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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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REMANDO PALAVRAS

Eis aqui a centelha de um rio em santidade, navegando nas, labaredas das cores vivas: o amarelo sentido do sol, filtrando os queixumes do sono suado; o azul que não pode chover tudo e o vermelho que fica sempre de sentinela, esperando as promessas do sol, escorado na janela da noite. Receio que me apareça um arco-íris equatorial, com início, contudo, sem meio, querendo viver na eternidade.

Quem me dera ser um rio e todos os outros! Eu que ousei mergulhar nas palavras incertas, penduradas nos ramos que dão sentido a vida. A outra margem faz crescer a energia levada pelo rio, que não pertence a ninguém e nem tem companhia.

O acontecimento dessa história, se deu num remanso do rio Acre, exposto ao sol de março. Quando mergulhei nas águas rasas de um poema curto. Como se fosse areia movediça de uma praia, onde chove muito, parei para assisti a delicadeza da brisa cobrindo o lago. Depois de um dia sonhador, fui regar o jardim na popa da canoa, para me senti irmão do pescador que se recolhe sempre ali. Ali ele vive cheio de olhar vago, preso ao colo quente de um rio que queria ser um oceano.

Ainda assim, remo a canoa entre as pinturas do céu e as águas da imaginação. Sobre a canoa meio afundada, fazendo comentários de circunstância, tipo: na Amazônia os rios são de água preta e branca e a floresta até os olhos são verdes.  Quem sabe assim, eu encontre o despenhadeiro que navega toldando a água cristalina da paz.

Como os rios nascem no tabocal de um mundo terno, mais ou menos do tamanho do horizonte, tão pouco sei de vocês filhos famosos do nosso Estado. Famosos também, pelas cheias que adormecem o conceito nanométrico da profundeza que existe em cada gota d’água. Que a era de aquário leve o que está velho pela janela da noite, sem esperar os dois mil anos de água, que previr chegar.

Se alguém um dia reprimir meu olhar só porque se encantou com a cheia, que corre porque é sua sina, me dizendo que é pecado! Impossível não pecar diante da suave corredeira que cobre a terra sem colinas e sem verdadeiras montanhas vou parar de sonhar. Porque o universo de água que corre sobre uma rocha coberta de certezas prometidas. Deixadas como herança, refresca nossas tardes no estio.

Eu, os peixes e as aves que habitamos nos rios, como quem beija a natureza de um modo casto, ainda desconhecemos a argila que rola da cordilheira cobrindo planície. O que realmente sabemos é que os cursos d’águas vivem mergulhados na solidão das promessas, aos prantos.

Eu que não mando na minha emoção, viajo na travessia sem atravessar a líquida queda d’água que dilata e delata a elegância da cachoeira que cai no céu aberto da minha mão. Se no peito o banzeiro desliza, na emoção o coração te borda com a areia branca da outra viagem.

Claudemir Mesquita é membro da AAL. É especialista em planejamento e uso de bacias hidrográficas e presidente da Associação amigos do Rio Acre