Os extremos do rio: da enchente à possível seca

De acordo com as pesquisas realizadas pelo professor, o assoreamento (acúmulo de sedimentos nos leitos) do rio ao longo dos 43 anos analisados no seu trabalho são responsáveis pelos problemas cada vez maiores causados pelas enchentes.

As quatro estações do ano são um dos elementos mais consolidados no imaginário popular, porém o Brasil é um dos diversos países do mundo que não tem esses fenômenos naturais em sua completa exatidão, graças ao seu clima predominantemente tropical. O cenário se modifica ainda mais se os estados localizados na Amazônia forem observados.

O Acre é um destes, que não possuem um calendário das estações bem definido, sendo adotado o conceito de inverno amazônico, que consiste em uma época repleta de dias fortemente abafados e grandes quantidades de chuva, que substituem o frio e a neve popularmente associados ao  inverno. Normalmente a estação se estende do mês de novembro até abril do ano seguinte.

Graças a isso, é muito comum que os rios e igarapés tenham o seu nível pluviométrico elevado durante esse período, já que o volume de chuvas é extremamente alto em um período curto de tempo. Por conta dessa alta das águas, muitos bairros das cidades são atingidos por enchentes, colocando a vida de diversas famílias em risco.

Fugindo da Água

Uma dessas pessoas que sofrem com as águas dos rios é a merendeira Maria Betania, de 47 anos. A moradora do bairro 6 de agosto disse enfrentar os problemas da enchente anualmente, já que mora apenas uma rua de distância do rio, entretanto, 2015 foi o ano em que enfrentou os maiores problemas. “Perdi muitos móveis, tive que ir para a casa de parentes (…) sem contar os problemas de saúde.”, explica ela.

Betânia diz que se não fosse a ajuda da família, não saberia como teria enfrentado os problemas. “O governo até ofereceu um abrigo, mas além disso me deram apenas dois galões de água e alguns kits de limpeza quando as águas baixaram”, revela ela. A merendeira não precisou usar as habitações de emergência do governo, já que foi acolhida por familiares durante o período conturbado.

A mulher ainda revela as dificuldades que enfrenta anualmente na preparação para o período. Ela revela que graças à elevação de sua casa, não precisou ser movida muitas vezes de sua residência, mas todas as vezes em que a água se aproxima, é preciso desmontar diversos móveis, enquanto outros são suspensos utilizando pernas-mancas. “Eu fico muito ilhada, como a casa é alta a água vem quase dentro de casa, a gente levanta alguns móveis, e os que são de madeira ficam submersos mesmo, depois a gente lava”, revela Maria.

Ela diz que as maiores dificuldades são enfrentadas após a enchente, quando precisam limpar o que ficou. “O transtorno maior é o pós enchente, a questão da água para fazer a limpeza, nunca tem. E por incrível que pareça as pessoas conseguem roubar nossa água limpa, eles vêm por dentro da água mesmo, usam uma mangueira e levam embora.”, desabafa Betânia.

O relato da merendeira mostra como ela, e diversas outras pessoas, precisam enfrentar as forças da natureza anualmente, entretanto, alguns pesquisadores e estudiosos sobre a situação acreditam que a culpa não é 100% dos eventos naturais.

Um problema anunciado

Uma dessas pessoas é o professor doutor Osmar José Accorsi, que em seu doutorado pesquisou sobre a pluviosidade e profundidade do Rio Acre.

Para ele, o problema se inicia quando o cuidado com as margens é precário, seja por conta do desmatamento, de atitudes da própria população, ou pela extração de areia por parte da construção civil de algumas regiões do leito.

De acordo com as pesquisas realizadas pelo professor, o assoreamento (acúmulo de sedimentos nos leitos) do rio ao longo dos 43 anos analisados no seu trabalho são responsáveis pelos problemas cada vez maiores causados pelas enchentes.

No primeiro período analisado, que observa as médias de profundidade de 1971 a 1990 como inferior e de 1991 a 2000 como superior. O resultado disso foi uma diferença de 26,80m² na profundidade do rio.

Já a segunda janela de tempo usada foram as médias de 1991 a 2000 para inferior e de 2001 a 2013 para superior, e dessa vez a diferença foi maior ainda, chegando a 31m². Se for levado em consideração todo o período, de 1971 até 2013, a diferença na profundidade graças ao assoreamento é de 57,8m².

Nesse período, a cota de baixa do rio Acre no período (de 71 a 2013) variou entre 3,76m de máxima em 85 e 1,50m de mínima em 2011, o que representa uma tendência de tornar a profundidade cada vez mais rasa. Outro dado importante, é que entre 71 e 85, o valor mínimo dessa cota apresentava uma tendência de crescimento, e a partir de 86 o que começou a se desenhar era o movimento oposto, o de decréscimo. Vale ressaltar que a menor cota histórica é a de 2016, quando o rio atingiu 1,3m.

