Segunda Opinião: Daniel Zen fala sobre política em papo descontraído na retomada de entrevistas

Por Tião Vitor

O deputado estadual Daniel Zen (PT) é o entrevistado do programa Segunda Opinião. Zen fala de política, mas em um papo descontraído, onde ele avalia as eleições passadas, comenta sobre o governo Gladson Cameli e condena a Reforma da Previdência, que está sendo discutida no Congresso Nacional.

A entrevista ocorreu no escritório político do parlamentar, localizado no bairro Morada do Sol. O local é usado, também, para a realização outras atividades, como cursos e até escolinha de futebol, já que há um grande espaço gramado propício a diversas atividades esportivas.

“Mudamos para cá recentemente, porque a ideia era ter um espaço maior para desenvolver atividades comunitárias não-realizadas diretamente pelo mandato, mas por entidades parceiras como as ONGs, associações de moradores…”, explicou Daniel Zen.

Uma das atividades que o parlamentar destaca são as aulas de dança, ministradas pela ONG Seja Forrozeiro. “Toda terça e quinta, a partir das 18h, tem aulas de dança aqui. Quem quiser vir, sinta-se convidado. É gratuito!”, disse.

O primeiro tema político tratado por Zen foram as eleições passadas, quando encerrou-se o governo da Frente Popular do Acre, que governou o Estado por 20 anos. O PT foi derrotado na tentativa de eleger Marcus Alexandre e ainda nas candidaturas ao Senado de Jorge Viana e Ney Amorim.

“A derrota é amarga. Agora, ela traz muito aprendizado”, ressaltou. “De outubro pra cá já são quase oito meses. Então, já deu tempo para passar por esse processo de ‘expiação’. Então, já teve a faze de autoflagelo, de autocrítica e de passar pelo processo de depuração. Houveram avaliações nos diretórios e um encontro estadual que foi importante, mas agora é o momento de pensar no futuro”, acrescenta.

O parlamentar disse que já há uma discussão para a reconstrução de uma frente partidária para enfrentar os novos embates que devem surgir nos próximos anos. Contudo, disse que não acredita que venha ter o mesmo nome anterior, ou seja, Frente Popular.

“O que estamos procurando fazer agora é juntar as pessoas e ouvir”, garante. E o que temos feito nesses últimos meses é isso, é conversar uns com os outros, partilhar leitura, percepções, compreensões, análises, diagnósticos e, com isso, a gente vai acumulando e nivelando o entendimento médio, pois, cada um tem uma leitura, cada um tem um entendimento. O consenso pleno é praticamente impossível”, acrescenta. “Talvez, essas conversas vão nos conduzir a um novo agrupamento do campo progressivo de esquerda aqui no Acre. Se vai ter dois, três, quatro ou cinco, dez partidos, não sabemos. Não sabemos quem vai estar disposto a fazer esse novo projeto que, certamente, vai ter outro nome, certamente, não vai se chamar Frente Popular, mas, com certeza, eu, pelo menos, defendo essa tese de que a gente precisa reagrupar e construir, a partir de afinidades programáticas, de concepções, de conceitos, mas construir um entendimento diferenciado”.

‘Vejo a ausência de um projeto definido para o governo Gladson Cameli’

Durante a entrevista, Daniel Zen é instigado a fazer uma avaliação do governo de Gladson Cameli, que teve início em janeiro passado. O petista disse ver boa vontade em Gladson, de boas intenções. Contudo, disse sentir falta de um plano, de um projeto definido ou de metas a serem cumpridas.

“O que existe são alguns indicativos com foco no agronegócio, na economia das despesas de custeio. Mas vamos analisar os números: esse primeiro quadrimestre não é positivo. É claro que não dá pra cobrar resultados de um governo de apenas quatro meses… Mas o indicativo não é muito positivo”.

Na mesma avaliação, Zen comentou a falta de articulação com o Legislativo, o que resultou em algumas derrotas para o governo. O petista classificou essas derrotas como “cabeçadas” e citou os casos envolvendo a nomeação dos dirigentes do Acreprevidência e Ageac, que foram barradas pelos deputados estaduais, inclusive, com votos de sua bancada de apoio na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac).

“Falta articulação e condução mais do que boa-vontade, porque, boa-vontade a gente sabe que existe, vontade de fazer o bem para o povo do Acre, eu vejo que existe.”

Outro ponto que mereceu críticas foi o que chamou de “olhar pelo retrovisor”, referindo-se ao fato de que membros do governo têm justificado as falhas ou os insucessos afirmando que o governo passado deixou o Estado em situação ruim.

“Se a gente parar para observar, praticamente que está no governo hoje esteve conosco há um tempo atrás.”

Daniel Zen garantiu que não há rombo de R$ 3,8 bilhões nas contas do governo conforme vem sendo anunciado pela equipe econômica. Ele considera que o orçamento de um Estado é algo muito cifrado e de difícil compreensão. Tanto que o governo sequer tinha publicado, no primeiro bimestre do ano, o Relatório Resumido da Execução Orçamentária até poucos dias, o que demonstraria a dificuldade do entendimento da peça orçamentária e sua execução.

“E esse relatório diz exatamente o contrário. Não há esse rombo que eles dizem que o ex-governador Tião [Viana] deixou. Isso não está demonstrado nos balancetes financeiros e nos relatórios da execução orçamentária.”

Reforma da Previdência

Para Daniel Zen, a Reforma da Previdência como está posta pelo governo de Jair Bolsonaro é um erro. Se aprovada, garante ele, os maiores prejudicados serão os mais pobres, os trabalhadores assalariados, os trabalhadores rurais e demais categorias que estão na base da economia do País.

Ele condena aqueles que, como trabalhadores, não se veem como tal. “Esses acham que trabalhador é só aquele trabalhador braçal, o pedreiro, o servente de pedreiro, o zelador, a pessoa da limpeza, o cobrador de ônibus”, enumerou. “Você pode ser o professor mais graduado, da melhor universidade do Brasil, ganhar o teto constitucional que é mais de R$ 33 mil, mas se você não tiver os meios de produção, se você não tiver terras, se você não for uma pessoa que tem imóveis para alugar, se você não viver da renda dos juros de aplicações financeiras na bolsa de valores ou em um banco, se a única coisa que você tiver para vender for a sua força de trabalho, seja ela braçal, seja ela intelectual, você é um trabalhador. E tem muita gente que não tem essa consciência”.

Dito isso, Daniel Zen garante que todos os trabalhadores nessa reforma da previdência serão prejudicados.

“Primeiro, porque vai aumentar o tempo de contribuição, o tempo de serviço e a idade mínima. Segundo, porque vai transformar o regime-geral em sistema de capitalização. Quem tem previdência privada vai saber do que estou falando. Numa capitalização individual, só quem contribui é o empregado. O empregador não é obrigado a contribuir com ela. E o empregador também se desobriga de contribuir com o FGTS. Ou seja, a proposta da Reforma da Previdência está desonerando o patrão e botando um encargo maior nas costas do trabalhador”.