Existe uma imagem da Segunda Guerra Mundial que insiste em me acompanhar: a de 6 de junho de 1944, o Dia D, quando as praias da Normandia viraram o cenário em que os Aliados desembarcaram para mudar o rumo da história e iniciar a derrota definitiva da Alemanha nazista de Hitler.
Sob o sol da manhã, milhares de jovens caminharam de peito aberto sob a tempestade de chumbo. Eram rapazes comuns que deixavam para trás o conforto de casa, despedidas apressadas e promessas que jamais se cumpririam. Tombaram cedo, mas morreram por um propósito maior: libertar o mundo da tirania e devolver a paz à humanidade.
O luto de tantas famílias foi doloroso, mas aquele sacrifício não foi em vão. O mundo chorou por eles e até hoje reconhece a grandeza do seu gesto. A memória daquela travessia permanece viva e respeitada, porque cada passo dado naquela areia deixava um legado eterno.
Quando fecho os livros e olho pela janela, a distância entre a Normandia e a nossa realidade se desfaz no silêncio da noite. Longe dos grandes registros da história, o perigo continua espreitando a cada esquina. Só que agora ele carrega o peso de um distintivo no peito.
Se os jovens da Normandia sabiam por que atravessavam o oceano, o nosso policial muitas vezes caminha no escuro de uma rotina sem um rumo definido. Para não se perder em um exaustivo enxugar de gelo, o servidor precisa saber para onde caminha, guiado por uma política de segurança pública bem estruturada.
A ação policial precisa ser a ponta de lança de uma mudança social permanente. Quando a segurança é integrada à inteligência, à educação e ao cuidado social, abrindo portas para a transformação real de um território, o profissional sabe que seu risco não é em vão. Ele compreende que, mesmo no limite do sacrifício, sua entrega constitui um legado que permanece.
Nos meus mais de vinte anos acompanhando operações por este país, vi muitas vezes o oposto disso. Em uma das maiores tragédias recentes no Rio de Janeiro, um amigo que estava na linha de frente me deu um testemunho que nunca esqueci. Ao lado dos corpos dos colegas mortos e feridos no asfalto, os policiais se olhavam perplexos, em choque, perguntando em silêncio: “Para quê? Qual o fim disso tudo? Por que estamos aqui?”.
É o desespero de quem percebe que, assim que as viaturas vão embora e a poeira baixa, a vida naquele território continua exatamente do mesmo jeito. Diferente dos jovens da Normandia, esses homens não entram para a história como fundadores de uma nova era na segurança pública — tornam-se apenas vidas consumidas em um teatro sem fim.
Existe, contudo, outra dimensão tão dolorosa quanto a falta de rumo: a falta de reconhecimento.
Ao chegar em casa e encarar o silêncio do quarto, o policial carrega um peso que vai além do cansaço físico: a sensação de ser invisível para a sociedade que jurou proteger. Essa invisibilidade é o sintoma de uma cultura que naturalizou o sacrifício alheio, tratando a segurança como um serviço notado apenas quando a tragédia bate à porta.
O respeito na sociedade costuma caminhar abraçado ao prestígio das posições e das fortunas. O policial, ao contrário, precisa provar seu valor diariamente, em silêncio e diante de limites salariais sufocantes. Entre o aplauso protocolar das solenidades e a rotina esquecida do dia a dia, a alma do servidor se encurva. Afinal, não é apenas o perigo da rua que desanima o forte; é a incômoda sensação de ser lembrado apenas quando o alarme toca, e esquecido assim que a poeira baixa.
O coração sangra diante das estatísticas frias dos últimos anos: centenas de policiais civis, militares e penais morrendo em confrontos e emboscadas por falta de estratégia, inteligência e planejamento.
Tenho acompanhado de perto a sombra silenciosa que caminha pelos corredores. Vi a ansiedade roubar o sono, a depressão roer o peito e a angústia pousar sobre ombros que muitos julgam feitos de pedra. É uma dor que não sangra para fora, mas atravessa a alma e corrói a vontade de viver.
Dói ainda mais saber que, no silêncio dos quartéis e das delegacias de todo o país, essa dor invisível tem tirado mais vidas por suicídio do que a própria bala do confronto direto.
O servidor da lei não é estatística, nem peça de xadrez. Ele é o filho, o pai e o amor de alguém.
Por isso, no silêncio da noite, continuo dobrando os joelhos e rezando. Rezo pelos rapazes que ficaram nas areias da Normandia, agradecendo a cada um por ter doado a própria vida para livrar o mundo da tirania e devolver o amanhã à humanidade.
Mas rezo com a mesma fé profunda para que o Estado brasileiro — e os governadores que tratam a segurança como vitrine eleitoral — aprendam a proteger a vida e a mente de quem os defende. Rezo para que nossos policiais não sejam sacrificados no altar da vaidade política, nem consumidos pela solidão, mas guardados com o respeito de quem carrega a paz nas mãos.
Que a prece alcance os céus e toque os homens, porque nenhuma causa é nobre quando se esquece o valor sagrado da vida de quem protege.
Emylson Farias
Delegado de Polícia


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