Público evangélico se divide em reabertura de igrejas no Acre; histórico de mortes e contaminações é alto entre membros

“Já perdemos muitos pastores e intercessores”, diz membro de igreja. Ainda assim, lideranças se articulam para reabrir templos com a presença de pessoas

REPÓRTER OPINIÃO

Paralela às discussões em torno da decisão monocrática do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), de reabrir templos e igrejas pelo País, no Acre, igrejas de todas as denominações se reorganizam para alinhar celebrações presenciais com seus fiéis, em convocatórias pelas redes sociais.

Uma delas, conhecida pela expressiva capacidade de mobilizar seus filiados em um grande templo localizado entre a Via Verde e a estrada do Calafate, chegou a produzir vídeos com uma pastora pedindo para que os seus líderes incentivem as pessoas lideradas a comparecerem aos cultos. Um deles está previsto para acontecer nesta segunda-feira, 5.

No vídeo, a pastora diz que a igreja garante todos os protocolos de segurança para que as pessoas não se contaminem pelo novo coronavírus, que até este domingo já tinha causado 1.291 mortes no Acre, 7 delas nas últimas 24 horas, e 312 pessoas internadas.

No sábado, 3, o ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro para a Corte, decidiu em sentido contrário. Para surpresa dos colegas de STF, ele permitiu a abertura de templos e igrejas, atendendo a uma associação que diz congregar juristas evangélicos.

No Acre, no dia 6 de março último, o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) havia recomendado ao Governo do Estado do Acre que proibisse eventos religiosos presenciais nos fins de semana e feriados. Na ocasião, o governo informou que os templos não foram incluídos no decreto, que determina o fechamento do comércio aos finais de semana e feriados e que poderiam funcionar por causa do ‘trabalho espiritual e emocional’ que exercem na sociedade.

Então, o MPAC deu prazo de 72 horas para o governo responder se iria acatar a recomendação ou não. Ao final, prevaleceu o bom senso e as instituições mantiveram suas portas fechadas até este sábado, quando se reanimaram a abrir novamente, por conta da decisão de Nunes Marques.

OPINIÃO teve acesso a alguns grupos de WhatsApp que reúnem lideranças evangélicas e verificou que ninguém no âmbito das discussões em grupo questiona suas lideranças religiosas. Porém, em conversas diretas, privadas, o temor da contaminação pela Covid-19 é grande, até mesmo, pelos detentores de cargos importantes nessas igrejas.

“Olha, ninguém comenta nada em respeito ao que entende o nosso líder maior, mas o fato é que isso não vai cair bem. Deixa eu te falar uma coisa: para a Covid já perdemos intercessores, já perdemos pastores, fiéis adoeceram e também morreram. Um outro bocado de pastores ficou doente logo após cultos que pareciam seguros. De modo, que estamos com muito medo de que isso volte a acontecer com muito mais força, já que tá tudo pior agora”, relata um desses líderes, que no grupo prefere manter o silêncio para não desagradar a autoridade maior incentivadora da reabertura.

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Ainda nesta segunda-feira, 5, o ministro Gilmar Mendes deve determinar que seja proibida a presença de público em cultos religiosos em São Paulo.

A expectativa no tribunal é que ele despache em uma ação movida pelo Partido Social Democrático. A legenda contesta o decreto do governador de São Paulo, João Dória (PSDB-SP), que veda celebrações presenciais no estado. Assim que tomar a decisão, o magistrado deve mandar o caso ao plenário para discussão dos 11 ministros da Corte.

Com a decisão de Gilmar chegando ao plenário, a Casa tomará uma decisão definitiva, superando as divergências entre os dois magistrados. Ela será válida para todo o Brasil.