Navegarei na leveza de uma longa viagem. Não de uma viagem soletrada, molhada. Não na viagem do fim. Mas, na viagem do recomeço, talvez na viagem de um luar prateado ou quem sabe, na viagem do despertar de uma nova era. Navegarei docemente sem mais. Que o remo seja a mão, sobre um oceano de vivências, vivendo na saudade de um dia, haver bebido nas águas do rio Acre que corre aflito, em busca de novas soluções.
Enquanto um vento de novos semblantes navega no ar, a corredeira da Cordilheira quer me passar. Ultrapassando os limites dos dias que duram a colheita. Como são severas as palavras que não querem ouvir, quando chega a hora de partir. Suavizando a atitude não tomada, num templo de olhos doces, onde repousa a revoada dos pássaros noturnos nos meus braços. Eu ficava ali, bem escondido, atrás da brisa, esperando a corredeira da saudade dá as cartas no lugar onde nasci e onde vivi. Ou quem sabe, enviar-me uma fumaça de vida, dizendo: Ei!!! Ainda estou viva!
Quantos invernos te segui tecendo as circunstâncias de uma tarde solarenga, esperando a memória futura chegar como trovoada. Receio que apareça outro arco-íris com um cajado na mão, para não tropeçar nos torrões das palavras antigas, cheias da presença de Deus. O destino traçado pelos antepassados que circulam em nós, geneticamente acomodado na alma, sentiu-se feliz carregando um aroma de cheiro único.
Esse rio de vida sublime é um farol de felicidade!!! Por onde passa deixa um hálito bom na garganta, sem nenhuma explicação. Quando ele desce a Cordilheira sem olhar para trás, anônimo como a noite que escorrega na argila dos justos, é porque a nuvem escura indica que irá chover. Portanto, jamais tente contaminar uma palavra com água falsa, em plena primavera. Mesmo nos separando, nos unirá para sempre, na saudade de um querer, sobretudo eu que te acompanho como uma sombra sem vulto, alongo-me no ramal das palavras para te espreitar pelas brechas dos bambus ou pelo gemido da folha seca presa ao peso da noite.
Vamos evitar que o futuro seja pior que o presente, salvando os rios e a natureza. Vamos nos salvar! Pois salvando a nós mesmos, aos nossos filhos, que poderão novamente existir. Os rios criarão condições de sobrevivência, para os pequenos e os recém-nascidos. Somos a última geração da raça humana. Ainda dá tempo! Não quero fazer parte de mais uma raça extinta, que um dia habitou às margens dos rios, que um dia formaram a bacia Amazônica.
O fato é que, por mais que os estudiosos demonstrem claramente, que o destino do planeta e dos rios dependem de políticas públicas que se voltem para a conservação e a utilização racional dos recursos naturais. Tudo isto faz com que, temerosamente eu me ponha a refletir. Meu Deus! E, o degelo das camadas polares? E, o aumento do nível dos oceanos? E, as fontes que vem se esgotando? E, o aquecimento global? Será que nada disso é capaz de sensibilizar mentes e corações, mesmo os mais obtusos?
Os rios sobrepujados e cada vez mais indefesos, atônitos e empobrecidos diante de tanta fúria por progresso. Progresso, este, utilizado como grande argumento de que se valem os poderosos para não reduzir a fabricação de plástico, emissão de poluentes que, direta ou indiretamente afetam as águas calmas que evoluem no ressoar da divina criação, abrolhando ênfase à vida.

é membro da AAL. É especialista em planejamento e uso de bacias hidrográficas e presidente da Associação amigos do Rio Acre


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>