“Na mitologia grega, o titã Atlas recebe de Zeus o castigo eterno de carregar nos ombros o peso dos céus. (…) os pensadores, os inovadores e os indivíduos criativos suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados por parasitas que não reconhecem o valor do trabalho e da produtividade e que se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade. Mas até quando eles vão aguentar? (…) Nesse cenário desolador em que a intervenção estatal se sobrepõe a qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, os principais líderes da indústria, do empresariado, das ciências e das artes começam a sumir sem deixar pistas. Com medidas arbitrárias e leis manipuladas, o Estado logo se apossa de suas propriedades e invenções, mas não é capaz de manter a lucratividade de seus negócios. Mas a greve de cérebros motivada por um Estado improdutivo à beira da ruína vai cobrar um preço muito alto. E é o homem – e toda a sociedade – quem irá pagar.”
O texto acima foi transcrito do livro “A Revolta de Atlas”, segundo livro mais vendido nos Estados Unidos, perdendo apenas para o livro Sagrado (Bíblia). No Brasil, o livro foi lançado em 1987 com o nome “Quem é John Galt?”, não atraindo a preferência do público brasileiro. Relançado em 2010 com o novo título, conseguiu maior atenção.
Escrito por Ayn Rand, nascida em São Petersburgo (02/02/1905), Rússia, o livro conta a história de como um governo corrupto pode acabar com o espírito empreendedor de todos nós ao sobretaxar e regulamentar excessivamente os meios de produção e as empresas, tornando a relação do empreendedor com o Estado um lamaçal burocrático e de corrupção. Mostra que o domínio do sistema estatal por facção política que visa o locupletamento cava a sepultura do empreendedor, acabando com a geração de emprego, riqueza, inovação, tecnologia, educação, bem-estar e etc…
Para escapar da Revolução Russa Ayn foi morar na Crimeia em 1917, e em 1925 foi para os Estados Unidos com a justificativa inicial de visitar parentes, não voltando ao mundo soviético. Formada em Filosofia e História, foi durante toda a vida defensora do homem livre e da iniciativa privada, sendo opositora ferrenha do socialismo, sempre defendendo “o indivíduo contra o Estado e qualquer tipo de divindade ou religião que o obrigue a abrir mão de seus direitos em favor do bem público.”
O livro traz quatro personagens principais: John Galt, Dagny Taggart, Hank Rearden e Francisco d’Anconia, em três volumes de 1227 páginas no total. John, cientista, ao visualizar um governo obscuro, decide combatê-lo retirando os principais cérebros da economia, filosofia, direito e demais. Dagny, herdeira da maior empresa ferroviária, luta para manter em funcionamento seus trens de costa a costa. Hank, dono do maior complexo de aço, é atacado pelo Estado que busca a qualquer custo deter o conhecimento da fórmula do aço Rearden. Francisco d’Anconia, herdeiro das maiores minas de cobre do mundo, tem papel de agente duplo, mas no final escolhe combater o Estado totalitário.
No cenário catastrófico em que deságua a economia, só resta ao governo usar de seu poder coercitivo para baixar normas ilegais que impedem demissões e aumentam salários, cassando as patentes de inovação e de produção industrial de seus detentores, passando a emitir moeda sem lastro e a cercear direitos civis, prendendo opositores e transformando a máquina pública num ambiente de corrupção, incompetência e descaso.
O intervencionismo estatal chega a tal ponto que não se consegue produzir nada por falta de matéria-prima, a carga tributária é extrema e a sociedade civil começa a passar por escassez de produtos, findando com o caos energético e a ascensão da escuridão.
Poucos são os que se salvam ao criarem uma cidade escondida onde podem exercer a inovação, pensamento, liberdade, inteligência, sabedoria e dignidade sem medo e perseguição. O grupo é formado por empresários, artistas, profissionais liberais, agentes do Estado rebelados, pessoas comuns e todos aqueles que possuem dentro de si o espírito empreendedor.
Na obra, Ayn tenta passar sua filosofia de “defesa da razão, do individualismo, do livre mercado e da liberdade de expressão, bem como os valores segundo os quais o homem deve viver – a racionalidade, a honestidade, a justiça, a independência, a integridade, a produtividade e o orgulho.”
O livro é uma aula de empreendedorismo ao mostrar as dificuldades provocadas pelo Estado. A alta carga tributária, regras trabalhistas conflituosas, burocracia, corrupção, perseguição e desrespeito ao direito civil do cidadão são algumas das ações estatais que impedem o livre comércio. Um livro de 1227 páginas não pode ser só técnica e lições empreendedoras, deve ter um pouco de romance para prender a atenção do leitor que deverá separar a ficção da realidade, ou as lições empreendedoras e as artimanhas estatais contra a iniciativa privada do romance.
Ao terminar a leitura, o leitor fará comparação com a situação venezuelana. Todas as etapas percorridas pela facção dominante do poder na Venezuela foram contextualizadas, bem como as políticas econômicas adotadas atualmente pela maior potência mundial ao sobretaxar importações alegando proteção dos empregos e das indústrias nacionais. Escrito em 1957, qualquer semelhança com o Brasil do passado recente ou outro ente federado da atualidade, será mera coincidência.
Marco Antonio Mourão de Oliveira, 42, advogado, especialista em Direito Tributário pela Universidade de Uberaba-MG e Finanças pela Fundação Dom Cabral-MG.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>