A chegada do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Miami, nos Estados Unidos, nesta quarta-feira (28), acrescenta um novo elemento às divergências entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. A viagem ocorreu após a derrota de Flávio na eleição presidencial e apesar de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinava a entrega dos passaportes brasileiros e proibia o senador de deixar o país.
O episódio acontece em meio a uma relação marcada por disputas comerciais, sanções contra autoridades brasileiras, divergências sobre a regulação de serviços digitais e negociações envolvendo minerais críticos. A proximidade política entre Flávio e Trump também aumenta a repercussão da viagem no cenário diplomático.
Tarifaço de 2025 abriu uma crise comercial
Em julho de 2025, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A decisão foi associada pelo presidente americano ao processo judicial contra Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, além de críticas a supostas restrições à liberdade de expressão no Brasil e a questões comerciais.
O governo Lula contestou o uso de tarifas como instrumento de pressão política e defendeu a soberania brasileira. A disputa comercial ampliou o atrito entre os dois países e passou a envolver também questões institucionais e regulatórias.
Sanções contra Alexandre de Moraes
Em 30 de julho de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Global Magnitsky. A administração Trump alegou que o magistrado havia promovido detenções arbitrárias e restringido a liberdade de expressão, acusações contestadas por autoridades brasileiras.
A medida agravou a crise diplomática por atingir diretamente um integrante do STF envolvido em processos relacionados a Jair Bolsonaro e outros investigados. Antes disso, o Departamento de Estado americano já havia anunciado restrições de vistos contra Moraes e familiares próximos.
Pix e regulação digital entraram na disputa
Em julho de 2025, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação americana. O procedimento incluiu pagamentos eletrônicos, comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais.
O Pix passou a integrar o debate por sua relação com o setor de pagamentos eletrônicos. O governo americano afirmou que investigaria se determinadas políticas brasileiras prejudicavam empresas e exportadores dos Estados Unidos.
A investigação também abrangeu regras para empresas digitais e outras práticas comerciais. O impasse colocou em discussão as condições de concorrência entre companhias brasileiras e americanas e a autonomia do Brasil para regulamentar serviços no país.
Encontros entre Lula e Trump tentaram reduzir as divergências
Em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Lula e Trump tiveram um breve encontro. Na ocasião, o presidente americano afirmou que os dois haviam estabelecido uma boa conexão e manifestou disposição para novas conversas.
Em 7 de maio de 2026, os presidentes voltaram a se reunir, desta vez na Casa Branca, em Washington. A agenda incluiu comércio, tarifas e minerais críticos. Lula defendeu a redução das barreiras comerciais e a ampliação dos investimentos, com respeito à soberania brasileira e incentivo à transferência de tecnologia.
Apesar das reuniões, as conversas não eliminaram as divergências entre os dois governos.
Flávio Bolsonaro também se aproximou de Trump
Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro se reuniu com Trump na Casa Branca. Segundo declarações do próprio senador, os dois discutiram o tarifaço, o combate ao crime organizado e investimentos em minerais críticos e terras raras.
Flávio afirmou ter solicitado que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. No dia seguinte, ele também esteve no Departamento de Estado e se reuniu com integrantes da administração americana.
A interlocução aproximou o senador de autoridades do governo Trump e colocou temas de segurança, comércio e recursos naturais no centro de sua agenda com Washington.
Nova tarifa e disputa por minerais críticos
Em julho de 2026, os Estados Unidos anunciaram novas medidas tarifárias contra produtos brasileiros, após a investigação comercial iniciada no ano anterior. As decisões ampliaram a pressão sobre setores da economia brasileira e mantiveram as tarifas no centro das negociações bilaterais.
Outro ponto de interesse são os minerais críticos e as terras raras, utilizados na fabricação de baterias, equipamentos eletrônicos, tecnologias de energia e componentes de defesa. O Brasil busca atrair investimentos para ampliar a exploração e o processamento desses recursos em território nacional.
Enquanto os Estados Unidos procuram diversificar fornecedores estratégicos, o governo brasileiro defende que os investimentos tragam benefícios econômicos ao país, com maior valor agregado e transferência de tecnologia.
Trump questionou a eleição brasileira
Na segunda-feira (26), após a vitória de Lula no segundo turno, Trump questionou a organização da eleição brasileira e afirmou que o processo “pareceu fraudado”, sem apresentar evidências para sustentar a declaração. O presidente americano também disse manter uma boa relação com Lula.
As declarações acrescentaram um novo componente político às divergências entre os governos. A reação americana ganhou relevância diante da relação de proximidade entre Trump e integrantes da família Bolsonaro.
Flávio viajou apesar de decisão do STF
Após a derrota eleitoral, Flávio havia afirmado em vídeo publicado nas redes sociais que não pretendia deixar o Brasil. No entanto, na segunda-feira (26), Alexandre de Moraes determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de sair do país.
Na noite de terça-feira (27), Flávio e a família entraram na Argentina pela fronteira terrestre e embarcaram em um avião particular com destino declarado a Guayaquil, no Equador. Depois da escala, a aeronave seguiu para os Estados Unidos e chegou à região de Miami na manhã de quarta-feira (28).
Segundo informações divulgadas sobre o caso, Flávio utilizou um passaporte italiano para entrar na Argentina, enquanto os familiares utilizaram documentos brasileiros. A viagem ocorreu apesar da ordem judicial, ampliando a repercussão política do episódio.
Governo brasileiro acompanha possíveis efeitos diplomáticos
A chegada do senador aos Estados Unidos levanta dúvidas sobre os possíveis reflexos diplomáticos da viagem, especialmente diante das críticas anteriores do governo Trump a decisões judiciais brasileiras e da relação próxima entre o presidente americano e a família Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, o governo Lula busca preservar os canais de negociação com Washington. A relação bilateral envolve interesses econômicos relevantes, como o comércio, os investimentos e a cooperação no combate ao crime organizado.
O episódio pode aumentar a pressão política sobre os dois governos, mas seus efeitos diplomáticos dependerão das medidas adotadas pelas autoridades brasileiras e americanas nos próximos dias.


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