Quilos de carne como pagamento

Francisco Dandão

No tempo do amadorismo do futebol acreano, período que se estendeu entre as décadas de 1920 e 1980, fazia-se de tudo para atrair os melhores jogadores para vestirem determinadas camisas. Os expedientes eram variados, desde dinheiro vivo, passando por empregos públicos, até mimos.

O valor dos “contratos” dependia de múltiplas negociações entre os cartolas e os atletas pretendidos. Tinha jogador, como o volante Mário Sales, que mais de uma vez ganhou sacos de dinheiro para trocar de clube. E tinha criatura, como o zagueiro Deca, que se contentava em ganhar uma bicicleta.

Como a maioria dos dirigentes dos chamados grandes clubes era influente na política e/ou na sociedade local, conseguir um emprego era até muito fácil. Foi assim que muitos jogadores do Atlético, que era dirigido pelo prefeito Adauto Frota, viraram funcionários da Ufac ou da Prefeitura.

A lista dessa turma que conseguiu uma boquinha como servidor público é enorme. Enquanto escrevo, vou me lembrando de mais de meia dúzia. Casos de Manoelzinho e Nirval (Ufac); Bené, Vanginho, Valdir e Neivo (Emurb); Euzébio, Rui Macaco e Mário Mota (Prefeitura)… Vários!

Havia quem não quisesse ser funcionário público, preferindo mesmo apenas ganhar uma grana do clube que o contratou. Quase todos esses, principalmente aqueles sem formação profissional, uma vez acabada a bola, se arrependeram amargamente. Ficaram mais ou menos à mercê da sorte.

Mas havia também a turma que não ganhava nem salário nem emprego, jogando só por prazer ou em troca de ajudas de custo, pequenos favores, gratificações esporádicas (dinheiro para o ônibus ou para a suposta compra de remédios etc.) e presentes pontuais, depois dos treinos de apronto.

A respeito da compra de remédios, aliás, reza a lenda que havia sujeito que todo fim de semana pedia uns trocados para aviar a mesma receita. De tão antigo, o papel da tal prescrição médica quase se desfazia nas mãos. Puro “migué”, com o dinheiro arrecadado sendo diluído nos botecos das esquinas.

Em meados da década de 1980, contou-me um dia desses o Amarildo Veras, a gratificação do elenco do Atlético era um quilo de carne, doado todas as sextas-feiras por um torcedor do clube que mexia com a criação de gado. A carne era embalada em sacos plásticos com o nome de cada jogador.

“Fora isso”, contou-me gargalhando o Amarildo, “o que eu ganhei com o futebol foi o aluguel de um pequeno quarto, nos meses em que joguei pelo Amapá, e dois braços quebrados quando joguei pelo Juventus”. Daí se concluir, agora dizendo eu, que a carne nunca foi fraca no futebol acreano!