Por Alejandro Fonseca Duarte
Robert Linda subiu no avião que muitas vezes o levaria às alturas para de lá se precipitar até abrir seu paraquedas e pousar em lugar combinado. Só que desta vez não tinha combinado nada. Teria escutado que um padre se pendurou em balões de festa para flutuar pelos ares sem saber de horas, coordenadas, chuvas, correntes de ventos ou nuvens de tormenta. Discípulo presumido de Matías Pérez voou pelo espaço, perdido nas distâncias e foi achado no mar sem vida.
O paraquedista era o filho maior de uma família encabeçada por Lucelinda Silva da Costa e Lucelindo Costa da Silva. Mulher e marido há mais de vinte anos tinham um avô em comum. Seu Lúcio. O casal esperou por muitos anos para registrar os filhos com o escrivão que chegaria de barco pelo rio. Todos os anos a cada cheia estavam prontos para a ocasião e mais um filho entrava na conta. Registraram de uma só vez dezesseis filhos. Todos sadios e formosos. O último a tirar a certidão, dentre os atendidos no cartório improvisado, seria Lúcio Silva da Silva, que por obra e graça do escrivão virou Robert Linda. Assim souberam surpreendentemente ao receberem quatro anos mais tarde as folhas impressas preservadas em plásticos duros. Chamaram reiteradamente por Robert Linda. No final, somente faltara ser entregue o documento de Lúcio Silva da Silva que, por exclusão, virou Robert Linda. A família ficou conformada e até feliz por ter um Robert Linda, irmão de quinze irmãos e filho dos seus pais Lucelinda e Lucelindo. O porquê da inusitada troca ficaria esclarecido e relatado pelo próprio Robert Linda, muitos anos depois.
O avião subia no céu claro entre finas nuvens. O sol radiante na tarde não anunciava chuvas, só tempo bom. Robert se apaixonou pelos aviões desde o dia em que um taxi aéreo perdido na região avistou as poucas casas disseminadas ao longo da margem direita do rio. Um estreito retângulo de chão com um lado delimitando a linha de casas pareceu o lugar providencial para pousar. Que seja o que Deus quiser!
O pouso ou a queda foi um sucesso. O piloto sobreviveu e viu-se sair de uma poeira espessa da cor do rio. Tinham essa cor suas botas altas, suas calças, sua blusa, seus cabelos, seus olhos. Sua pele parecia branca; mãos e rosto tão brancos, que os habitantes da cidade-fila-de-casas pensaram que era um homem feito de cera de vela, cera lisinha onde a poeira não se fixava.
O avião ficou destruído. Sem asas e sem rodas. As pás da hélice se espalharam ao longo do atrito do bico da nave com o solo sem rochas. Um sulco profundo, reto pareceu ser desenhado por um grande tronco, como um lápis, que ficou em pé, inclinado sem mão de sustentação.
Quando o resto de avião estacionou, indicando o lugar que viraria uma praça, já o piloto andava na direção dos atônitos moradores, concentrados (juntos) e concentrados (pensativos) perante o acontecimento, perplexidade nos rostos e poeira preenchiam os espaços.
Georgina, conhecida por 3-em-1, se adiantou, quebrou a poeira e antes de se apagar o som dos cacos tinha pego o piloto pelo braço e enfiado na sua casa, da qual avisou para os atônitos, concentrados e perplexos que poderiam ficar sossegados, pois cuidaria dos traumas do piloto e o apresentaria curado e descansado para todos verem. O piloto tinha a impressão de haver quicado elasticamente no chão, rebotando para cair na cama de Georgina numa das casas da cidade-fila-de-casas, como as demais, de frente para o rio, onde numa área bem aberta iria desfrutar do ar puro e úmido e da paisagem ciliar, por tanto tempo, que quando perguntado pelos parentes, que o faziam morto, respondeu viver na eternidade do paraíso.
Desde o dia do pouso forçado, 3-em-1 foi chamada a mulher do piloto. Era viúva de três maridos. Teria ficado viúva dos três num mesmo dia em que uma árvore centenária, já oca, veio abaixo durante um temporal deixando presas as pernas de um, a barriga do outro e a cabeça do terceiro. No velório, em meio da dor, sem se dar conta, calculava que se a árvore houvesse caído nas pernas, na barriga e na cabeça de um só, ainda lhe restariam dois maridos, mas não foi assim, o prejuízo era total, e chorava e fazia chorar às moças que há tempos a criticavam e diziam agora que era castigo por ter pego tantos maridos, tirando das três filhas casamenteiras da Lucelinda a possibilidade de se casar, cada uma, com um deles. As casamenteiras, ideologicamente, acusavam 3-em-1 de ser egoísta. -É uma monopolizadora, tem três e nós três, zero. A Lucelinda armou em segredo esse assunto porque as três não eram filhas de Lucelindo, mas irmãs dos três maridos, que tinham com elas o mesmo trio de pais. Uma história que teve um final geneticamente feliz e um início de paixões entre arvores e barrancos.
