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segunda-feira, 29 de junho de 2026
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Pai transexual comemora Dia das Mães: “Para mim, o que importa é o amor que existe entre nós dois”

“Desde criança sempre gostei de brincar com os meninos, de jogar bola, de soltar pepeta, peteca. Nunca me importei com as minhas roupas, gostava de bermuda, camisa”, conta Paulo Kirley Morais sobre algumas de suas vivências durante a infância.

O técnico em enfermagem, de 27 anos, é um homem transexual. E também pai de Daniel Morais, de 10 anos. Atualmente, Paulo se encontra afastado de sua carreira profissional por problemas de saúde. “Tive três AVCs por está lutando contra o hipotireoidismo”, relatou.

Antes de Daniel nascer, Paulo conta que por volta de seus 12 anos começou a perceber que ele sentia um desejo por mulheres e que isso havia se tornado ainda mais visível quando começou a frequentar a igreja. Então ao completar seus 15 anos, resolveu largar a tradição que tinha de frequentar o templo religioso. “Foi quando entrei naquela fase que gostava de sair para festas, sair para curtir. Aquela fase que todo adolescente adora.”

Então aos seus 16 anos engravidou. O profissional da saúde explica que desde criança sua condição era de sobrepeso, e por isso não pôde perceber que estava em processo de gestação, descobrindo a gravidez faltando cerca de dois meses para ter o bebê.

“Após eu ter tido meu filho, saí do hospital e levamos ele na minha tataravó e foi ela quem o batizou de Daniel”, explicou.

Paulo então relata que após seu filho ter completado seis meses de idade, saiu para um evento em que acabou perdendo todos seus documentos pessoais. No dia seguinte, quando foi os recuperar, o técnico resolveu cortar suas longas madeixas para a nova fotografia que ficaria registrada na sua carteira de identidade.

“Eu me lembro até hoje de sua reação. Notei que ele [pai de Paulo] havia se assustado com o fato de ter cortado o cabelo curto. Mas a única coisa que ele disse: ‘Tu esperou engravidar para se assumir?’, e eu só respondi: ‘Pelo o senhor tem um neto agora’”.

Ele também explica que a relação com sua mãe acabou se espreitando devido a sua identidade de gênero. Relatou também que como havia feito uma mudança radical em seu visual, o processo de aceitação de sua mãe tiveram muitos conflitos que duraram dois anos até ela o respeitar como homem trans.

Segundo o técnico quando tomou a iniciativa de colocar seu nome social nos novos documentos, não teve apoio de familiares. E como seu pai estava muito doente resolveu “manter as aparências” e não faz as alterações de registro de identidade também pois iria comprometer a documentação de seu filho.

“Antes de algumas das minhas decisões e também por ter ficado comprometido com as sequelas do AVC, eu mesmo fui procurar um psicólogo para buscar me entender melhor. Hoje em dia não tomo mais minhas decisões para manter uma aparência para agradar os outros, vou lá e faço por mim”, relatou.

Preconceito

Durante todo este período de transição que Paulo resolveu tomar após sua gestação, seu filho pôde acompanhar sua nova identidade de gênero.

Daniel Morais diz que fica muito frustrado quando seus colegas de sua escola o interrogam para xingarem ou falarem palavras preconceituosas a respeito de seu pai. Segundo ele ainda não entender porque as pessoas não tomam de conta da própria vida e não veem o lado positivo das pessoas ao invés de se importarem com essas características.

“Quando começa a falar: “Por que sua mãe cortou o cabelo curto? Ela é um homem?”. Eu respondo: “Por que você não pergunta para ela?”. Eu queria entender qual o problemas deles e das pessoas se a minha mãe tem o cabelo curto ou se quer se tornar um homem. Isso é um problema dela, não deles”, indignou.

Paulo diz que durante toda a criação de Daniel sempre o explicou sobre todas as questões para não correr o risco de seu filho ser uma pessoa preconceituosa sobre questões raciais, sexualidade e identidade de gênero.

Amor entre pai e filho

Para Daniel não a importa as decisões de seu pai ele irá sempre o apoiar, pois segundo a criança, Paulo não tem o apoio de poucas pessoas, e que independentemente de tudo ele estará lhe dando o suporte necessário. Por seu pai ser um homem trans, o garoto diz que já está aos poucos colocando em prática o exercício de lhe chamar de pai.

“O que importa para mim, é o amor que existe entre nós dois. De família”, declara Daniel. O estudante também explica que está vendendo seu único jogo de banco imobiliário pois pretende usar o dinheiro para presentear seu pai e sua avó no dias das mães. “Não vou desistir de vender ele. Meu maior desejo no momento é poder dar algo de presente para elas”.

Para o técnico de enfermagem, independente de ser dia dos pais ou das mães é válida a comemoração não apenas às mães que criam seus filhos, pode ter um pai solteiro ou viúvo que cria, um tio, um avô e o amor é o que importa. “Se ele criou, ele também não está assumindo o papel de pai e mãe? Então nada mais justo que receber presente e comemorar esta data também”.

Paulo conta que desde que seu pai faleceu, ele ainda tem muitas indiferenças com sua mãe biológica e a adotiva. Com a mãe adotiva, quem o criou, ela ainda não o aceita como homem transexual, mas ela se esforça para lhe respeitar. Ele acredita que talvez seja insegurança dela, por vivermos em uma sociedade preconceituosa e transfóbica, e ela pode ter receio de ele ser agredido.

Segundo ele também já teve oportunidades de se mudar de Rio Branco, mas por mais que haja muitas indiferenças e diferenças entre ele e sua mãe adotiva, ele o admira muito por toda sua trajetória de vida e não consegue deixar a cidade. “Eu não consigo abandonar aqui por ela. Eu a admiro pela sua história, por mais que haja indiferenças entre nós, me importo muito.”

O técnico finaliza e diz que admira muito seu filho pela maturidade em pouca idade, pois por mais que Daniel seja uma criança, consegue ser um menino bondoso e que sabe respeitar as diferenças que existem, e sempre lhe apoia em suas decisões e para ele isso é muito importante.

Daniel declara que apenas gostaria de ver seu pai feliz sendo quem é e mesmo com todas as suas escolhas, ele o apoiará, pois o amor e a admiração que tem por ele é o que importa.