LUAN CESAR
A ideia é simples: valorizar no Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, 8, a força feminina e comemorar as conquistas alcançadas nas últimas décadas, a partir de um ensaio fotográfico que reproduz um dos ícones publicitários da Segunda Guerra Mundial. Inspirada no cartaz “We can do it”, criado em 1943 para recrutar mulheres à indústria americana e ressignificado na década de 1980 pelo feminismo, a fotógrafa Nattércia Damasceno realizou um ensaio em que reuniu várias amigas para reproduzir o novo sentido da campanha feita no conflito.
“Nós podemos fazer isso”, em Português, foi criado por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse com a finalidade de recrutar mulheres que estavam nos Estados Unidos a ocuparem os postos mais baixos de trabalhos nas fábricas e outros setores da indústria devido à falta de mão de obra no país, que recrutou milhões de homens para os fronts de batalha. Após quatro décadas, o símbolo da mulher de jaqueta jeans, lenço vermelho na cabeça, expressão forte e pose de força passou a ser utilizado como valorização da importância das mulheres em todos os setores sociais.
E foi com a intenção de destacar o empoderamento feminino e a necessidade dele em uma sociedade que ainda é predominantemente machista que a profissional realizou o projeto que será divulgado hoje no perfil @olhardecatterina no Instagram, canal em que ela divulga trabalhos pessoais.
A profissional reuniu 15 amigas na Usina de Artes João Donato, em Rio Branco, para reproduzir a imagem histórica. O local onde as fotos foram feitas, uma antiga fábrica da capital acreana, foi escolhido para relembrar a motivação da campanha e a transformação dela em força.
“Originalmente ela é uma ilustração e fiz em foto. Convidei amigas que considero ter proximidade não com o movimento feminista somente, mas com a questão da igualdade e de que todas precisamos nos ajudar, uma dar força para o trabalho da outra e que unidas somos mais fortes. Fiz no dia 1º de março, um domingo. Pensei que não fosse ninguém porque estava muito chuvoso, mas muitas mulheres compareceram e atenderam o meu convite.
Isso me deixou muito feliz porque muitas não gostam de posar para fotos e me deram apoio no projeto”, afirma Nattércia.
“We can do it” é o primeiro projeto autoral da fotojornalista, que atua na Assessoria de Comunicação da Universidade Federal do Acre (Ufac) e possui um estúdio que realiza a cobertura de eventos infantis. O perfil Olhar de Catterina foi criado para projetos experimentais e fora das duas áreas de atuação da profissional. Neste espaço, ela destacará sempre trabalhos mais criativos e livres. Ela diz que a ideia do primeiro ensaio surgiu exatamente para homenagear as mulheres e que se sentiu extremamente agradecida pelo apoio que recebeu das 15 amigas em todo processo.
A fotógrafa afirma que não pretende comercializar a produção fotográfica. “Essa não é minha intenção. Tanto esse perfil quanto o primeiro projeto são uma expressão artística, já que a fotografia é uma forma de comunicação. Como é uma área pela qual me expresso, percebi que essa é a forma de passar uma mensagem ou falar sobre alguma coisa para isso. E nesse trabalho eu mantive o mesmo título ‘We can do it’ para levantar diversas questões em relação a mulher como a de que podemos voltar da maternidade e construir ou dar continuidade a nossa carreira”.
Ela cita os casos recorrentes de mulheres que são demitidas pouco tempo depois de voltar da licença maternidade ou da diferença salarial em relação aos homens, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) mostra que elas ganham menos do que eles em todas as ocupações selecionadas e que mesmo com uma queda na desigualdade salarial entre os anos de 2012 e 2018, as trabalhadoras ganharam, em média, 20,5% menos que os homens no Brasil.
Diversos perfis e violência
De acordo com Nattércia, as 15 amigas possuem diversos perfis que são exemplos de força ou superação, além de serem autênticos e similares a mensagem que ela quer passar por meio do trabalho. Ela cita casos de amigas empoderadas que participam de forma ativa na militância feminista ou superaram relacionamentos abusivos e atualmente participam da causa. Para ela, as histórias pessoais de cada uma das amigas condizem com a mensagem que ela passa por meio das imagens. Outra intenção do ensaio é debater a sororidade e empatia no cotidiano social de todos.
Ingrid Guedes, que trabalha com a fotojornalista na Assessoria de Comunicação da Ufac, participou do “We can do it” de duas formas. Além de ser uma das mulheres fotografadas pela lente da amiga, a jovem também ajudou na produção de todo o ensaio. Ela declara que foi muito importante ter recebido o convite porque o trabalho ajudou a superar alguns desafios pessoais como a timidez. Outro aspecto positivo para a estudante foi o reforço do empoderamento feminino.
“Muitas vezes, assim como eu, as mulheres se sentem inferior. A sensação que tive naquele dia foi de nós somos bonitas e importantes, o projeto trouxe esse lado que perdemos no dia a dia. Foi um desafio muito grande porque tive que superar a timidez. Outras meninas também estavam bastante retraídas, mas o projeto fez com que a gente vencesse isso e enxergasse o que não vemos no dia a dia. A gente se ajudou na questão do cabelo, maquiagem e figurino e com isso trocávamos histórias e experiências pessoais. Isso me inspirou muito a fotografar também”, afirma Ingrid.
Outro olhar dado no trabalho é o da violência contra a mulher, comum no país e com altos índices no Acre. Segundo o Monitor da Violência, projeto desenvolvido pelo portal de notícias G1 em parceria com Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estado possui a maior taxa homicídios contra mulheres e de feminicídios do país. Somados os casos de 2018 e 2019, os homicídios dolosos chegaram ao patamar de sete mortes para cada 100 mil habitantes.
A taxa feminicídios foi de 2,5 para cada 100 mil
Ao longo de 2019, o estado registrou 31 homicídios dolosos contra mulheres. Desse total, onze crimes cometidos foram feminicídios, casos em que mulheres foram mortas em crimes de ódio motivados pela condição de gênero. Já em 2018, o número total de homicídios dolosos de mulheres chegou a 35, 14 foram feminicídios. Naquele ano, o estudo havia revelado que o Acre possuía a maior taxa de feminicídios do Brasil. No total, foram 3,2 casos por 100 mil mulheres. Os dados divulgados pelo Monitor da Violência são da Secretaria de Justiça e Segurança Pública.
“Trabalhar este tema é necessário sempre. E não somente no Dia Internacional da Mulher, mas o ano todo. Esse projeto eu fiz para divulgar nesta data como forma de lembrar que é um dia de luta, mas que todo dia é dia de luta, é algo constante e a gente tem que se posicionar na sociedade de forma recorrente. Mas não para gerar a sensação que o feminismo quer briga. Não, a gente quer igualdade e o projeto teve essa pegada de lembrar que podemos ter direitos iguais. Espero que esse projeto seja o primeiro de muitos. Foi uma realização muito grande”, afirma a fotógrafa.

Nattércia conta que o trabalho foi idealizado há muito tempo e que por impedimentos cotidianos atrasaram a execução da ideia. “Foi muito bom porque além de ter conseguido produzir e executar, vi que a amizade reuniu várias pessoas que não se conheciam. A maioria só tinha a mim como amiga em comum. Mas elas ficaram juntas, se conheceram, conversaram e me deram essa força maravilhosa, isso me deixou bastante feliz. Escolhi da Usina de Artes João Donato porque ela foi uma fábrica desativada e achei que combinaria porque o cartaz original retratava uma fábrica”.






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