Georgina teve que justificar, no dia seguinte, não poder apresentar o piloto curado e descansado porque ainda dormia na tarde. A curiosidade era tanta que mesmo assim insistiram em vê-lo (prometeram que não o perturbariam), mas a Georgina não o permitiu. -De jeito nenhum! Pediu silêncio, -pelo Amor de Deus! em todo lugar e ao redor da casa.
Os pássaros se ouviam cantar e a respiração do piloto era leve, como sopros no vento calmo da prolongada sesta. A cidade aguardava, esperava alguém que iria chegar. A expectativa era grande, mas a ansiedade e a curiosidade não alcançaram ser maiores que a paciência. Enquanto isso, o piloto sonhava, e os sonhos percorriam a sua vida e história, desde sua infância nos morros altos de onde era possível assistir os pousos e decolagens no aeroporto da cidade junto ao mar, até a sua morte durante um pouso forçado sobre um estreito retângulo de chão com uma linha de casas de um lado; ao bater no solo as asas, a hélice e o trem se quebraram, o resto atritava como arado em meio a um barulho e um estremecimento que sacudiu todos seus ossos e sentidos; aquilo foi precedido e acompanhado de um medo espantoso, que afugentou a noção de realidade, trocada pela consciência de subir ao céu numa nuvem de poeira.
O piloto tinha uma complexão física musculosa, uma pele negra, cabelos encaracolados, olhos entre negros e a cor do mel. Os traços fortes o distinguiam dos pés à cabeça. Tinha nascido num aglomerado de casas penduradas umas às outras quase no topo de um conjunto de morros onde a alegria, o som e o trabalho em local próximo ou distante, constituíam um patrimônio compartilhado. O exercício de ir e vir por vielas e escadarias íngremes deram uma contribuição para a sua resistência física e o exemplo de abnegação e entrega ao quefazer da subsistência, liderados por pai e mãe, contribuíram para sua persistência e urgência de vencer. Com essas faculdades participou da escola e descobriu saberes antes mesmo de poder fundamentá-los. Em ocasiões não muito frequentes, por alguma razão não recolhida no sonho, desceu dos morros com pai, mãe, irmãs e irmãos; ou somente com a mãe ou o pai, para andar depressa por lugares onde ficava entretido olhando e devia ser puxado no braço para acompanhar o ritmo mais rápido da caminhada. Lembrava terem comido algo em algum lugar da praia ou na base dos morros na volta, e mesmo cansados subiam o morro mais céleres e expertos do que o andar pelas calçadas, ruas e areias da cidade lá embaixo.
Devorava conceitos na escola e atingia habilidades teóricas e práticas com uma agilidade surpreendente. Da escola de numerosos alunos, todos iguais, partia uma união contagiante, para participar ou apoiar os grupos que competiam em dança, esporte, conhecimentos, e qualquer outra iniciativa criadora organizada permanentemente pelas professoras, também todas iguais, como mães de todos os filhos, mães de todos os alunos. Com o passar dos anos não viu mais alguns companheiros da escola e sentia saudades; a outros também não, mas sabia das suas artes e ofícios pela rádio, a TV, na pintura grafiteira, na dança, como esportistas, taxistas, pedreiros, policiais, manicures, cabelereiras, vendedores ambulantes. Muitos e muitas tiveram filhos ainda cedo e construíram um quarto no morro, colado àqueles dos seus pais.
Lia e se sentia um homem de letras, assimilava pela lógica da contemplação, a experimentação e a abstração e se sentia um homem de ciências. Quando terminou a escola não pensou duas vezes em aceitar a chance vinda através de uma das queridas professoras: a garantia de uma vaga numa instituição tecnológica em mecatrônica.
