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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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Que os mortos se levantem com Wilson Pinheiro

Li com admirável espanto a notícia de que o Ministério Público Federal (MPF-AC) instaurou procedimento para investigar a investigação do assassinato de Wilson Pinheiro, ocorrido em 1980. O caso até hoje não foi elucidado, por quê? Essa é a grande pergunta do quebra-cabeça de poucas peças que o procurador regional dos Direitos dos Cidadãos, Lucas Costa Almeida Dias, tem sobre a mesa para modelar. Mistério ou omissão do Estado brasileiro? Eu não conhecia esse mecanismo jurídico que atende pelo nome de Justiça de Transição para amortizar a verdade esquecida no tempo. Esquecida?

Wilson Pinheiro

Imediatamente me interessei pelo assunto porque conhecia esse homem de “ouvir dizer”, e de um retrato de rosto sorrindo como menino a brincar com objeto encantado. Era um líder e, ao que parece, todo líder – líder mesmo de verdade, com aquela força de expressão de corpo e rosto nunca vencidos – sempre acaba morrendo covardemente de tiro pelas costas, cara-a-cara com o símbolo eterno da sua luta.

Conheci Wilson Pinheiro pela boca do professor Rêgo, disse que o “companheiro” fora um homem para lá de incomum e que toda a sua inteligência provinha de uma sabedoria instintiva de homem feito de floresta, tinha em si a opulência da mata, e eu lá sabia o que era isso? Falava sobre estratégias, uma espécie de engenharia que só se vê em filmes de guerra: treinos físicos e mentais, manuseio de armas e munições, hierarquia e poder de comando, além dos lugares secretos em que as coisas aconteciam: eram os empates.

O professor contava aquelas histórias como se fossem matéria fina que dá contorno a palavras que só existem no pensamento, como a vacuidade das entrelinhas de “conhece o inimigo” ou “conhece-te a ti mesmo”. Imaginava aquele homenzinho mirrado da foto nas coisas incompreensíveis, eu não alcançava voo alto daquele jeito, misturava guerrilha latino-americana com Napoleão Bonaparte e “Girassóis da Rússia”, me confundia toda, aquilo que pensava ter entendido de repente se espatifava como palha seca no vento. Wilson sabia lutar, tinha fé nos seus ideais – dizia o professor -, era um ser vivo obstinado, tenaz, infatigável como a própria vida.

Conviver com o professor Rêgo me fez enxergar o invisível, ele falava da floresta como um tesouro a ser descoberto e por isso a luta de um homem sempre valeria a pena. Antes de as lembranças se apagarem da sua memória, nas nossas últimas conversas na varanda da sua casa, o mestre sussurrou como uma prece em meu ouvido, já sibilava mudo as suas teses, mas eu compreendia a vivacidade dos seus lábios: a floresta é o eldorado que ninguém conhece, não podem destruir antes de conhecer o que tem lá dentro, é lá que estão as soluções para todos, todos os problemas da humanidade. Tinha uma espécie de magia no que falava, no entanto se referia a ciência pura. Fiquei enrubescida olhando para ele pedindo o impossível, mas não respondi, ele sabia o que pedia para Deus. Além do mais, ainda conservava o retrato de busto em preto e branco do líder seringueiro enfeitando a sua sala. A floresta é minha única ideologia, finalizou com tristeza nos olhos pálidos em raros instantes de lucidez.

Qual é a verdade sobre o assassinato do sindicalista que nunca fora revelada e que o MPF ousa (re)conhecer 41 anos depois? Quem eram os inimigos dos operários da floresta? O que significou à época aquela luta e o que representa esse caso nos dias de hoje? O fato é que a terra tinha valor totalmente distinto, era uma tremenda contradição para os que brigavam por ela: de um lado a especulação fundiária nos moldes da exploração predatória típica do capital rompendo a última fronteira agrícola; do outro, um sistema de valor delicadíssimo que atingia toda a biodiversidade, bem maior do que simplesmente um pedaço de solo seco que precisava de calcário adquirido com dinheiro emprestado do Basa – a esse sistema dos seringueiros o professor denominava de neoextrativismo, uma espécie de economia do futuro. Mas por que os órgãos de Justiça não se importaram com o assassinato do sindicalista? Quem deu a ordem para atirar e quem apertou o gatilho nas costas do homem depois de invadir o sindicato? O que disse o exame cadavérico? Como foi arquitetada a marcha dos “floresteiros” contra os jagunços armados do patrão? O que difere os conflitos pelo uso da terra daquela época para os de hoje? Quem era Wilson Pinheiro e quem tanto ele incomodava com a sua própria existência? Quem mais sucumbiu em emboscada além do líder morto? Um empate não se travava sozinho e não deve se resumir em uma única morte. Que todos os mortos se levantem junto com o Wilson Pinheiro e marchem. A verdade não tem tempo para que a justiça seja feita. Antes tarde do que nunca. In memoriam.

Antonia Tavares é economista e autora do livro “Loucas e bruxas, bruxas e loucas: contos e poeminhas” pela editora 3 Serpentes.