O último tipo de dado a ser observado para entender os problemas de enchentes causados pelas águas, é a pluviosidade anual. De acordo com a pesquisa do doutor Osmar, a quantidade de chuvas no tempo analisado não teve alterações significativas, ou seja, recordes de baixa ou de alta no rio não deveriam acontecer de maneira tão alarmante como ocorreu em 2011, quando chegou a sua menor cota histórica de 1,5m.

Segundo o professor da UFAC, se nenhuma providência for tomada, o cenário mais catastrófico mostra os anos de 2032 e 2035 como os primeiros em que o rio estará seco em certos pontos. Já na visão mais otimista, isso só viria a ocorrer em 2055 e 2058.

Uma das ações possíveis para evitar essa previsão, é a utilização de dragas para limpar os leitos do rio, dentro dos parâmetros de controle ambiental, nos locais onde o problema é mais evidente, fazendo com que a profundidade voltasse a aumentar.

Entretanto, também seria necessário realizar a retirada de parte da população das margens, já que a sua presença nesses locais prejudica o solo, deixando ele mais “solto”, principalmente por conta da destruição das matas ciliares, sendo assim seria preciso realizar uma realocação de parte da população e uma conscientização do restante.

Osmar explica um pouco melhor sobre a situação “ No estágio que está, só o desassoreamento mesmo, pra evitar que aumente é controlar a localização das dragas e proteção dos taludes (plano de terreno inclinado que limita um aterro e tem como função garantir a estabilidade do aterro) para evitar ainda mais o assoreamento que é natural em regiões sedimentares como a nossa.”, relata ele.

O professor continua: “caso chegasse ao extremo de secar, o único jeito seria usar dragas para retornar o leito ao original.”, explica ele.

Mas e o Estado, ajuda como?

Todos os problemas foram apresentados ao coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, o Major Falcão do corpo de bombeiros. De acordo com ele, não existem discussões sobre o assoreamento do rio, e consequentemente da possibilidade de seca, ao menos no tempo em que ele está à frente do órgão.

Ao ser solicitado os dados referentes ao nível do rio Acre e as enchentes, o Major disse que, embora as informações sejam coletadas desde 1970, o servidor onde se armazenam os dados está passando por problemas, e por isso não é possível disponibilizá-los.

Apesar da falta de atenção dada para a questão apontada através da pesquisa, o outro aspecto do problema, que é o cuidado necessário à população, é tratado de maneira eficiente e pragmática. Já no primeiro mês do inverno amazônico, em novembro, atualiza-se todo o planejamento para a próxima enchente, e após isso o plano é levado para as autoridades municipais, para que seja aprovado e as ações possam começar a ser realizadas.

Assim, em dezembro de 2021 já se iniciou o plano de contingência para 2022, com análises e previsões baseadas no monitoramento que é realizado de forma constante, preparando o parque de exposição para possivelmente receber os desabrigados.

“Os planos de contingência são atualizados em novembro, nós apresentamos para as secretarias municipais e para a prefeitura. O plano de contingência de 2022 já começou a ser feito em dezembro”, explica ele.

Segundo Falcão, quando a altura das águas atinge os 10m se inicia a limpeza das áreas de abrigo e o monitoramento dos bairros através da entrevista das famílias.

Além disso, o planejamento da retirada das famílias que provavelmente serão atingidas, como também da construção de abrigos para elas, assim que o rio atinge a cota de atenção (12m).

Desse ponto em diante, as próximas ações são tomadas apenas quando houver transbordamento. “A partir do momento em que ele transborda a gente vai para ação prática, a remoção de famílias, o abrigamento delas e toda a assistência que elas necessitarem”, enfatiza o major.

O Estado fica preso a uma situação recorrente, já que todo ano o mesmo problema retorna, e o máximo que pode ser feito através de ações emergenciais é “enxugar o gelo”, já que a assistência dada a população afetada sempre será necessária, ano após ano, caso reformas maiores não sejam feitas.

 A população por outro lado, aprende a lidar e tenta se esquivar dos problemas maiores, assim como faz Maria Betania.

Enquanto o problema eminente de seca do rio, só pode ser resolvido através de um grande esforço coletivo de diversos municípios do Acre, assim como do estado vizinho, Amazonas, e até mesmo do país ao lado, Peru, pois o rio se estende por todos esses lugares, se tornando assim, um problema maior do que as competências da capital acreana.