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sexta-feira, 5 de junho de 2026
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O preocupante uso (e abuso) de opióides

A dor é uma sensação desagradável. Ao menos, para a maioria das pessoas. Pinturas dos sumérios, povo que habitava a antiga Mesopotâmia em 4000 a.C., demonstram que combatê-la ou amenizá-la é um esforço milenar. No século III a.C. escritos gregos fizeram referência à seiva obtida da papoula: o ópio (de etimologia grega, significa seiva). Os opióides ganharam fama por trazer alívio da dor, causar tranquilização, euforia e saciedade, mas também podem desencadear náuseas, vômitos e tolerância, fato este que pode requerer do consumidor a ingestão de doses cada vez maiores – um narcômano chega a consumir doses dez vezes superiores à dose medicamentosa habitual. Para entendermos o entusiasmo científico com o ópio, na Europa, em pleno século XVII, recorro ao médico inglês Sydeham, que declarou:

“Entre os remédios oferecidos por Deus Todo Poderoso para aliviar o sofrimento do homem nenhum é tão universal e tão eficaz quanto o ópio.”

A disseminação das propriedades analgésicas e hipnóticas do ópio tomou proporções intercontinentais e foi motivo, inclusive, de uma guerra entre ingleses e chineses no século XIX (Guerra do Ópio 1839-1842), quando o imperador chinês proibiu sua importação e comércio, contrariando os interesses econômicos da Companhia das Índias, de origem inglesa. A partir da metade do século XIX, o vício em ópio atingiu o Ocidente, impulsionado pela purificação da morfina e a invenção da seringa e agulha hipodérmica. Desde então, o consumo medicinal abusivo e o aumento da população com claros sinais de dependência aos mais diversos tipos de opióides, como a morfina, o fentanil, a codeína e a oxicodona, têm preocupado as autoridades em saúde. Só nos Estados Unidos, estima-se que, atualmente, haja 2 milhões de pessoas com alguma enfermidade relacionada ao uso de opióides, ao custo de quase 2 mil vidas por mês.

Em fevereiro deste ano, o periódico British Medical Journal publicou resultados igualmente impressionantes relacionados ao abuso e dependência da codeína – substância opióide natural que compõe 0,5 a 1% do ópio bruto – no Reino Unido e identificou que a prescrição repetida e não supervisionada criou ambientes capazes de levar à dependência química. A dependência é identificada por um fortíssimo desejo de consumir a droga e por claros sintomas de abstinência na sua ausência: agitação, ansiedade, irritabilidade, dores musculares, sudorese, impulsividade – na fase aguda – e calafrios, diarreia, cólicas abdominais, náuseas e vômitos – na fase tardia.

As sociedades de especialidades estadunidenses, como a Academia Americana de Médicos de Família e o Colégio Americano de Médicos, já oferecem ferramentas para reduzir o risco de dependência e o uso desnecessário de opióides para dor. Para quem se queixa da obrigatoriedade de receita especial para adquirir determinados medicamentos, o caso dos opióides constitui um exemplo contundente. O controle sobre prescrições médicas não são apenas de interesse público, é mandatório assim como a adoção de técnicas alternativas para o tratamento da dor e o suporte terapêutico aos indíviduos comprometidos pela narcodependência.

*Dr Guilherme Pulici é médico especialista em Alergia e Imunologia e Pediatria, Vice-Presidente do Sindicato dos Médicos do Acre e Secretário da Federação Médica Brasileira