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segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Qual a relação entre o desmate na Amazônia e o agronegócio

O aumento do desmatamento e das queimadas ilegais na Amazônia em 2020, que se acentuou em junho, vem pressionando representantes do setor agropecuário no governo federal a dar respostas à sociedade e a investidores sobre o problema ambiental crescente no Brasil.

Integrantes do Executivo, como a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, participam de conversas com empresários e investidores estrangeiros desde junho para convencê-los a manter negócios com o país, após parte deles ter feito críticas ao quadro na Amazônia e cobrado respostas do governo federal.

12%

foi a alta do desmate acumulado de janeiro a junho de 2020 em relação ao mesmo período em 2019, segundo dados parciais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)

A pasta da Agricultura busca desvincular o setor da crise, a mais recente envolvendo a política ambiental do governo Bolsonaro. A ministra afirma que o agronegócio não tem vínculo com os crimes na Amazônia e, em entrevistas, diz que acusações contra o setor buscam prejudicar a economia do país.

40%

das exportações do Brasil são da agropecuária; participação do setor no PIB (Produto Interno Bruto) foi de 5,18% em 2019, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Por causa da crise, investidores e empresários estrangeiros ameaçaram boicotar ou desinvestir em produtos do país. Um grupo de 29 empresas de investimento de nove países, que juntas administram US$ 3,7 trilhões, fez em junho uma carta manifestando preocupação com a alta do desmate e os planos de permitir a mineração em terras indígenas.

O aumento das cobranças sobre a política ambiental no Brasil repete uma situação de 2019, quando o país foi criticado pela crise das queimadas na Amazônia. As pressões acontecem num contexto em que cresce a consciência de empresas, investidores e bancos sobre os riscos financeiros associados a danos causados ao meio ambiente.

O agronegócio também é cobrado por representantes da sociedade civil por causa de sua posição no governo. O setor foi um dos primeiros a apoiar Jair Bolsonaro quando ele se candidatou a presidente, em 2018. O candidato conquistou o apoio de empresários do setor rural ao prometer afrouxar as regras ambientais no país.

A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, do governo de Dilma Rousseff, afirmou que a visão de parte dos empresários da agropecuária acabou colocando o setor em contraponto ao meio ambiente, como se fosse “patrocinador” da política ambiental de Bolsonaro. “Acho que o agronegócio deveria defender a Amazônia explicitamente”, disse ela em videoconferência em julho.

A crise na Amazônia não pode ser atribuída à atuação de toda a agropecuária, pois os produtores rurais da região não agem da mesma forma nem têm as mesmas práticas. Um estudo publicado em julho na revista Science aponta que parte da origem dos problemas na floresta, no entanto, está de fato ligada a propriedades rurais, embora não ao grosso do setor de agronegócio — alguns imóveis, de grande extensão, acabam impulsionando os índices do desmate para cima.

O que diz o estudo na Science


A pesquisa, realizada por cientistas do Brasil, Estados Unidos e Alemanha, apontou que 20% das exportações de soja e pelo menos 17% das exportações de carne vindas da Amazônia e do Cerrado e enviadas à Europa podem estar ligadas à devastação ilegal.

A publicação afirmou que as fazendas que praticam esse desmate são “maçãs podres” da agropecuária brasileira — que em sua vasta maioria (90%) não comete crimes ambientais. Mas essas exceções causam grande dano. Apenas 2% das propriedades analisadas praticam quase dois terços do desmatamento ilegal.

A pesquisa não foi a primeira a apontar a relação entre a exportação de produtos agropecuários e os crimes no campo. Em 2019, na época da crise das queimadas da Amazônia, uma investigação da Repórter Brasil revelou que a JBS (dona dos grupos Friboi, Seara e Swift) comprava gado de desmatadores na Amazônia.

Após a publicação, o estudo da Science recebeu respostas imediatas de entidades do agronegócio. A pasta da Agricultura afirmou, em nota, que o setor não pode ser “vilanizado” e que deve convocar cientistas para analisar o artigo. O ministério também destaca o dado de que a maior parte das propriedades não pratica o desmatamento ilegal.

Associações que representam produtores de soja dizem que a publicação gera “uma visão distorcida” da produção, segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo. As organizações mencionaram a moratória da soja, instrumento do setor que tenta coibir a compra de produtos vindos de propriedades associadas ao desmate ilegal.

Outro estudo também divulgado em junho mostra outro dado: entre 58% e 70% do desmatamento na Amazônia entre 2008 e 2019 ocorreu em propriedades rurais. A pesquisa, contudo, leva em conta o desmate permitido além da devastação ilegal. A análise é da ONG The Nature Conservancy com dados do Inpe e do CAR (Cadastro Ambiental Rural).

O que acontece com as áreas desmatadas


O TerraClass, um sistema de monitoramento via satélite conduzido pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), mostra o que acontece com as áreas desmatadas de forma ilegal na Amazônia após a devastação.

De 2004 a 2014, ano dos dados mais recentes, cerca de 65% da área de floresta derrubada deu lugar a pastagens usadas para a pecuária extensiva. A agricultura anual (de cultivos como de grãos) tem ocupação muito menor, respondendo por 5,9% do uso de áreas desmatadas em 2014.

MAIS PASTAGENS

Mais de um quinto (22%) das áreas desmatadas identificadas pelo TerraClass corresponde a vegetação secundária, ou seja, a uma área de regeneração da floresta. O dado indica que as áreas derrubadas podem ter sido abandonadas por quem quer que tenha feito seu uso, e por isso estão voltando a crescer.

O economista Ricardo Abramovay, no livro “A Amazônia precisa de uma economia de conhecimento da natureza”, ajuda a explicar o dado. A área desmatada na Amazônia é geralmente pouco propícia para a agricultura e a pecuária, o que gera baixa produtividade — portanto, evasão. Muitas áreas desmatadas na região hoje são ociosas, segundo o autor.

Outra atividade frequentemente associada ao desmatamento ilegal é a grilagem de terras. A grilagem funciona quando pessoas derrubam uma área de floresta pública, invadem o terreno aberto e então o vendem como se fosse seu. A prática tem avançado na Amazônia nos últimos anos, segundo estudos.

O cenário mostra que o desmate ilegal na Amazônia tem um perfil específico: está associado a atividades simplesmente predatórias, como a grilagem, ou à pecuária e, em menor escala, à agricultura de baixa produtividade. Outra característica é que, quando ligado à agropecuária, o desmatamento tende a se concentrar em grandes fazendas. Essas atividades podem incluir atores que fazem parte da cadeia de produção do agronegócio, mas não concentra a maior parte do que é produzido pelos maiores grupos do setor.

nexojornal