Prefeitura de Rio Branco manda PM ‘atropelar’ trabalhadores com salários atrasados e dá o seu recado: ‘A atrocidade e intolerância já são a marca da administração de Tião Bocalom’
REPÓRTER OPINIÃO
Um tiro no próprio pé. É dessa forma que os analistas políticos do Acre estão classificando as posturas nada simpáticas da administração do prefeito Tião Bocalom contra os seus trabalhadores, nestes primeiros meses de mandato à frente da Prefeitura de Rio Branco. E o ápice desta insensibilidade chegou nesta segunda-feira, 15, quando a prefeitura mandou dispersar um grupo de manifestantes que tentava receber dois meses de pagamento em atraso de salários, acionando o pelotão do Choque, uma divisão do Batalhão de Operações Especiais, o Bope, da Polícia Militar do Estado do Acre, que utilizou-se de cassetetes, de balas de borracha e sprays de pimenta.

Nos principais sites de notícias, a repercussão foi geral. Parte da oposição chamou o prefeito de ‘covarde’, enquanto parlamentares de direita, como o deputado estadual Roberto Duarte Junior (MDB), que alertou que “os garis e as margaridas não são fora da lei. Ao contrário, eles desempenham um papel fundamental na nossa cidade. E, por isto, merecem ser tratados com mais respeito”.
OPINIÃO foi até os manifestantes – e à própria diretoria da SMZC -, e o que ouviu da maioria foi um fato estarrecedor: eles afirmam que a origem de todo esse imbróglio é de um único nome: Cícero Jean de Almeida Rocha, diretor-operacional da Secretaria Municipal de Zeladoria da Cidade Rio Branco (SMZC).

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam categoricamente que Cícero Jean de Almeida Rocha tenta, a todo custo, desestabilizar a administração do atual secretário da SMZC, Joabe Lira de Queiroz, este último tido como um gestor que “não apita em nada” no comando da pasta, conhecido por atitudes quase sempre apáticas diante de situações que exigem medidas enérgicas, como é o pagamento das empresas terceirizadas para que seus trabalhadores possam receber.
“A ideia é sabotar mesmo a administração do Joabe, incitando o caos aqui dentro. E essa situação dos terceirizados da limpeza pública não estarem recebendo se deve a ele”, ressalta um servidor da SMZC.
Como resultado disso tudo, na manhã desta segunda-feira, 15, o Bope foi acionado para botar para correr pelo menos 200 trabalhadores que estavam no seu direito de protestar, em frente à sede da secretaria, na Baixada da Sobral.
Em muitas décadas, não se via o aparelho estatal, representado pela polícia de choque, sendo usado por um administrador público contra trabalhadores na razão de exigir o que lhes é de direito.

Raimundo Nonato Gomes de Paiva era um deles. O servidor que trabalha no serviço de capinagem, afirma que o seu patrão alega não ter recebido ainda da SMCZ. “Pelo amor de Deus. Isso é uma pouca vergonha o que estão fazendo com a gente. Tenho filhos pequenos para criar. Tenho uma família e só do que preciso é receber pelo que contribuí, o meu suor, não levar pimenta na cara. Não somos bandidos”, desabafou o servidor.
Há duas semanas, parlamentares como o vereador Adailton Cruz (PSB), estiveram na segunda manifestação, ouvindo os trabalhadores e o que afirmou foi que a direção da SMCZ já havia repassado os recursos para o salário dos trabalhadores, todos terceirizados, para as empresas. Os empresários, por sua vez, negam que tenham recebido os depósitos na conta.
“Alguém está mentindo nessa história e vamos fazer novas conversas com todos, principalmente, com os gestores da secretaria, para saber como podemos resolver essa situação. Do jeito que está não pode ficar”, afirmou o vereador.
OPINIÃO tentou contato com Cícero Jean de Almeida Rocha, no telefone 999*-16*, mas não conseguiu falar com o diretor-operacional da SMCZ sobre as acusações que pesam contra ele.
Repercussão é grande
Diversos foram as lideranças políticas, sindicais e outras entidades da classe trabalhadora que repudiaram o ato da Prefeitura de Rio Branco de chamar o Choque da Polícia Militar para dispersar os servidores.
A deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC) afirmou que vai acionar o Ministério Público do Estado do Acre para apurar a participação e responsabilidade do prefeito Tião Bocalom.
“Quero repudiar essa atitude autoritária. O governador e prefeito precisam responder juridicamente por atentado aos direitos humanos de garis e margaridas, que já passam fome por não receberem seus salários. É inadmissível tratá-los dessa forma. Eles levantaram os braços, demonstrando claramente que não queriam o confronto, mas mesmo assim foram atacados com cassetetes e spray de pimenta”, lamenta Perpétua Almeida.
O artigo 5º da Constituição assegura a todo brasileiro a liberdade de manifestação de pensamento e garante que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização. “A ação da polícia foi abusiva, pois se utilizou de um uso excessivo da força para dispersar uma manifestação legítima e pacífica. E até agora o governador e o prefeito não apareceram para condenar essa atrocidade. Quem cala, consente, né!?”, afirmou ela.
Já o deputado Roberto Duarte Junior emitiu nota nas redes sociais com o seguinte título: ‘Mais respeito, por favor!’ O texto começa, dizendo que tem acompanhado com muita preocupação as manifestações das Margaridas e Garis, que reivindicam receber salários atrasados.
“Considero lamentável substituir o diálogo pela força policial contra essa classe tão importante de trabalhadores. Não é no enfrentamento que essas situações são resolvidas. Se há reivindicações, é preciso ouví-las para que possamos chegar a um melhor acordo”, diz o parlamentar em um trecho da nota.

