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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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O operador atrapalhado

Essa história aconteceu nos anos 60 quando o Brasil era governado pelo general Artur da Costa e Silva, segundo governo da chamada “era do chumbo”.

Nessa época a população brasileira recebia de bom grado os sucessos dos Beatles, Bob Dylan, Elvis Presley, dentre outros que tocavam nas rádios e tvs, insistentemente, solidificando dessa maneira, o rock, em todas as suas variações.

Neste período, dentre todas as celebridades do mundo artístico surgiam no Brasil os grandes festivais de MPB, e em um deles Geraldo Vandré, que com sua irreverência se popularizou com a música “Pra não dizer que não falei das flores”, cuja letra era mal vista pelos militares que governavam nosso país.

Foi também nesta década que começavam as transmissões de tv em cores, no mundo.

As salas de cinema estavam sempre lotadas quando eram projetados os filmes mais famosos da época, inclusive “o pagador de promessas”, que tinha como ator principal Leonardo Vilar, além do filme italiano “dio come ti amo”, visto por pessoas de todas as idades, cuja trilha era a música com o mesmo nome, cantado pela estrela do filme, a cantora Gigliola Cinquetti.

Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, tinha um cinema muito famoso que ficava na Av. Rio Branco, chamado “Cine Rex”; suas sessões estavam sempre superlotadas, principalmente em noite de estreia.

Um domingo de dezembro de 1968 era a estreia do filme “o pagador de promessas”, muito esperado pelos católicos. Um grupo de freiras e beatas, moradoras da cidade de Jucurutu, que fica a cerca de 233 km da capital Natal, chegou cedo em excursão para pegar a fila e poder assistir nas primeiras fileiras.

O operador do cinema chamado Atanásio era um rapaz de 25 anos que trabalhava nessa profissão há uns cinco anos. No sábado, noite anterior da estreia do filme, ele foi numa casa de forró e por lá bebeu muito e ainda arranjou uma namorada de fechar quarteirão. Após a festa ele seguiu com ela para um hotelzinho próximo a rodoviária, onde continuou na orgia até quase o início da noite de domingo quando ele teria que projetar o filme que estava em cartaz. Quando ele se deu conta, saiu na carreira, pegou uma bicicleta emprestada com o dono de uma farmácia que ele conhecia e conseguiu chegar faltando 5 minutos do início da sessão das 7.

Meio cambaleante, ele assumiu a máquina, colocou o primeiro rolo e finalmente chegou o grande momento. Luzes apagadas! Começa a projeção. Os primeiros trinta minutos estavam na normalidade. Quando foi necessário trocar o rolo da sequência do filme, sem checar antes, ele colocou o rolo do filme “a primeira noite de um homem”, no qual tinha as cenas mais picantes da película.

Loucura total! Foi o maior escândalo! Feiras e beatas desmaiando, outras esconjurando, esposos soltando palavrões, outros xingando a mãe dele, correria para fora e alguns baderneiros mais conservadores resolveram quebrar algumas cadeiras, que só parou com a chegada da polícia. O dono do cinema tentou acalmar os ânimos, pediu desculpa e prometeu a todos que voltariam a assistir ao filme no próximo fim de semana, e de graça.

Para encurtar a história, nessa noite, Atanásio dormiu na delegacia por medo de ser linchado e no dia seguinte foi despedido.  Sua mãe ficou tão envergonhada com mais uma de suas aprontações que veio embora para o Acre, onde morava parte de sua família.

(*) Nilda Dantas é estrela do Rádio Acreano, autora de três livros de poemas e completa o time da Sociedade Literária Acreana – SLA.