Rio Acre…movido por amor e admiração, expresso aqui, o meu mais profundo sentimento, diante da tua robusta altivez. Mas quando você passa aberto a alma, fazendo curativos num leito transfigurado. Tenho a sensação que é única forma de você expressar a sua dor, mas o mundo é cego. Às vezes acho que em nada mais acredito. E ao te ver passar nos sonhos, sem choro convulso, terei que repetir a palavra intolerância, uma e outra vez, na mesma cadência de uma vontade sem dono. Por vezes, achei que esperança ai morrer.
Aqui, cercado pelo pranto que é da vida, fico admirando teus limites pela intensidade das chuvas de um certo equador que me chega enfeitado de cores, algumas desguarnecida pelo tempo. Ao barranco me encosto, esperando o inverno chegar, para ver chuva entrar em ação. Fazer a água subir e descer a parte irônica da vida, justamente para dá sentido a um certo existir, que quer ser farto de tudo.
E por tudo que és capaz de realizar, sem se importar com os olhares vagos e indiferentes, próprio da atitude de viajantes medievais, em dias azedos, talvez por circunstâncias. Não espere que o plantio, possa florir as margens, somente com o aroma do tempo. Porque nenhuma enxurrada te desviará da confluência, ao se mostrar viril e piscoso, rompendo a floresta, feito algazarra de adolescente. Por isso, que eu digo sempre: carrego no coração a sensação, que você resistirá com maestria, os intensos agravos humanos e ambientais, que machucam até a alma do nosso manancial.
Um rio na outra corredeira, é um fluxo de incerteza marcado pelo sol da vida que expressa o tempo, no tempo de uma vontade sem dono, que corre tão somente para saciar aqueles que regressam da viagem. “antes mesmo, que a várzea se ausente”.
Agora quero plantar um canavial na popa e inundar-me da água toldada do Rio Acre. No dia em que o correio vier de longe, trazendo notícias da cidade, se por mim ainda tiver alguma estimação, vou comer a baixaria do mercado municipal, cantando a canção antiga. Enquanto a saudade fluvial não inundar a canoa e pintar meu rosto de verde, vou caminhando no rastro dos patos bravos, que aqui, costumam afundar as canoas, a cada revoada.
Nesse cenário molhado, há uma volta fechada, rasa para atravessar o manancial com água baixa, mas preciso medir dois dedos do umbigo, antes que os patos cheguem trazendo a nuvem carregada de brilho do luar. É outono, mas as pedras ainda rolam devagarinho na direção do teu jardim, como se fosse a areia solta do rio criador.
Portanto, senta sem dó ao meu lado, lhe trago o sol de março com estas mãos calejadas, que sonham com um tempo de sonhar, como sonham as folhas de um deserto sem sol. No espaço entre um rio e a floresta, existe um afluente que desce uma Cordilheira no voo de muitas aves. Desce queimando incenso e dedilhando as páginas do meu diário molhado.
Agora que o sino vai replicar, vem comigo… vamos correr o horizonte dos dias, cruzar as pontes do rio antigo pela confluência de todos encontros. Quem sabe assim, agente mergulhe nas letras do olhar que te visita. Não, para te olhar como usuário de tua caudalosa água, mas, almejando convivência harmônica, com a mais bela essência de uma bacia hidrográfica, “a água da vida e a vida da água”.

Claudemir Mesquita, é professor, geógrafo, escritor, membro da Academia Acreana de Letras e Presidente da Associação Amigos do Rio Acre.


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