E continua: “A Prefeitura precisa buscar uma solução definitiva e pacífica para sanar essa situação. Do jeito que está sendo feito, perde todo mundo: perde a prefeitura, perdem os trabalhadores e perde a população de Rio Branco.
Os garis e as margaridas não são fora da lei, ao contrário, eles desempenham um papel fundamental na nossa cidade. E, por isto, merecem ser tratados com mais respeito”.
O presidente do Partido dos Trabalhadores no Acre (PT-AC), Cesário Braga, também externou indignação. Braga chamou de “covarde” a “atitude da prefeitura de Rio Branco em solicitar instrumento da força policial na dispersão do protesto pacífico realizado por trabalhadores em frente a Zeladoria da capital acreana”.
“Estendemos esse repúdio ao chefe maior da polícia, governador Gladson Cameli, que permitiu o uso de sprays de pimenta e cassetetes contra trabalhadores para realizar a dispersão. Somos solidários aos trabalhadores que, além de estarem há meses sem receber e que têm lutado pelo seus salários, foram agredidos pelo poder público”, disse ele na nota.
“A prefeitura, em vez de mandar agredir os trabalhadores e ficar num empurra-empurra de responsabilidade com a empresa de terceirizados, deveria assumir a responsabilidade de mediadora do diálogo entre prefeitura, empresa e trabalhadores para solução do impasse referente aos salários”, completou Cesário.

MPAC abre investigação sobre ação policial durante protesto de garis em Rio Branco
O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) instaurou uma notícia de fato para apurar a conduta dos policiais militares envolvidos na repressão a um protesto em Rio Branco, nesta segunda-feira, 15. A manifestação era de garis da Prefeitura de Rio Branco, que reivindicavam o pagamento de salários atrasados.
A promotora de Justiça Maria Fátima Ribeiro, titular da Promotoria Especializada de Controle Externo da Atividade Policial, solicitou ao Núcleo de Apoio Técnico (Nat), órgão auxiliar do MPAC, que identifique eventuais vítimas e testemunhas, e que reúna elementos que possam ajudar nas investigações.
Imagens do protesto mostram que os trabalhadores foram confrontados por policiais da Tropa de Choque da Polícia Militar, que utilizaram cassetetes e spray de pimenta para dispersar a manifestação, que ocorria de forma pacífica em frente à Secretaria Municipal de Zeladoria.
O MPAC vai analisar as imagens da manifestação e ouvir os envolvidos para apurar as responsabilidades por eventuais excessos dos policiais na repressão aos trabalhadores. A promotora começa a colher os depoimentos amanhã. (Kelly Souza- Agência de Notícias do MPAC)

Neri comenta sobre episódio envolvendo PM e trabalhadores
da Zeladoria e diz que deixou dinheiro na conta da prefeitura
DELL PINHEIRO
Socorro Neri, ex-prefeita da capital acreana, utilizou as redes sociais para falar sobre a intervenção de policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) no protesto de servidores da Secretaria Municipal de Zeladoria de Rio Branco (roçadores e garis), que estão com seus salários atrasados. A manifestação ocorreu na segunda-feira, 15.
“Não tenho como silenciar ao saber do absurdo praticado contra os trabalhadores da Zeladoria. Convivi com eles e os respeito muito. A todos, minha gratidão pelo trabalho que executam e solidariedade pelo tratamento que estão recebendo! Como, além de tudo, a atual gestão ainda utiliza do expediente da mentira e desinformação. Preciso lembrar que entreguei a prefeitura com 72 milhões de recursos próprios em conta, de saldo”, ressaltou Neri.
Na publicação, ela destacou que sempre cumpriu com suas obrigações como gestora pública, e destacou que a Zeladoria tem suas finanças asseguradas no orçamento anual do município.
“Não deixei atrasar salário de nenhum trabalhador. Minha gestão, pelo contrário, pagou religiosamente em dia, incluindo os salários de dezembro e décimo terceiro. A zeladoria é uma despesa essencial e continuada, com dinheiro já assegurado no orçamento anual da prefeitura. Dinheiro tem e legalidade também. Não recebi qualquer denúncia de irregularidade na execução desses contratos. Se existissem teriam sido apuradas e corrigidas, dado o zelo com que conduzi a gestão. Nada justifica esse dia triste e lamentável!”, disse Socorro.
Nota do Gabinete Militar de Rio Branco
Em relação ao fato ocorrido nessa segunda-feira, 15, no portão da Secretaria Municipal de Zeladoria e Cidade (SMZC), o Gabinete Militar do Município esclarece que houve a necessidade da intervenção da Polícia Militar porque alguns trabalhadores que faziam manifestação, impediam a saída de outros funcionários que não aderiram ao protesto e precisavam realizar o serviço de limpeza nas ruas de Rio Branco.
A abordagem da Polícia Militar foi de forma a acalmar os ânimos dos manifestantes que estavam exaltados e pretendiam impedir que o trabalho da Zeladoria ocorresse normalmente. Por isso, em algum momento houve a necessidade do uso de espargidor de pimenta para dispersar os manifestantes.
O Gabinete Militar do Município reitera o compromisso de zelar pelo cidadão e pela ordem pública.
Cel. Ezequiel Bino
Chefe do Gabinete Militar do Município


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