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terça-feira, 30 de junho de 2026
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Indígena que morreu de infarto sempre se preocupou com a saúde coletiva

REPÓRTER OPINIÃO

Apesar da saúde frágil, já que há 11 anos, ele lutava contra um quadro de diabetes bastante grave e há quatro veio a ser diagnosticado com hipertensão, segundo nota do Distrito Sanitário Indígena do Alto Juruá, o líder indígena Fernando Rosas Kapi Icho Katukina, falecido no último dia 1º deste mês, era conhecido como um leão por todas as demais lideranças indígenas, dado ao seu espírito combativo em defesa dos povos indígenas da região do Juruá, que engloba os municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo e Rodrigues Alves.

Fernando havia encorajado o povo a que pertencia, os Nôke Kôi, da Aldeia Campinas, cortada pela BR-364, a 18 quilômetros de Cruzeiro do Sul, a tomar a vacina. O voluntário indígena número um se paramentou com o cocar de penas de arara, colocou o colar sagrado e foi receber a primeira dose da Coronavac, no dia 19 de janeiro. Sua morte, 12 dias depois, incitou os negacionistas por todo o país a propagar novas fake news numa proporção gigantesca contra a vacina pela internet. Tudo resquício do que aconteceu no pico da primeira onda da pandemia, em 2020, quando a vacina foi estigmatizada pelo presidente Jair Bolsonaro ‘como ruim, insignificante e ineficaz’, entre outros adjetivos, por ser da China, de onde se originou o novo coronavírus.

Mas afinal, quem era Fernando Katukina? E por que até hoje pessoas teimam em propagar que seu falecimento se deu por conta da vacina? OPINIÃO traz um relato de como pensava o líder e de como a medicina afasta quaisquer hipóteses de sua morte ter alguma relação com a vacina.

Primeiro é preciso saber que suas convicções sobre a realidade do mundo eram nada debilitadas como fora a sua saúde. No dia 27 de junho de 2019, ele mostrava ao ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) em visita à região,que os ideais de um mundo melhor para o seu povo e para os coirmãos de outras etnias no Acre estavam vivos e lúcidos.

Em Mâncio Lima, num encontro dos povos indígenas da região sul-ocidental da Amazônia, com a participação do ministro, de três senadores, de um representante da Câmara dos Deputados e de todos os prefeitos dos municípios do Vale do Juruá, Fernando Katukina disparou verdades que nem fake news conseguiriam borrar.

“Nunca fomos preguiçosos e sempre quisemos trabalhar com a floresta organizada, mas nunca tivemos o apoio do [Ministério do] Meio Ambiente. Sempre derramamos o nosso suor para receber da terra e só recebemos o nome de índios preguiçosos e violentos. Nós não somos [preguiçosos]”, bradou ele, com a propriedade de quem sempre amargou a indiferença do estado brasileiro.

Ministro do Meio Ambiente com lideranças indígenas, parlamentares acreanos e lideranças locais, no encontro com as etnias indígenas do Vale do Juruá; Fenando Katukina participou do encontro, em 2019, onde já manifestava preocupação com a saúde indígena Foto: Diego Gurgel

Olhando no olho de Salles, ele disparou: “Nós não criamos sistemas florestais ou formamos os nossos jovens para ter o controle da terra. Eles devem apenas usá-la e respeitá-la, porque queremos construir nosso mundo melhor, para termos nossa qualidade de vida. Entendam que medicamento não é ter saúde. O que queremos é apenas qualidade de vida”.

Esta última frase dele: “Entendam que medicamento não é ter saúde. O que queremos é apenas qualidade de vida”, foi dita num contexto de preocupação com o que o projeto de uma estrada ligando o Vale do Juruá a Pucallpa, em território peruano, poderia acarretar, sobretudo, a chegada de doenças.

Ironicamente, a ideia defendida por Salles e outros políticos acreanos neo-liberais populistas, de que uma rodovia cortando terras indígenas pudesse trazer prosperidade por meio da integração com o Peru – e que na opinião de Fernando quando ainda vivo, traria também doenças – não precisará se concretizar mais, uma vez que a saúde indígena local já foi seriamente abalada sem rodovia nova.

Até o dia 1º de fevereiro, pelo menos 851 indígenas do Alto Rio Juruá tinham sido infectados pelo novo coronavírus e 10 indígenas haviam morrido pela covid-19, a doença causada pelo vírus, até o dia 28 de janeiro. As informações são da Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde.

O maior legado deixado por Fernando Katukina é o de encorajamento, de que a vacina continua sendo a melhor arma para que a população – indígena e não-indígena – possam voltar a viver de forma harmoniosa um dia, lembra José Luís Martins ‘Pouê’ Puyanawa.

Desconhecimento sobre a vacina induz ao pensamento errôneo

“Fernando tinha uma saúde muito frágil, infelizmente”, relata a infectologista Rita de Cassia Lima, em Cruzeiro do Sul. A médica tratou do líder Nôke Kôi, ainda no início de dezembro, quando ele contraiu a covid-19.

Fernando Katukina era uma das maiores lideranças indígenas do Vale do Juruá Foto: Odair Leal

A doença, por ser extremamente hostil, na opinião da médica, deixou sequelas graves pelo fato de ele ter tido comorbidades, que são os históricos de doenças pré-existentes, diabetes muito grave e hipertensão. Além disso, segundo a família, ele apresentava ainda insuficiência cardíaca congestiva.

Conforme a infectologista, o fato de muita gente ter ficado preocupada com a notícia de seu falecimento, após a vacina, é creditado muitas vezes ao desconhecimento sobre o procedimento.

“Fizeram essa associação entre a vacinação e a morte dele. Mas a vacina é segura e o único meio de evitar que as pessoas morram. Essa é a verdade absoluta”, ressalta a médica.