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sexta-feira, 26 de junho de 2026
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Leptospirose bovina: cuidados preventivos evitam prejuízo e garantem saúde do rebanho

Francisco Aloísio Cavalcante¹

O crescimento da população do Brasil impõe o desafio de aumentar a produção de proteína animal de alta qualidade. De acordo com projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País conta com 210 milhões de habitantes e até 2047 serão 233 milhões. Para alimentar esse contingente, sem comprometer o meio ambiente, será necessário investir em tecnologias capazes de incrementar de forma sustentável a produção de alimentos, incluindo o desenvolvimento dos sistemas pecuários com foco no aumento dos rebanhos e na produtividade sem incorporação de novas áreas.

Dentre as tecnologias necessárias estão o manejo de pasto rotacionado, o melhoramento genético dos rebanhos, por meio da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), e a transferência de embriões, técnica possível em muitos rebanhos de elite. Essas tecnologias possibilitam um plantel mais produtivo e o incremento do número de animais, sem acréscimo de área de pastagem, contribuindo para a sustentabilidade da produção bovina.

Na atividade pecuária, além da adoção de novas tecnologias, é importante implementar um calendário sanitário e o controle de doenças na esfera reprodutiva para garantir sanidade aos rebanhos bovinos. Pesquisas recentes apontam que cerca de 30% das vacas em rebanhos brasileiros apresentam falhas reprodutivas, fator que contribui para o baixo desempenho na produção de bezerros. A média de crescimento anual do rebanho bovino nacional é de apenas 10%, representando um incremento de cerca de sete milhões de bezerros.

O calendário sanitário deve incluir a leptospirose, doença relatada como uma das principais causas de falhas reprodutivas em bovinos. O problema faz com que as matrizes apresentem abortos, natimortos e bezerros fracos, provocando, muitas vezes, infertilidade nas vacas. Além disso, em função do seu potencial zoonótico e por ser ocupacional, essa doença representa risco para a saúde pública, podendo levar a óbito.

A leptospirose bovina é uma doença infecciosa, causada por bactérias do gênero leptospira, podendo ser encontrada em todo o território nacional. Esse gênero, com base em sua composição antigênica, é distribuído em 23 sorogrupos com mais de 200 sorovariantes no mundo. Nos rebanhos brasileiros as mais encontradas são: hardjo, gryppotyphorosa, icterohaemorrhagiae, interrogans, pomona, sejroe e wolfii. A transmissão ocorre entre animais e destes para o homem, sempre pelo contato da urina do animal infectado com a pele.

A doença acomete bovinos de ambos os sexos e apresenta duas formas: a subclínica e a crônica (reprodutiva). A primeira ocorre em vacas não gestantes e não lactentes e os animais infectados não apresentam sintomas, mas eliminam a bactéria. Na segunda forma, as vacas apresentam abortos no terço final da gestação, febre, hematúria (urina de coloração avermelhada), repetição de cio, retenção de placenta, natimortos e nascimento de crias fracas (síndrome do bezerro fraco). Esses problemas podem levar à diminuição da eficiência reprodutiva do rebanho e, com frequência, provoca infertilidade nas matrizes, com prejuízos financeiros para o produtor.
No Brasil, a prevalência de animais infectados com leptospirose varia de 40% a 97% dos rebanhos estudados. Recentemente, a doença foi encontrada em rebanho bovino da raça Nelore no estado do Acre. É importante que os criadores acreanos conheçam como surge a doença, sua evolução, e disponham de informações sobre o controle e combate, uma vez que pode contaminar tanto o rebanho de leite quanto o de corte.

A transmissão da leptospirose bovina ocorre por meio de contato com a urina do rato. A urina de bovinos contaminados é o principal vetor da dispersão da doença entre os animais do rebanho, por meio da contaminação de fontes de água, bebedouros e pastagens. Outro agravante é que o animal clinicamente recuperado pode continuar eliminando a leptospira por até 1 ano. Além disso, reprodutores contaminados antes da estação de monta também são fontes de contaminação dos rebanhos.

A primeira providência para controle, quando o rebanho apresentar os sinais de leptospirose, é consultar um médico-veterinário. Esse profissional deve fazer a sorologia dos animais e identificar quais sorovares (variantes sorológicas) estão presentes no rebanho. Isso permite orientar o produtor quanto à aquisição de uma vacina que tenha em sua composição o tipo ou tipos de sorovares encontrados na sorologia. Esse procedimento é importante para assegrar melhor eficiência à vacina. A vacinação é um processo importante no controle da leptospirose e pode reduzir a ocorrência de sintomas clínicos.

Como parte do controle sanitário nas fazendas, é necessário implantar um calendário sanitário, com aplicação de vacinas, realização de exames e higienização das estruturas físicas (bretes, cochos, troncos, seringas, divisão dos currais, alojamentos de empregados e depósitos de ferramentas, sal e rações), utilizadas no manejo diário do rebanho. Essas estruturas devem ser totalmente limpas e desinfetadas, para evitar que algum animal contaminado possa transmitir a leptospira para boa parte do rebanho.

Existe tratamento para a leptospirose bovina, mas o criador deve adotar os cuidados necessários e buscar ajuda com profissional capacitado, que, a partir das variantes sorológicas identificadas nos rebanhos, indicará as medidas de controle e o tratamento adequado.

¹Pesquisador da Embrapa Acre
Médico Veterinário, mestre em Zootecnia