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quarta-feira, 3 de junho de 2026
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O general tem razão: a filosofia é menos importante

O general tem razão: a filosofia é menos importante

Vice do candidato Jair Bolsonaro pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), o general Antônio Hamilton Martins Mourão questionou em 19 de setembro o fato de crianças de 10 e de 11 anos estarem “estudando filosofia em vez de se dedicar a outras matérias mais importantes”. Eu, que não sou general, não comando homens, não passo de um professor menos importante porque leciono Filosofia; porém, mesmo assim, concordo com ele: como professor de Filosofia, sou menos importante, devendo ser substituído por um professor mais importante, quem sabe, um de Moral e Cívica.

Guardo com muito apreço em minha biblioteca um livro do então 2º grau, “Educação, Moral e Cívica”, de 1978, onde Edília Coelho Garcia cita filósofos, como o conhecido Blaise Pascal e o desconhecido francês André Verguez. Entretanto, na parte “A Consciência Moral”, Edília “exclui” a filosofia para se referir à moral, embora ela se sirva de conceitos kantianos. Talvez o general ignore, mas, ainda que instrumentalizada, a filosofia estava em Moral e Cívica.

Mas concordo com o general: a Filosofia é matéria menos importante, por isso que Moral e Cívica a instrumentalizou em 1978. Crianças de 10 anos não devem ler sobre Platão, pensador menos importante, tão menos importante que é estudado há mais de 2 mil anos em países atrasados educacionalmente, como a França, a Alemanha e a Inglaterra. Em um futuro governo de Jair Bolsonaro, o seu ministro da Educação precisará avisar a franceses, a alemães e a ingleses que a Filosofia é matéria menos importante. Esses países que investem muito pouco na educação desconhecem que a Filosofia é matéria menos importante.

Concordo com o general: crianças de 11 anos não precisam saber sobre Aristóteles, porque o Brasil não deve seguir exemplos de países europeus em que crianças leem sobre Aristóteles, estudam Aristóteles. Esses países desconhecem que Aristóteles é menos importante do que a matéria Moral e Cívica. Porque não sabe o que é ética, o Estagirita não tem como ensinar às crianças o que seja a moral. Aristóteles não sabe o que é ética, por isso a Filosofia é matéria menos importante. Pátrias subdesenvolvidas ainda ensinam Aristóteles a crianças, visto que tais países, como a França, a Alemanha e a Inglaterra, não sabem há mais de 2 mil anos que os filósofos gregos são menos importantes. Tenho certeza de que, uma vez no governo, o futuro ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, general Antônio Hamilton Martins Mourão, ensinará a essas nações atrasadas que a Filosofia é matéria menos importante.

Concordo com o general: crianças não devem estudar Filosofia, pois estudar Filosofia é atraso, por isso que as crianças francesas, alemães e inglesas são atrasadas. Desde o século 12, por exemplo, a Universidade de Oxford se edificou sobre as bases da Filosofia e, como todos nós sabemos, é uma das piores universidades do mundo. Penso, inclusive, que Filosofia como matéria para crianças seja coisa de países subversivos, como a França, a Alemanha e a Inglaterra.

Concordo com o general: as crianças precisam estudar matérias mais importantes, por exemplo, Ensino Religioso Confessional. Um professor-pastor é mais importante do que aprender religião por meio da Filosofia, porque, no lugar de ser motivado a pensar a palavra e a relação entre elas por meio do raciocínio, o aluno ouvirá do professor-pastor a palavra pregada como palavra de fé, transformando a sala de aula, portanto, em extensão de sua igreja, o que não ocorre em países subdesenvolvidos e subversivos, como a França, a Alemanha e a Inglaterra.

Concordo com o general: a Filosofia é matéria menos importante, devendo ser substituída por matérias mais importantes. Platão é menos importante. Aristóteles é menos importante. São Tomás de Aquino é menos importante. Santo Agostinho é menos importante. René Descartes é menos importante. Immanuel Kant é menos importante. Xavier Zubiri é menos importante. Só a França, a Alemanha e a Inglaterra não sabem disso. Precisamos avisar-lhos.

Concordo com o general e, já contando com a vitória de Jair Bolsonaro, rasguei o meu diploma de professor de Filosofia, posto que sou um professor de menor importância. Estou muito animado para me dedicar aos estudos de Teologia Dogmática pelo período de um ano e, com isso, lecionar Ensino Religioso Confessional, matéria mais importante. Pregarei a palavra do Senhor aos alunos. A escola será a minha igreja.

Será que professores franceses, alemães e ingleses de Filosofia seguirão o meu patriótico e divino exemplo? Espero que me sigam, porque, do contrário, seus países jamais sairão do atraso educacional.

Concordo com o general.


aldoAldo Tavares é professor de Filosofia e Língua Portuguesa. Artigo publicado no Jornal do Brasil