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sábado, 4 de julho de 2026
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Acreanos vão até Porto Velho prestar últimas homenagens a dom Moacyr Grechi

A morte do arcebispo emérito de Porto Velho e ex-bispo de Rio Branco dom Moacyr Grechi, que aconteceu no início da noite de segunda-feira, 17, em decorrência de duas paradas cardíacas, levou muitos acreanos até a capital de Rondônia para prestar as últimas homenagens ao icônico religioso. O corpo do líder católico é velado na Catedral Metropolitana Sagrado Coração de Jesus desde a meia-noite de terça, 18, e será sepultado às 9h (horário de Rondônia) desta quarta-feira, 19.

Membro da Pastoral da Juventude no Acre, a universitária Valéria Santana foi de ônibus até a capital rondoniense para participar do velório de Grechi. Ela conta que embarcou na Rodoviária de Rio Branco no fim da noite de segunda. Ela, que conviveu com o religioso nos últimos anos dele como bispo da capital acreana, diz que ele deixa um legado de vida, exemplo de cristão e ser humano maravilhoso que por escolha própria resolveu viver em defesa da vida da população pobre.

“Quando iniciei os trabalhos na Pastoral da Juventude [PJ] não tinha proximidade com ele. A gente se aproximou quando ele veio para a Arquidiocese de Porto Velho devido às atividades da PJ, que sempre foram acompanhadas muito de perto por ele. Na faculdade de Jornalismo, iniciei uma pesquisa sobre um boletim noticioso feito pela Diocese de Rio Branco na época em que ele era bispo. Descobri que ele incentivou essa produção como forma de evangelizar”, relata Valéria.

Segundo a universitária, a pesquisa a levou até Rondônia para fazer entrevistas com o então arcebispo de Porto Velho. Ela diz que além da evangelização acessível para os povos da floresta, o ex-bispo de Rio Branco fez com que o informativo também denunciasse os desmandos nas décadas de 1970 e 1980. “Depois disso a gente se aproximou muito mais. Para mim, ele é fundamental para a história da igreja, da Amazônia e do Acre por dar voz as pessoas que não tinham”.

A assistente administrativa Regina Menezes também saiu na noite da última segunda para ir ao velório do religioso. Emocionada, ela lembra que conheceu o arcebispo há mais de 20 anos ao ser inserida na Pastoral de Juventude. Ele também foi professor de Teologia da religiosa, que o considera como um pai, amigo e tutor leal. “Tínhamos uma relação de pai e filha. Foi um grande mestre e sempre estava disposto a ajudar a todos. Ele estendeu a mão a toda uma geração”, fala.

Segundo Regina, dom Moacyr considerava os membros da PJ como filhos e costumava a chamar os filhos e netos dessas pessoas de netos e bisnetos dele. “Era uma relação de amor familiar. A notícia da morte dele foi devastadora. Perder um homem íntegro, um santo da Amazônia é irreparável e nos deixa extremamente tristes. Passou um filme na minha cabeça, desde a entrada na PJ até como assessora diocesana. Apagou-se uma luz na floresta em meio à escuridão que vivemos”.

Durante o velório, a Arquidiocese de Porto Velho recebeu cartas de lideranças religiosas de todo o mundo e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A perda também gerou consternação em políticos como a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, do governador Gladson Cameli, do ex-senador Jorge Viana e outros. Na sessão da Assembleia Legislativa (Aleac), o deputado Jenilson Leite (PCdoB) apresentou um Projeto de Lei pedindo que o Instituto de Educação Profissional e Tecnológica (Ieptec) volte a ser denominado Instituto Dom Moacyr.

Missas

Durante o velório de dom Moacir Grechi na Catedral Metropolitana Sagrado Coração de Jesus, três missas de corpo presente foram realizadas durante a terça-feira. A Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, também realizou no início da noite de ontem uma missa de sufrágio da alma pela morte do ex-bispo do Acre. Além disso, diversos discursos, declamações de poemas dedicados ao religioso, interpretações de músicas e discursos foram feitos por acreanos e rondonienses em Porto Velho.

Última missa em Rio Branco

Apesar de estar há mais de uma década vivendo em Rondônia como arcebispo emérito do estado vizinho, dom Moacyr Grechi vinha ao Acre com certa frequência. De acordo com Antônio Venâncio dos Santos, amigo do religioso desde sua chegada ao Acre no início dos anos de 1970, o arcebispo esteve em Rio Branco em setembro do ano passado. Na oportunidade, ele ficou hospedado na igreja de Santa Inês, no bairro Bosque e ministrou sua última missa em terras acreanas.

“Dom Moacyr também visitou a Souza Araújo, criada quando ele era bispo de Rio Branco. Ele tinha um carinho muito grande por aquele local e por aqueles que estão internos naquela unidade de saúde. Toda vez que vinha ao Acre, ele ia na Souza Araújo onde ficava por horas conversando com as pessoas e funcionários do local”, conta Santos ao Jornal Opinião. O amigo diz que a figura do ex-bispo de Rio Branco é um exemplo prático de como viver as palavras ensinadas por Jesus.

Ligação com o Acre

Nascido em Turvo, Santa Catarina, em 1949, o então bispo dom Moacyr chegou ao Acre no ano de 1972 para substituir dom Giocondo Maria Grotti, que falecera no ano anterior em acidente de avião na cidade de Sena Madureira. Mais que um sacerdócio, o bispo teve atuação destacada na defesa das questões sociais ligadas às camadas mais pobres da sociedade. Grechi foi um dos fundadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Comissão Pastoral da Terra (CPT). Apoiou causas como as defendidas por Chico Mendes e na defesa dos pobres.

Também defendeu seringueiros, indígenas e posseiros que tinham nele a mão protetora e acolhedora diante das ameaças. Colaborou com denúncias de grupos de extermínio, com a formação de sindicatos de trabalhadores rurais e de associações de moradores, além de articular reuniões entre os menos favorecidos com os governantes dando voz aos que eram calados pelas opressões sociais. Em 1998, dom Moacyr deixou o Acre depois de ter sido nomeado arcebispo de Porto Velho. Aposentou-se aos 75 anos e foi substituído em 3 de março de 2012 por dom Esmeraldo Barreto de Farias.