O perfil da presidência da Petrobras desde a quebra do monopólio

Assembleia de acionistas vota novo conselho e nome de José Mauro Ferreira Coelho, indicado por Bolsonaro.

Os acionistas da Petrobras elegeram na quarta-feira (13) o novo conselho de administração da empresa. Entre os escolhidos está José Mauro Ferreira Coelho, indicado pela União para presidir a maior estatal brasileira.

Uma vez confirmado no cargo – o que deve acontecer na quinta-feira (14) –, Coelho será o terceiro comandante da Petrobras no governo de Jair Bolsonaro. O posto já foi ocupado por Roberto Castello Branco entre 2019 e 2021, e pelo general da reserva Joaquim Silva e Luna, entre 2021 e 2022. A assembleia dos acionistas encerra a conturbada troca de comando da estatal sob Bolsonaro.

A empresa é protagonista da crise dos combustíveis em 2022. Desde os anos 1990, ela passou por altos e baixos que incluem o fim do monopólio estatal no mercado brasileiro, a descoberta do pré-sal, as investigações da Lava Jato, a troca da política de preços, a greve dos caminhoneiros e a diretriz de desinvestimentos. Parte desses episódios ajudou a derrubar comandantes da estatal. Neste texto, o Nexo traz o perfil de Coelho e faz um histórico dos outros 12 presidentes da Petrobras dos últimos 30 anos.

Logo da Petrobras na fachada de prédio

Quem é o novo presidente


Após tornar pública a demissão de Silva e Luna, o governo anunciou que o economista Adriano Pires ocuparia o comando executivo da Petrobras. Mas a aposta se desfez à medida que cresceu a possibilidade de o economista ser barrado por conflitos de interesses, devido a sua atuação como consultor no setor privado. Pires, que tem boa relação com políticos do centrão, desistiu oficialmente da nomeação em 4 de abril de 2022.

Dois dias depois, o governo anunciou a indicação de José Mauro Coelho para o cargo. Ele é presidente do conselho administrativo da PPSA (Pré-Sal Petróleo), estatal fundada em 2013 para atuar na gestão de contratos e comercialização de petróleo e gás do pré-sal brasileiro.

Coelho é formado em química industrial e foi oficial da artilharia do Exército.

De acordo com o currículo Lattes de Coelho, ele foi professor em diversas instituições de ensino superior a partir da segunda metade dos anos 1990. Em 2006, concorreu ao cargo de deputado estadual no Rio de Janeiro pelo PSDB. Ele recebeu 1.437 votos e não foi eleito.0

Em 2007, entrou via concurso para a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), empresa pública ligada ao Ministério de Minas e Energia. Fez carreira na empresa, chegando em 2016 ao cargo de Diretor de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis. De acordo com a jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, Coelho ajudou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva a definir o modelo que seria usado na exploração do petróleo do pré-sal. Em 2020, ele foi nomeado para o cargo de secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, onde permaneceu até outubro de 2021.

Coelho é o 12° presidente da Petrobras depois da quebra do monopólio da Petrobras em exploração, produção, pesquisa e refino de petróleo. A medida, aprovada no governo de Fernando Henrique Cardoso na forma da Lei do Petróleo (sancionada em 1997), marcou o fim da exclusividade estatal no setor petroleiro.

Abaixo, o Nexo relembra quem foram as outras pessoas que ocuparam a presidência da Petrobras e o que marcou cada gestão.

Histórico do comando


JOEL MENDES RENNÓ (1992 A 1999)

Ex-presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Joel Mendes Rennó chegou ao comando da Petrobras em novembro de 1992, sob Itamar Franco (1992 a 1994). Sobreviveu à troca de governo e foi o presidente da Petrobras no momento da quebra do monopólio. Pediu demissão após atritos com tucanos. Dias no cargo: 2.299.

HENRI PHILIPPE REICHSTUL (1999 A 2001)

Henri Philippe Reichstul – economista ligado a João Sayad (ex-ministro do Planejamento) – teve gestão marcada pelos lucros altos e pelo afundamento da plataforma P-36, que resultou na morte de 11 trabalhadores. Também conduziu a tentativa fracassada de mudar o nome da estatal para Petrobrax em 2000. Dias no cargo: 1.003.

