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quinta-feira, 2 de julho de 2026
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Estiagem 2019: Rio Acre pede socorro

Não é de hoje que o geógrafo e professor Claudemir Mesquita, especialista em planejamento e uso de bacias hidrográficas, fala sobre necessidade de ser ter alguns cuidados para preservar o rio Acre. Ações que deveriam ser feitas pelo Executivo e também pelas pessoas de forma individual. No período de estiagem fica evidente para quem visita a Capital acreana do avanço da degradação no manancial que corta o Estado e abastece Rio Branco.

O Rio Acre em Brasileia, Assis Brasil, Capixaba e na Capital está em alerta máximo devido a estiagem que afeta o estado nos últimos meses, aponta o relatório de monitoramento hidrometeorológico do Acre, que acompanha o nível dos principais rios do estado diariamente e aponta este resultado da leitura realizada no dia 23 de agosto.

Nas três destas cidades, o nível está abaixo de 1,55 metro. Apenas Assis Brasil está com a cota um pouco mais elevada com 2,68 metros. Já na Capital, o rio Acre estava com a cota de 1,53 metro no sábado, 24.

O cenário para quem atravessa as pontes em Rio Branco é composto por lixo descartado indevidamente nos igarapés acaba parando no rio e que devido a estiagem fica exposto às margens.

“O rio Acre é um paciente que está a 135 anos pedindo ajuda para viver. Nesse período nenhum governo foi cauteloso ou cuidadoso. Usamos ele de forma inadequada. Mas, nunca disseram para o ribeirinho como se portar diante do rio. E os cuidados que deveriam ter para que não houvesse o assoreamento. É ele que iria cuidar para que não houvesse o desmatamento da mata ciliar. Além disso, o rio ao longo dos anos passou a receber esgoto”, exemplificou o especialista.

As águas barrentas que percorrem mais de 1.100 quilômetros pela Amazônia Ocidental peruana e brasileira são diretamente impactados pela degradação do Rio Acre. Consequências essas que extinguem a flora, fauna, reservas indígenas e até mesmo abastecimento de água.

A ameaça de construção de uma rodovia na área das nascentes do rio preocupa ainda mais. Este projeto é referente a construção da Rodovia Purus, que interliga Puerto Esperanza e Iñapari, ambas no Peru. Com 270 quilômetros de extensão, deve ser construída entre a fronteira do Peru e Brasil, uma das regiões mais preservadas da floresta Amazônica.

Vale relembrar que em 2016, foi decretado situação de emergência por conta da seca. Na ocasião, o Rio Acre, em Rio Branco, atingiu sua mínima de 1,49 metro. Na época, os munícipios de Acrelândia, Assis Brasil, Brasileia, Bujari, Epitaciolândia, Plácido de Castro, Porto Acre, Rio Branco e Xapuri receberam recursos federais para a reconstrução de áreas degradadas.

De acordo com Mesquita, em 2012, o déficit de mata ciliar na calha do rio Acre 88 mil hectares. Além disso, a qualidade da água já estava bem deficiente. “Qualquer coisa que se for fazer em relação à recuperação no rio Acre é muito complexo, já que estamos falando de um rio trinacional”, completou.

Ele compartilha que o rio sofre também com a falta de fiscalização preventiva, que visa preservar o manancial e conter avanços de poluição e assoreamento.

A redução do volume hídrico de regiões é uma preocupação constante de pesquisadores da área ambiental. No contexto amazônico, essa diminuição pode ter um resultado ainda mais catastrófico do que o que seria observado em outras regiões. As consequências a longo prazo, no entanto, são mais difíceis de serem estimadas, já que animais e outras plantas podem também ter sua incidência aumentada ou diminuída com a modificação da flora. Independentemente do resultado, é inegável o fato de que a diversidade amazônica é essencial para a preservação do meio ambiente não somente para a região em si, mas para todo o mundo.

A necessidade de fazer o possível para evitar esse cenário de devastação é, assim, uma preocupação que deve permear todas as ações realizadas na região e ao longo de todos os estados e países que se relacionam com a região amazônica de alguma forma.

Dá para recuperar o rio se as ações tiverem início hoje?

De acordo com Claudemir Mesquita a reposta é sim. Se medidas de preservação fossem adotadas hoje, o rio Acre ainda teria chance de ser recuperado totalmente. Mas, vale lembrar que essas ações devem ocorrer em todas as esferas, envolvendo todos os países e municípios cortados pelo manancial.

Enquanto a sociedade espera que as autoridades se comprometam com as respectivas medidas, cada cidadão de forma individual com a causa. Como por exemplo, não usando sacolas plásticas, não jogando lixo nas ruas, armazenando de forma adequada o lixo doméstico, não descartando entulhos nas margens dos rios e usando de forma racional a água.

Chuva

A última vez que o monitoramento meteorológico registrou uma chuva em Rio Branco foi no dia 24 de julho. Foram registrados 19 milímetros. Após um mês sem chuva, o assessor do Corpo de Bombeiros do Acre, major Cláudio Falcão, completou que na última quarta-feira, 21, teve a incidência de dois milímetros. “Foi tão fraca, que nem consideramos uma chuva”.

Pra piorar, as previsões meteorológicas não são animadoras. Os satélites informam que não há previsão de chuva para região pelos próximos dias. O que consta a aproximação de temporais, com pouco volume de água e grandes ventanias.

Rio Acre movimenta fortemente a economia

Somente com lavagem e limpeza de veículos gera na economia do município R$ 3 milhões para manter a frota de veículos e a cidade limpa. Circula na cidade 180 mil veículos a um custo médio de R$30.

A irrigação gera mais de 15 mil empregos direto na agricultura e na pecuária.

A água do rio Acre, alimenta um rebanho animal de pelo menos 60 mil cabeça de gados e animais silvestres.

Esgoto

Mais de 990 metros cúbicos de esgoto das cidades de Inãpare, São Pedro Bolbepra e Assis Brasil são despejados no rio.

Ainda no alto Acre ele é bombardeado com 2.820 metros cúbicos de esgoto das cidades de Cobija, Brasileia e Epitaciolândia. Xapuri lança 880 metros cúbicos de esgoto domiciliar no rio Acre

Rio Branco injeta no rio Acre mais ou menos 9.020 metros cúbicos de esgoto por dia. Fora dessa conta consta 60 mil litros de pesticida e outros químicos usados no rebanho animal a cada vacinação.

Saiba mais sobre o rio Acre

O rio Acre tem sua nascente no Peru e no Brasil, desembocando no rio Purus (Amazonas). Seus principais afluentes de interesse para o sistema de alerta estão localizados na margem esquerda do rio Acre e são: Rio Xapuri, Riozinho do Rola, Rio Andirá e Rio Antimarí.

A bacia do rio Acre está localizada na região amazônica, no entanto, em comparação com os demais rios da região é uma bacia que pode ser considerada pequena. A bacia do rio Acre tem cerca de 79% de sua área no Estado do Acre, 8% no Estado do Amazonas, 7% no Peru e aproximadamente 6% na Bolívia.