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sexta-feira, 31 de julho de 2026
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Empresas devolvem árvores quase extintas ao berço do desmatamento no Brasil

O sul da Bahia, palco do início do desmatamento da mata atlântica com a colonização portuguesa, abriga empresas que buscam repovoar a região com árvores nativas e gerar créditos de carbono.

A Symbiosis Investimentos começou a atuar em Porto Seguro em 2010, cultivando 100 mil mudas por ano. Hoje, a produção anual alcança 3,9 milhões de mudas, e a estratégia de negócios da companhia envolve tanto a restauração florestal quanto a produção sustentável de madeira.

“É um resgate, quase uma reparação histórica”, diz Alan Batista, CFO da empresa. “Uma floresta tropical é diversa, não existe monocultura na natureza. A Symbiosis nasce de simbiose, uma relação mutuamente benéfica entre dois seres, homem e natureza.”

O modelo chamou a atenção da Apple, que firmou parceria em 2023 para compra de créditos de carbono por meio do Restore Fund, mecanismo da big tech com Goldman Sachs e Conservação Internacional para financiar a remoção de gases-estufa da atmosfera. A Symbiosis também recebeu aprovação em 2025 do primeiro financiamento do Fundo Clima a um projeto de silvicultura com plantas nativas, no valor de R$ 77 milhões.

“Algumas espécies são tão extintas que não achamos sementes para vender”, afirma o CFO. Exemplos dessa raridade são peroba-rosa, braúna e pau-brasil, árvore-símbolo do país.

A empresa pretende cortar cerca de 30% dos indivíduos a cada cinco anos, para manter a cobertura florestal e permitir a regeneração, sem corte raso.

Ao todo, a Symbiosis administra 12 fazendas, somando cerca de 5.000 hectares, dos quais 2.500 hectares recebem plantios para fins comerciais, enquanto a outra metade é conservada. A empresa tem a meta de alcançar 5.000 hectares plantados no próximo ano.

Parte das terras foram arrendadas em contratos de 40 anos para projetos de carbono, diz Batista. “Até 2060, eu preciso garantir que aquela floresta continue sendo floresta”, afirma o CFO.

A Symbiosis deve emitir nos próximos meses os primeiros 8.000 créditos de carbono vindos da restauração florestal, com certificação da Verra. “A projeção é de que, em 15 anos, a gente tenha 1 milhão de créditos”, diz Batista. Parte dos títulos irá para a Apple e o restante será oferecido no mercado.

A empresa se prepara para dar um passo inédito em agosto, com o início dos testes de operação de uma serraria. O objetivo é recolocar no mercado peças feitas com variedades de madeira que praticamente sumiram de projetos de construção civil e design.

Mickael Mello, gerente comercial da Symbiosis, diz que as melhores árvores da mata atlântica já foram retiradas ao longo de 526 anos de exploração e que a exploração atualmente se concentra na amazônia, principalmente em espécies como jatobá e angelim.

“Agora, se você falar que tem jacarandá-da-Bahia e jequitibá-rosa de origem legal plantada, obviamente o mercado vai absorver, porque não existe madeira legal vindo dessa origem. Sobrou muito pouco para ter volume de mercado, de exportação”, afirma Mello.

O jacarandá-da-Bahia, por exemplo, está listado no anexo 2 da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, com controles mais rígidos para a venda.

Com a classificação, Batista diz que é possível exportar uma árvore da espécie se for possível comprovar o plantio em uma cadeia rastreável, com autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O mesmo não vale para um indivíduo cortado de uma floresta natural, que tem exportação proibida.

O CFO diz que a crise recente no mercado de carbono voluntário, deflagrada por escândalos e fraudes, repete o que já acontece no setor de madeira, com questionamentos sobre a origem.

“Até a crise de 2008, o Brasil tinha uma participação de aproximadamente 20% na produção de madeira serrada tropical no mundo. Hoje, respondemos por 3% desse mercado. A gente acabou perdendo muita competitividade lá fora, justamente por questões regulatórias e reputacionais.”

PROJETO INAUGURAL DA BIOMAS

Em Itagimirim, a 70 km de Porto Seguro, funciona o projeto Muçununga, a primeira iniciativa de restauração florestal da Biomas, empresa criada em 2022 por Itaú, Marfrig, Rabobank, Santander, Suzano e Vale, que pretende se manter com a venda de créditos de carbono.

Cerca de 500 hectares estão plantados até o momento, dos 1.242 hectares a serem reflorestados na área, diz Marcelo Pereira, diretor de restauração florestal e projetos de carbono da companhia. O projeto começou em 2025 e se estende por oito municípios da região.

A Biomas tem a meta de restaurar 2 milhões de hectares ao longo de 20 anos. Como comparação, o Brasil submeteu ao Acordo de Paris em 2016 o objetivo de recuperar 12 milhões de hectares até 2030, sendo que 3,4 milhões de hectares, ou 28,25% do prometido, estavam em processo de restauração até novembro de 2025.

A propriedade onde fica o projeto Muçununga pertence à Veracel, do ramo de celulose. Virginia Camargos, gerente de meio ambiente e estratégia ambiental da companhia, afirma que a posse da terra foi transferida à Biomas por cem anos.

“A existência humana, com muita sorte, é de 80, 90 anos, é uma corrida de 400 metros. A corrida da floresta é uma maratona de 40 km”, diz Pereira.

O Muçununga tem como sócias a Biomas e a Carbon2Nature e deve gerar 500 mil créditos de carbono ao longo de quatro décadas. “Em 40 anos, eu preciso criar as condições para que a floresta faça a maratona de 40 km, mas eu já não vou mais estar aqui para ver a maratona”, afirma Pereira.

A restauração usa 105 espécies diferentes, e o plantio segue estratégias para manter a absorção de carbono da atmosfera pelo maior tempo possível.

“Espécies que crescem rápido são o carbono do presente na floresta, e o pau-brasil, que estará grande daqui a 200 anos, é o carbono do futuro”, diz Dimitrio Schievenin, gerente de restauração da Biomas.

A disponibilidade de plantas é uma das grandes limitações do reflorestamento no país. No Muçununga, 60% das mudas são cultivadas em viveiros no entorno e 40% vêm de Minas Gerais e São Paulo, afirma Felipe Caffaro, gerente de operações florestais da Biomas. Cada hectare recebe cerca de 1.500 árvores.

“Se o Brasil colocar uma demanda clara para esse setor e conseguir projetar em médio e longo prazo, ele vai se estruturar”, diz Pereira.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO