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segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Entenda as razões da sensação de que a vacinação no Acre é morosa

REPÓRTER OPINIÃO

As características geográficas e populacionais do Acre são as razões para que o estado figure em penúltimo lugar no índice de vacinação contra o novo coronavírus no País. Até esta terça-feira, 9, apenas 1,16% da população de todo o estado havia sido vacinada, 10.402 pessoas, segundo o Consórcio de Imprensa que monitora a Covid-19 no País com base nos dados fornecidos pelas secretarias estaduais de saúde. O Estado só ganha do Tocantins, que até esta terça, havia vacinado 0,89% de seus habitantes.

Este cenário vem causando na população acreana a sensação de que a imunização segue lentamente, principalmente num momento em que o estado já registra mais de 50.694 infectados e 900 mortes pela doença. A explicação, no entanto, está na faixa etária prioritária do estado, que é encabeçada pela população indígena.

Seguidos pelos profissionais de saúde, pelos idosos acima dos 90 anos e pelos acamados com 80, os indígenas são os primeiros na lista da imunização dos municípios acreanos. E essa condição, de residirem longe das cidades, demanda uma vacinação complexa, que leva dias para ser concretizada, causando, inclusive, lentidão na atualização dos números.

“Não é simples”, aponta Renata Quiles, chefe do Programa de Imunização e Rede de Frios (PNI), da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre). “[Os agentes de saúde] passam o dia vacinando dentro da floresta. E como eles [os indígenas] não moram na cidade, isso requer uma logística diferenciada, com grandes equipes se deslocando de barcos por longos períodos, nas regiões de floresta, onde também não há pontos de internet para a atualização do índice de vacinação”, explica ela.

Para se ter ideia da situação, apenas como exemplo, duas destas equipes estão há quase 12 dias nas florestas das regiões de Tarauacá e de Santa Rosa do Purus, vacinando essas populações, cujo acesso se dá apenas por rios e igarapés que singram a selva.

Nas cidades, a profissional da Sesacre afirma que a vacinação de idosos de mais de 90 anos e dos 80 anos acamados está sendo feita de casa em casa. “Muitas vezes, os agentes têm encontrado dificuldade para encontrar o endereço desses idosos, por exemplo. É uma situação que requer muito tempo e esforço”. 

Uma tentativa de amenizar essa situação é implantar o sistema drive-thru na capital acreana. O tema deve ser tratado em reunião com técnicos do governo do Estado do Acre e da Prefeitura de Rio Branco, que tinha sido marcada para a tarde desta terça-feira, sem uma definição até o fechamento desta edição.

Pelo drive-thru, a ideia é que idosos com mais de 90 anos sejam embarcados em veículos de familiares e levados a postos itinerantes de vacina, para receber a sua dose. “Trata-se de um esforço grande para essas pessoas, mas que pode ser perfeitamente viável e que já acontece em diversos outros estados do País”.

Agente comunitário de saúde indígena prepara dose da coronavac em Santa Rosa do Purus, para aplicá-la em moradora de aldeia Kulina; população indígena é prioritária no Acre Foto: Odair Leal

Doses em duas etapas também parecem ‘reduzir’ o número de vacinados

A percepção da população, quase sempre superdimensionada quanto aos lotes das vacinas que chegam ao Acre, não reflete a realidade. É que os imunizantes da Coronavac, do Instituto Butantan, obedecem ao sistema de duas doses para cada pessoa.

“As quase 60 mil doses que já chegaram não são para 60 mil pessoas. São para 30 mil, porque são duas doses para cada vacinado”, explica Quiles.

Desse modo, das primeiras etapas da vacinação – com a chegada do primeiro lote ainda em 19 de janeiro -, até o presente agora, 26.900 doses foram destinadas aos profissionais de Saúde, que na primeira etapa foram imunizados numa proporção de 36%; e na etapa 2, outros 27%; na etapa 3, 3%, e mais 6% nesta quarta etapa – das 6.400 novas doses que chegaram na segunda-feira, 8. Portanto, o percentual de trabalhadores da Saúde vacinados deve chegar a 72%.

