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Manterrupting e o machismo estrutural no Congresso Nacional

Em minhas leituras diárias, há poucos dias, me deparei com uma notícia da Folha de São Paulo sobre como as senadoras têm sido alvo do machismo escancarado na CPI da Covid. Senadoras da República, eleitas democraticamente pelo voto em seus estados, sendo alvo de manterrupting – uma prática masculina, infelizmente, comum, deseducada, grosseira e machista de interromper a fala das mulheres. É como se a fala delas não merecesse atenção, oitiva.

A foto que ilustra a reportagem, traz mulheres tendo que se impor, até fisicamente, para ter direito a voz.  E depois, os comentários são sempre críticos às mulheres: “nervosas, ou desequilibradas”, são adjetivos comuns, quando se externa desagrado ou inaceitação de certos comportamentos.

Mas, a verdade é que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga omissões e irregularidades nas ações do governo federal durante a pandemia de Covid-19 não tem senadoras mulheres!

É isso mesmo: o Congresso está discutindo um assunto que impactou e impacta tantas famílias brasileiras (muitas conduzidas somente pela mulher), mas, foi incapaz de assegurar a participação feminina, com direito a voto, em tal apuração. Falha grave de todos os partidos, tanto por uma ótica de paridade na política, quanto pela questão de representatividade, afinal compomos 51,8% da população brasileira (PNAD 2019).

Jefferson Rudy/Agência Senado

Como resolver isso? Se atentos fossem às questões da representatividade de gênero, os partidos [o sistema] poderiam ter indicado nomes de parlamentares homens e mulheres para que concorressem em listas autônomas a sorteios, com 50% das vagas totais.

Caso o correligionário masculino do partido “A” fosse sorteado, automaticamente, sua colega de bancada estaria eliminada e vice-versa, até a finalização das vagas, que desta forma seria paritária entre homens e mulheres e manteria a representação das siglas, no total de seus componentes.

Talvez, pudesse ocorrer de algumas siglas não terem mulheres em sua bancada, o que é uma lástima, mas bastante provável, já que o percentual de mulheres a ocupar uma vaga no Congresso Nacional é baixíssimo. Neste caso, o partido só participaria do sorteio em 50% das vagas destinadas aos parlamentares homens, ampliando e valorizando assim, a chance de participação das mulheres.

Se nunca ocorreu antes, penso que isto possa ser superado, principalmente, neste momento tão desafiador que vivemos. É preciso se pensar fórmulas novas, para novos desafios sociais impostos! Novos métodos que garantam caminhos mais participativos e representativos.

Estarmos diante de um cenário em que precisamos instaurar uma CPI, em plena pandemia, já é angustiante e torna vexatório saber que, no Senado da República, mulheres competentes, eleitas e com mandato, até falam, caso consigam se sobrepor as inúmeras interrupções dos homens, mas apesar disso, não votam!

Nazareth Araújo é feminista, defensora da justiça social, advogada pública e ex-vice-governadora do Acre*

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