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segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Pesquisa mostra que, apesar de homens morrerem mais, as mulheres são mais impactadas na pandemia

Diovanna perdeu os bicos de faxineira que fazia e o marido, o emprego Foto: Bruno Itan / Extra

Embora os homens morram mais de Covid-19, são as mulheres as mais impactadas pela pandemia no dia a dia. Não se trata só da sobrecarga nas tarefas domésticas, das aulas on-line, do acúmulo de trabalho ou, na outra ponta, do desemprego. Essa é também uma crise da saúde mental, segundo pesquisa da agência humanitária Care International. O coronavírus expôs, como nunca, a falácia da igualdade de gêneros e tem colocado uma geração no limite.

As mulheres, em especial as mães, passaram o último ano se equilibrando entre tarefas. Como o espaço de trabalho invadiu a casa, o tempo gasto com atividades profissionais se misturou à dedicação aos filhos, à organização do lar, à limpeza e aos cuidados com os outros.

Não faltam estatísticas mundiais para tratar da problemática. No Brasil, pesquisa do Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista mostrou a gravidade do tema. Segundo levantamento feito com 2.641 entrevistadas, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia. Do total, 41% afirmaram trabalhar mais na quarentena. O isolamento social colocou em risco o sustento dos lares de 40% delas. A consultoria McKinsey, a ONU e o IBGE também coletaram dados neste.

— A pandemia deixou evidente essa crise do cuidado, algo pouco falado. Historicamente, os cuidados são uma responsabilidade da mulher. É uma complicação que não é discutida nem na esfera pública nem na privada — ressalta Maria Martha Bruno, diretora de conteúdo do Gênero e Número.

Para Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura pela London School of Economics, a chegada dessa crise global humanitária acelerou discrepâncias entre gêneros:

— A pandemia expôs uma problemática que requer medidas urgentes. Acentua diferenças que já existiam na sociedade, mas que estávamos acostumados a naturalizar.

Exaustão e ansiedade

O Brasil vivia o mais perto que chegou de um lockdown quando a funcionária pública Cida Azevedo, de 32 anos, deu à luz uma menina. Dias depois, o marido descobriu que estava com Covid-19. Cida foi para casa da sogra com a pequena Alice, onde também recebeu o diagnóstico.

Além de lidar com todas as inseguranças e demandas inerentes de se tornar mãe, ela se dedicava várias vezes ao dia a medir a temperatura e a frequência respiratória da recém-nascida, com medo de que tivesse contraído o vírus.

Cida trabalha com educação, produzindo material de ensino à distância. O marido é empregado num banco. Dificilmente ela conseguia cumprir as horas contratuais:

— Tive de parar a pós. Eu tenho inveja do meu marido. A minha vida estagnou. Ele foi até promovido antes de a Alice nascer. Será que alguém iria me promover com nove meses de gravidez?

A situação lhe rendeu problemas de ansiedade. Ela começou um tratamento e está agora de licença médica.

Sobrevivendo de doações

Quando a pandemia chegou, Diovanna dos Santos, de 24 anos, fazia bicos de faxineira e o marido trabalhava numa fábrica. O casal morava com o filho de 5 anos, Arthur, numa casinha alugada no Complexo do Alemão com uma varanda que deixou saudades. Com a crise, o marido perdeu o emprego e ela, os bicos. O casal não pôde mais pagar o aluguel:

— Fui para a casa da minha mãe. Como lá não cabia todo mundo, ele foi para a mãe dele. Foi horrível.

Ficaram longe de março a dezembro. Arthur ficou sob os cuidados dela. Por meses, viveram do auxílio do governo. No restante, só sobreviveram com doação de cestas básicas. Como a escola fechou, Diovanna pegava a lição de Arthur pelo WhatsApp enquanto o plano de dados não acabava. Agora, com a conquista de novos empregos, há esperança de melhora.