O Programa de Imunização e Rede de Frios da Sesacre acredita que nesta quarta etapa, com a chegada dessas novas 6,4 mil doses, os idosos acima de 90 anos e os acamados com mais de 80 sejam 100% vacinados.

O tamanho da equipe da Sesacre não é suficiente para auxiliar os agentes municipais de saúde a vacinar esses idosos em casa, no interior do estado, mas aqui em Rio Branco, eles já estão em campo com os agentes da prefeitura.

No dia 20 de janeiro, mulher indígena recebe primeira dose da coronavac em Santa Rosa do Purus Foto: Odair Leal

Plano Nacional de Imunização já começou engessado

As enxurradas de críticas em grupos de comunicação via celular, nas redes sociais e nos sites de notícia dão a entender que falta celeridade às administrações públicas para que a imunização no Acre deslanche.

Não é bem assim. Além das peculiaridades do Acre – acesso geográfico difícil às aldeias indígenas -, o processo de vacinação do governo federal na sua primeira fase foi tumultuado, avaliam os técnicos de saúde.

“No início foi tudo muito turbulento e complicado. É como os próprios técnicos do governo federal classificaram certa vez: ‘Estamos ainda trocando os pneus com o carro andando’. Não poderíamos esperar. E infelizmente, ficou tudo muito precário”, analisa a chefe do PNI da Sesacre.

Para não perder tempo, as doses continuam sendo enviadas de forma fracionada, conforme a fabricação e a aquisição delas, e isso dificulta um pouco a construção de um planejamento mais efetivo, enxuto e eficaz.

O número de vacinas contra a covid-19 recebidas por município

Os números da vacina em Rio Branco

Até o momento 18.760 doses foram recebidas, sendo que 9.380 foram destinadas à 1ª dose. Nos profissionais de saúde, 6,8 mil já foram aplicadas, de um total de 10.502 programadas. Entre os idosos acamados estão previstas 300 doses para os acima de 80 anos, sendo que 100 já foram aplicadas

Ministério Público diz que está atento a ‘fura-filas’

Diante das denúncias de pessoas fora da faixa prioritária sendo vacinadas, o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) deve endurecer as fiscalizações para evitar que a população que tem vez neste momento seja prejudicada.

A polêmica aconteceu na segunda-feira, 8. A situação de uma funcionária da Policlínica da Polícia Militar, esposa de um coronel da Polícia Militar do Estado do Acre, que recebeu a vacina, supostamente, estando fora da lista de prioridade, causou revolta nas redes sociais após ela publicar uma foto sua recebendo o imunizante.

Na segunda-feira mesmo, o MPAC emitiu nota afirmando que notificou a direção da Policlínica da Polícia Militar para averiguar as circunstâncias em que as doses foram dadas, se houve desvio de finalidade na aplicação das vacinas e o número de pessoas que receberam as doses até o momento.

O procedimento está a cargo da 1ª Promotoria Especializada de Defesa do Patrimônio Público, que abriu procedimento preparatório de inquérito civil para apurar se houve improbidade administrativa. Os promotores também vão exigir que as pessoas que tomaram a vacina, mas que não fazem parte do grupo prioritário, não recebam a segunda dose.

O promotor de Justiça Glaucio Ney Shiroma Oshiro, titular da Promotoria de Saúde, já havia ressaltado que o MPAC recomendou a vacinação dos idosos com critérios claros e objetivos.

“Além disso, reiteramos a necessidade de observância da Recomendação 001, cujo prazo finaliza essa semana, na qual solicitamos informações sobre a relação de vacinados, a inserção nos sistemas do Ministério da Saúde e a condução do Plano Nacional de Imunização a ser observado” disse Oshiro.

CONFIRA OS TELEFONES PARA AGENDAMENTO DA VACINAÇÃO EM CASA

Para idosos acima de 90 anos e acamados acima de 80

Secretaria Municipal de Saúde

3224-4269

Telessaúde

3216-2400