Estava bem preparado para entender e saber. E essa abertura ao conhecimento, sua inteireza espiritual e seus compromissos com a transformação -de onde venho para onde vou, com que ajuda- foram como um motor potente cuja impulsão o converteu, em rápida e ininterrupta sequência, num engenheiro mecatrônico, mestre em fluidodinâmica e doutor em dinâmica espaço-temporal da navegação. Com o diploma de engenheiro chegou um prêmio que substituiu por uma viagem de avião com toda a família, professoras da escola do morro, amigos e vizinhos. 150 pessoas decolaram do aeroporto, -cuja movimentação observara do morro, todos os dias da sua infância-, num voo da força aérea, especialmente preparado em homenagem ao melhor aluno do instituto e, segundo o reitor, de um futuro promissor e de orgulho para a nação. Sobrevoaram a cidade, os morros, as florestas, o mar, continuaram para ver do ar outras duas cidades vizinhas entre as quais muito céu e nuvens, rios, estradas, caminhos e o verde dos campos. A extroversão da alegria, um sempre presente -olha lá! e as novidades de serem atendidos como viageiros de primeira classe aconteceram por mais de três horas até retornar ao aeroporto de origem. Fotos, filmes, choros, risos, abraços e beijos cifraram as lembranças desse voo. Como uma tênue passagem de um aeroporto a outro, sonhou seu mais sublime encontro com o inspirado amor da sua vida. Fez uma pergunta descuidada a uma falsa loira quando se dispunha a jogar algo numa lixeira cilíndrica prateada rematada com uma borda de borracha preta. Pode não ter escutado, fingido não escutar, não estar interessada em responder, mas resolvida a adequada destinação do lixo voltou-se para ele, que tinha ficado uns passos atrás, o fitou com um olhar castanho, sussurrou com uma boca vermelha, mostrando uns dentes brancos, uma cara fresca, um corpo elegante, vestindo negro de finas listras verticais brancas, umas unhas vermelhas que pareciam parte dos seus grossos lábios ao final dos dedos de mãos firmes e grandes; estava pronta na sala de embarque a seguir para o mesmo avião que ele abordaria. Voando lado a lado ofereceu uma conversa deliciosa e inteligente. E teve certeza de que era uma falsa loira, quando meses depois sentiu seu coração partido desenhado em cabelos bem pretos, com sabor de pera. Um amor simplesmente perdurável. O sonho tranquilo foi repentinamente substituído pelo pavor de um pouso forçado. Tinha saído de passeio em um avião monomotor de hélice para olhar a imensidão das florestas no entorno da base dos taxis aéreos da cooperativa de um amigo de tempos de estudante. Um vento sudeste, frio, influenciou na formação de cumulonimbus, numa área úmida e quente. As nuvens de tormenta despejaram chuvas copiosas, raios cruzavam o espaço entre nuvens e entre estas e a terra; decidiu voar mais longe e se afastar por segurança. Demorada a situação, impedido de voltar em tais condições, com combustível insuficiente, procurou sem direção predeterminada um lugar para pousar. Viu um estreito retângulo de chão paralelo a um rio e a uma linha de casas, pareceu o lugar providencial para pousar. O motor parou de funcionar, o fez funcionar, e novamente parou se precipitando naquele lugar. Pavor, horror da morte! Suando e gritando se incorporou na cama, -acordei!
O piloto olhou para si mesmo e arredor. Vestia uma bermuda ampla e uma blusa sem mangas. Não lembrava do seu percurso andado entre os restos do avião e a casa. Entendeu que estava vivo. Encontrou os olhos atentos da Georgina, sentada num balanço no quarto. Tinham passado quase dois dias de haver rodopiado pelo chão. Georgina contou para o piloto o que queria saber. Riu finalmente da sua tez branca de pavor, contrastante com sua pele tersa e negra. Ela contou que enquanto dormia, tomou água várias vezes e até comeu umas frutas. Levou-lhe a urinar e deu um banho. Sua roupa e botas estavam agora limpas. Ele não soube o que responder, somente estava de volta à vida.
Falaram longamente, entrava a noite e combinaram não ligar a luz, continuaram a conversar na cozinha e comeram e beberam moderadamente, mas o suficiente como para comemorar os acontecimentos. O piloto agradecia cada vez mais, na mesma medida em que tomava consciência da sua existência e sua sorte. Falaram de seus povos, das suas vidas, sem parar; ela escutava admirada, depois era a sua vez de escutar. Nessa alternância, voltaram ao quarto em penumbras, a amizade estava feita, sentaram-se e se deitaram na mesma cama e sem saber quando o sono os dominou, dormiram acreditando que ainda se falavam coisas dos dois mundos, que começaram a se engrenar.
De manhã a multidão estava lá fora e uma pequena delegação bateu suave, mas insistentemente, na porta da casa.
Georgina tinha acordado cedo a se ajeitar e preparar o café da manhã. Depois disso voltou à cama e deitou-se pensando. Quando bateram à porta, acordou o piloto, -estão tocando. E lhe pediu se aprontar o mais rápido possível. Ele foi ao banheiro e se sentou a esvaziar o intestino, falou para si, que estava se desfazendo de qualquer merda do passado. Tomou banho e falou para si, que estava jogando fora os primeiros líquidos do presente. Usou a escova de dentes nova que a Georgina deixou para ele. Ambos se dirigiram à porta e juntos apareceram rindo. Abraçaram o piloto, desejaram felicidades, rememoraram o susto, mostraram o local onde encalhou o avião e o adiantado dos trabalhos de conversão do lugar em uma praça, mostraram seu projeto; se apresentaram um por um, crianças e adultos, homens e mulheres. Congregaram-se em comemoração, em festa, falaram tanto quanto quiseram e finalmente o piloto falou. Agradeceu, brincou e apresentou a Georgina como a sua mulher. Foi um gesto ousado, mas que não desagradou ninguém, pois significava que a cidade somava um morador ilustre, um piloto, primeiro dessa profissão entre eles. Alguém interrompeu o discurso para dizer que desde a sua adopção intuíram chamar 3-em-1 de a mulher do piloto. Os risos explodiram. O piloto, mesmo com a sua experiência de vida, achou que nunca tinha assistido a uma manifestação tão espontânea, mas lembrou dos honores da sua graduação e igualou os dois momentos, sem vantagens para nenhum deles.

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