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sábado, 6 de junho de 2026
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Encontros que marcam

Encontros  que marcam

Tudo seguia a rotina de sempre. Fomos para a rua, mais uma pauta, entrevista… Segue o plano, a rotina desrotinada de todos os dias. O destino: Hospital do Câncer. A pauta não era minha, mas como de costume, um acompanha o outro e assim o fiz. Seguimos para a ala infantil, onde uma equipe de voluntários realizava atividades com as crianças em tratamento.

Ao chegar, o coração já fica um pouco apertado. São tantos olhares longos que é possível perceber o desejo desesperado de sair dali. Seguimos pelo corredor, levados pela gerente da unidade. Paramos em frente à sala de quimioterapia, enquanto esperávamos autorização para entrar. Passou em minha frente, sem os cabelos, com olhar triste, uma menininha de três anos que aguardava para iniciar mais uma sessão em sua luta contra a leucemia – ela precisa de um transplante. O coração aperta e muitas coisas passam pelo pensamento naquele instante, e a pior sensação: a de não poder fazer nada.

São questionamentos que nos fazem entender que a vida não é como queremos, ou sonhamos… Ela simplesmente é e nos cabe lutar a cada instante para não sucumbir a cada obstáculo que surge. São tantas lutas, tantas bofetadas que pegamos e penso novamente: precisa ser tão cedo? A pergunta nunca terá resposta.

Mas o nó na garganta seria desfeito logo em seguida. Assim que entramos parei. Havia mais duas crianças passando pelo procedimento. Fiquei imóvel por certo tempo – não sabia como portar-me -, olhei ao redor e resolvi, então, aproximar-me de uma garotinha que estava na maca mais próxima e ali veio à desconstrução.

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Lara Bianca, sete anos, cabelos levemente enrolados, pele morena. Como estava trocando os dentes tinha uma pequena “janela” bem no centro da boca. Sentada, ela respondeu ao meu cumprimento. E que encontro?! Ela ensinou tanta coisa em tão pouco tempo. Com um algodão doce nas mãos, comia enquanto respondia minhas perguntas, seus olhos redondos e castanhos – que ficavam rapidamente miúdos quando sorria – brilhavam e eram atentos a mim. E apesar de o tratamento da leucemia ser doloroso e de sua saúde estar frágil ela não demonstrava nada disso. O que vi foi uma menina de sorriso fácil, que não se importava com o tamanho de sua dor. Talvez eu, e os outros ao seu redor sentimos mais do que ela mesma.

Não demorou muito para que ela sorrisse para mim e me pedisse que desse o algodão doce em sua boca. Tanta simpatia e leveza para alguém que enfrenta, há dois anos, uma doença tão cruel. Ficamos ali por certo tempo, conversávamos enquanto eu lhe dava o algodão doce. Naquele momento eu não sabia refletir sobre nada, apenas me senti como se fosse uma pessoa muito próxima, em quem ela confiava. A mãe sentada do outro lado, com um bebê no colo – o filho caçula que havia nascido há alguns meses-, só observava. Depois perguntei a ela [mãe] sobre o tratamento, ao qual já estava encerrando após tanto tempo de luta. Lara não precisou de transplante. Um alívio!

São esses encontros que podem mudar nossas vidas, ou não. Depende de como nos portamos com os acontecimentos. Sempre tentei ver a vida com positividade e rir das coisas difíceis porque decidi não me fazer de vítima. Mas, às vezes, é difícil não entristecer, ninguém é de ferro. Lara Bianca tão sorridente, talvez por não saber a dimensão da doença que carrega, mostrou-me que sempre podemos sorrir, não importa aonde estivermos. Ensinou-me a ter ainda mais gratidão, a viver os meus dias sabendo que passaremos por lugares ermos, mas não precisamos ficar lá. Aprendi que sorrir em meio à dor inspira as pessoas, que lutar contra as dificuldades nos faz vencedores, ninguém precisa de pódio, ou prêmio para isso, nem mesmo ter concorrentes. É uma luta interior apenas conosco, ali tentando controlar as emoções. Deixar a ferida cicatrizar é um processo necessário, vencer o orgulho e simplesmente acreditar e o mais importante é agradecer pelo que tenho e sou.

Com um abraço, foi assim que nos despedimos, depois de um breve encontro. Eu já não estava mais tão desconfortável naquele ambiente porque ela o tornou mais leve.

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Talvez nuca mais a veja na vida, e de certo acredito que não lhe ensinei nada, mas a mim ela acrescentou tanto. Nunca me esquecerei do seu rostinho cheio de brilho, cheio esperança, mesmo em um local tão pesado como aquele. Sai dali refletindo, não escrevi o texto logo em seguida, perdi muito tempo para fazê-lo, perdeu muito da emoção. Mas não perderei jamais o que aprendi com Lara.

A vida é cheia de surpresas e de encontros que simplesmente nos fazem refletir sobre nós mesmos, isso tudo é clichê, mas se trata da vida como ela é. Existem pessoas que nos ensinam mesmo que ainda tão pequenas e sem intenção qualquer de chegar a este objetivo. Elas simplesmente existem e sorriem para nós em momentos cruciais.

Quando olhamos ao redor podemos decidir, escolher o que vamos guardar dentro de nós. Mesmo que existam os dias cinza, sempre teremos uma referência de como sorrir em meio à dor. Lara Bianca fez-me derreter por dentro, levando-me a refletir.

Ela disse sem palavras que olhar para a vida e se agigantar diante de cada circunstância tem que ser exercício diário. E aprender que nem todas as vezes que perdemos, temos prejuízo de fato ou somos derrotados.