Comunidades online formadas majoritariamente por homens têm utilizado, há anos, termos, gírias e códigos próprios para reforçar discursos de misoginia, hierarquias de gênero e hostilidade contra mulheres nas redes sociais.
Esses grupos atuam em fóruns anônimos, redes sociais, canais de vídeo e aplicativos de mensagens, onde disseminam ideologias extremistas relacionadas à masculinidade e aos papéis de gênero.
A pesquisadora e feminista Lola Aronovich, que mantém desde 2008 o blog “Escreva Lola Escreva”, identifica padrões recorrentes entre os agressores virtuais: homens heterossexuais com discursos que frequentemente combinam machismo, racismo e homofobia.
As denúncias e investigações sobre ataques misóginos também contribuíram para a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia na internet.
Principais grupos e comunidades
Entre os termos mais conhecidos utilizados nesses ambientes estão:
Machosfera: conjunto de fóruns, canais e comunidades digitais voltadas à defesa de ideias de masculinidade extrema e oposição aos direitos das mulheres.
Chans: fóruns anônimos da internet que frequentemente abrigam discursos extremistas, ataques coordenados e vazamento de conteúdos íntimos.
Incels: abreviação de involuntary celibates (celibatários involuntários). São homens que afirmam não conseguir relacionamentos amorosos ou sexuais e culpam as mulheres ou a sociedade por isso.
Redpill: termo inspirado no filme Matrix. Nos grupos misóginos, refere-se à ideia de que o homem “despertou” para uma suposta realidade em que mulheres manipulam os homens.
MGTOW (Men Going Their Own Way): movimento que defende que homens se afastem totalmente de relacionamentos com mulheres.
Pick Up Artists (PUA): homens que divulgam técnicas de sedução baseadas em manipulação psicológica para obter relações sexuais.
Tradwife: mulheres que defendem o retorno aos papéis tradicionais de gênero, priorizando a vida doméstica e a submissão ao marido.
Hierarquias e arquétipos dentro desses grupos
Essas comunidades também criaram categorias e hierarquias sociais para classificar homens e mulheres.
Blackpill: visão fatalista segundo a qual o destino social e amoroso do homem seria determinado apenas pela genética.
Bluepill: termo usado de forma pejorativa para homens que acreditam na igualdade de gênero ou em relacionamentos saudáveis.
Chad: arquétipo do homem considerado geneticamente perfeito, muito atraente e desejado pelas mulheres.
Alfa: idealização do homem dominante, líder, bem-sucedido e socialmente respeitado.
Beta: homem considerado comum e submisso, frequentemente ridicularizado nesses grupos.
Sigma: figura popular nas redes sociais que representa um “alfa solitário”, focado apenas em sucesso pessoal.
Stacy: termo usado para mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status social.
Becky: mulher vista como de aparência mediana, colocada abaixo da “Stacy” na hierarquia criada nesses fóruns.
White Knight (Cavaleiro Branco): expressão usada para homens que defendem mulheres ou pautas feministas, acusados nesses grupos de agir apenas para obter atenção feminina.
Gírias e expressões comuns
Além das categorias sociais, existem diversas gírias utilizadas nesses espaços virtuais.
80/20: teoria pseudocientífica que afirma que 80% das mulheres disputariam apenas 20% dos homens considerados mais atraentes ou ricos.
Hypergamy (hipergamia): crença de que mulheres buscam parceiros com status social ou financeiro superior.
AWALT (All Women Are Like That): sigla que significa “todas as mulheres são assim”, usada para generalizar comportamentos femininos.
Femoids ou FHOs: termo extremamente ofensivo que reduz mulheres a “organismos humanóides”, sugerindo inferioridade em relação aos homens.
Especialistas apontam que esse vocabulário funciona como código de identificação entre membros dessas comunidades e ajuda a reforçar narrativas que normalizam a hostilidade contra mulheres na internet.