador ativo da publicação.

OLHO

Para provar a iniciativa visionária na época sobre a necessidade de comunicação, ele apoiou a criação no Acre do jornal Varadouro, em 1977, a iniciativa reuniu ativistas e jornalistas como Sílvio Martinello e Élson Martins.

 

Bispo também apoiou movimentos populares

Dom Moacyr sabia que precisava fazer algo além do trabalho de evangelização. Por isso, apoiou os movimentos populares, tanto na capital quanto no interior.  Ainda nos anos de 1970, ele instituiu as Comunidades Eclesiais de Bases (ECB), incentivado pela Teoria da Libertação, após o Concílio Vaticano.

A opressão de fazendeiros aos trabalhadores mais humildes, notadamente em Rio Branco e no vale do Alto Acre, também  fez dom Moacyr  se envolver, diretamente, na organização de sindicatos.

Os três primeiros sindicatos criados com apoio de dom Moacyr foram: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Branco.

Apesar de Chico Mendes ter ficado famoso no mundo inteiro, outro sindicalista, Wilson Pinheiro, foi assassinado a mando de fazendeiros do Alto Acre, oito anos antes, em julho de 1980.

Em dezembro de 1988, quando assassinaram Chico Mendes, dom Moacyr foi o primeiro a exigir das autoridades competentes a prisão dos mandantes e dos assassinos.

Dom Moacyr abriu as portas da Catedral e do Palácio do Bispo aos líderes comunitários, estudantis e sindicais. Quando assassinaram João Eduardo, líder de uma invasão em uma área na Baixada da Sobral que mais tarde viria se chamada do bairro João Eduardo, foi o bispo o primeiro a sair em defesa dos sem teto. O religioso sempre esteve preocupado com a violência no campo.

Esquadrão

A voz mansa escondia um homem de coragem. Sem medo de falar o que sabia, dom Moacyr não hesitou em falar dos crimes cometidos pelo Esquadrão da Morte, liderado pelo ex-deputado federal Hildebrando Pascoal. Depôs na CPI do Narcotráfico, instalada pela Câmara dos Deputados, em 2000.  Aos membros da Comissão, disse tudo que chegou ao seu conhecimento, desde cartas indicando cemitérios clandestinos até local de desova de corpos.

Ao se tornar arcebispo de Porto Velho em 1998, dom Moacyr dedicou parte da sua vida a contribuir com a criação da Faculdade Católica de Rondônia, da Comissão Justiça e Paz de Rondônia, além de fortalecer os Centros Sociais da Arquidiocese.