FRANCISCO GROS (2002)

Teve gestão marcada por iniciativas de transparência e governança corporativa. Além de último presidente da Petrobras sob Fernando Henrique Cardoso, foi também chefe do Banco Central (1987 e 1991 a 1992) e do BNDES (2000 a 2001). No setor privado, foi executivo do Unibanco e da OGX, de Eike Batista. Morreu em 2010. Dias no cargo: 365.

JOSÉ EDUARDO DUTRA (2003 A 2005)

Formado em geologia, trabalhou nos anos 1980 na Petromisa, subsidiária da Petrobras. Foi senador pelo PT no Sergipe entre 1995 e 2002, tornando-se depois o primeiro presidente da Petrobras sob Lula. Na sua gestão, adotou o represamento de preços de combustíveis. Posteriormente, comandou a BR Distribuidora e foi presidente nacional do PT. Morreu em 2015. Dias no cargo: 931.

SERGIO GABRIELLI (2005 A 2012)

Economista ligado ao PT, Gabrielli foi o presidente mais longevo da história da Petrobras. Foi escolhido por Lula e reconduzido por Dilma Rousseff. Foi em sua gestão que a Petrobras descobriu, em 2007, o pré-sal, grande reserva de petróleo. Após deixar o cargo, foi condenado pelo TCU nos casos de obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e da compra da refinaria de Pasadena. Ele negou irregularidades. Dias no cargo: 2.397.

MARIA DAS GRAÇAS FOSTER (2012 A 2015)

A engenheira Graça Foster fez carreira na Petrobras, começando como estagiária em 1978, até se tornar a primeira mulher a presidir a estatal. Foi durante seu mandato que foi deflagrada, em 2014, a Operação Lava Jato, revelando esquemas ilegais na Petrobras. A estatal também registrou prejuízos sob Foster. Ela deixou o posto em fevereiro de 2015. Dias no cargo: 1.087.

ALDEMIR BENDINE (2015 A 2016)

Bendine, que foi por seis anos presidente do Banco do Brasil, assumiu a Petrobras a fim de superar o desgaste da gestão Foster. Sob seu comando, a empresa admitiu perdas de R$ 50 bilhões com corrupção e iniciou o processo de desinvestimentos. Bendine deixou a Petrobras após o impeachment de Dilma Rousseff. Foi preso pela Lava Jato, e condenado por corrupção passiva. Dias no cargo: 479.

PEDRO PARENTE (2016 A 2018)

Indicado por Michel Temer, Parente havia sido ministro da Casa Civil de FHC. Quando assumiu, mudou a política de preços da Petrobras para acompanhar o mercado internacional de petróleo e anunciou uma redução de investimentos e venda de patrimônio. Deixou a presidência da Petrobras após a greve dos caminhoneiros de 2018 e assumiu cargo executivo na BRF, gigante alimentícia. Dias no cargo: 730.

IVAN MONTEIRO (2018)

Foi o presidente da Petrobras até o fim do governo Temer. Havia sido nome forte na gestão de Pedro Parente, e assumiu após a greve dos caminhoneiros. Manteve as principais diretrizes do antecessor, como a política de paridade de preços internacionais e a política de desinvestimentos. Dias no cargo: 216.

ROBERTO CASTELLO BRANCO (2019 A 2021)

Crítico de gestões da Petrobras sob governos petistas, Castello Branco foi o escolhido por Jair Bolsonaro para assumir a estatal. Assim como o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi um dos egressos da Universidade de Chicago na alta cúpula do governo. Sob Castello Branco, a Petrobras colocou à venda oito refinarias e privatizou subsidiárias como a BR Distribuidora. Ele foi demitido por Bolsonaro após aumentos seguidos nos combustíveis. Dias no cargo: 830.

JOAQUIM SILVA E LUNA (2021 A 2022)

Primeiro militar a comandar a Petrobras desde 1989, Silva e Luna assumiu sob a desconfiança de uma possível troca na política de preços da Petrobras a pedido de Bolsonaro. Mas isso não aconteceu. A estatal manteve a diretriz de preços e também fechou a venda de uma refinaria, a Landulpho Alves, na Bahia. Foi demitido semanas após o mega aumento de combustíveis em março de 2022. Dias no cargo: 359.

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