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sábado, 18 de julho de 2026
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Em entrevista sobre os cem dias, Gladson diz que marcas do seu governo serão impressas a partir de agora

Por Tião Vitor

“Governador, quando o seu governo começa a se diferenciar do governo anterior? Quando sua administração começa a se destacar?”. As perguntas acima foram algumas das muitas feitas ao governador Gladson Cameli durante a entrevista coletiva que concedeu na manhã desta quarta-feira, 10, para falar dos primeiros cem dias do seu governo. Acompanhado do seu vice, Wherles Fernandes da Rocha, o Major Rocha, da primeira-dama Ana Paula e do seu chefe da Casa Civil, Ribamar Trindade, além de outros secretários e assessores diretos, Cameli respondeu a essas e a muitos outros questionamentos feitos pelos diversos meios de comunicação do Acre por quase duas horas no salão nobre do Palácio Rio Branco, local que quer usar, a partir de agora, como seu escritório de governo. Com isso, quer resgatar todo o conteúdo simbólico do local que abrigou a sede do poder no Acre por muitos anos.

Sobre as perguntas que iniciam este texto, Gladson não exitou em afirmar que seu as marcas do seu governo passariam a ser impressas a partir daquele momento, a partir daquela avaliação dos cem primeiros dias. Disse, inclusive, que isso se daria com alguns anúncios importantes que faria logo após a entrevista. Tais anúncios tratavam do apoio dado à Prefeitura de Rio Branco para a recuperação da malha viária da cidade, quando determinou a contratação da Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emurb) para o trabalho de recuperação de toda a malha viária de responsabilidade do Departamento Estadual de Estradas de Rodagens, Hidrovias e Infraestrutura Aeroportuária (Deracre) na parte urbana da capital.

Outro anúncio, esse esperado com ansiedade por muita gente foi o da convocação imediata de todos os aprovados em concurso público para a área de segurança pública no Estado. Ao todo, mais de 500 pessoas, entre agentes de polícia civil, policiais militares, escrivães e delegados, estavam esperando essa convocação.

“Essa é uma promessa de campanha que estamos cumprindo a partir de agora. Portanto, estão todos convocados e já poderão ingressar na carreira ajudando o nosso governo a combater a violência em nosso Estado”, afirmou Gladson Cameli.

O anúncio foi comemorado por dois desses aprovados que estavam presentes ao evento, Jessé Silva, aprovado para a Polícia Civil, e Othon Nascimento, aprovado para a Polícia Militar. Ambos falaram sobre a expetativa que viveram desde 2017, quando realizaram os concursos, até agora, quando são efetivamente convocados.

“Estamos realizando nossos sonhos, da nossa família. Queremos sempre estar do lado do Estado, da segurança pública e da sociedade. Essa será uma resposta para a sociedade. Quero agradecer ao governador e ao vice pelos esforços feitos. Obrigado pela confiança. Vamos dar o nosso melhor para a segurança do Acre”, disse Jessé. “Foram muitas lutas, horas de estudo, dinheiro gasto com exames e muito tempo de espera. Esperamos a convocação por muitos anos. Agora, é vida nova”, completou Othon.

Os problemas financeiros herdados do governo anterior

O início da coletiva, depois das declarações iniciais com o relato de algumas ações já realizadas, foi marcado pelas reclamações comuns a todo governo em seus primeiros dias. Entre os principais, a de que o atual governo recebeu o a administração estadual com um total de aproximadamente R$ 3,8 bilhões em dívidas, especialmente com dívidas como o décimo terceiro dos servidores públicos que não foi quitado na administração anterior, pagamento de fornecedores, empréstimos, entre outras pendências.

“É bom deixar ressaltado esse número de R$ 3,8 bilhões, mas também coloquem nessa conta aí o orçamento fictício que foi elaborado pelo governo anterior”, lamentou Cameli. “Passaram um cheque sem fundo para a gente, mas estamos aí fazendo das tripas coração para saber como vamos pagar essa conta, porque alguém tem que pagar”, ressaltou.

O governador foi perguntado ser esse déficit não havia sido notado por sua equipe de transição, já que, supostamente, todas as contas do Estado haviam sido abertas pela equipe econômica do governo anterior para os técnicos do atual governo.

Usando o jargão popular, teria essa equipe engolido mosca?

“Acho que alguns não engoliram mosca, engoliram foi um elefante, pois tem muitas informações que nós ainda não checamos e ainda não as temos prontas”, confirmou. “A transição te dá apenas um parâmetro. E eu sou muito sincero em afirmar que peguei um Estado, junto com o Rocha, deixado por um grupo que esteve no poder por 20 anos. Então, há todo um processo para não termos as informações. E te garanto que tem muitas informações que nós não temos os dados completos. E vou te dar um dado completo: na primeira semana de governo boicotaram o sistema da administração. E tem um inquérito policial civil para investigar esse caso. Mas nós sabemos que isso se deu por maldade, para esconder vários delitos que aconteceram na gestão passada”, argumentou.

Outro dado que Gladson disse acreditar haver erros é está relacionado à folha de pagamento da Saúde. Disse ele que está sendo realizada uma auditoria para identificar qualquer erro, para saber quem realmente está trabalhando ou se os pagamentos são feitos legalmente de acordo com cada contrato.

Números favoráveis na área de segurança pública

Um dos calos do governo de Gladson Cameli, assim como foi o do seu antecessor Tião Viana, é a área de segurança pública. Com o advento das facções criminosas e a guerra entre eles que faz vítimas diárias desde 2016, a população se sente insegura e o medo toma conta de todos, seja nas periferias das cidades, seja nos bairros mais nobres.

Gladson Cameli disse que os números colhidos nesses primeiros meses são favoráveis a seu governo, já que mostram uma redução no número de crimes registrados no Estado. Esse dados, inclusive, são corroborados pelo Ministério Público do Acre (MPAC) que divulgou um relatório no fim de março apontando redução de homicídios e roubos. Segundo esses dados, o número de homicídios caiu 25,7% entre 01 de janeiro e 29 de março.

“Com todas as dificuldades, as nossas forças policiais têm feito seu trabalho. Nesses cem dias, nós demos uma melhorada na parte de estrutura das polícias, com a aquisição de viaturas, coletes, entre outros. Recentemente, adquirimos uma aeronave doada pela Polícia Rodoviária Federal. Ela deve chegar no Acre nos próximos 20 dias e será usada no trabalho de logística, bem-como no trabalho de transporte de pacientes que fazem tratamento fora do domicílio.”

O governador foi questionado sobre a afirmação feita pelo secretário de Segurança Pública, Paulo César Rocha, que, nos primeiros dias de governo, disse que traria a sensação de segurança para a população em até 10 dias.

A resposta foi dada pelo vice, Major Rocha. Para ele, a frase foi apenas uma força de expressão, mas reconheceu que não foram reduzidos, ainda, os índices de segurança a níveis aceitáveis.

“Devo relembrar que quando assumimos, Rio Branco era a segunda capital mais violenta do Brasil, e o Acre, pelo Anuário da Segurança Pública de 2018, foi considerado o Estado mais violento do País”, alegou Rocha. “Mas o que nós queremos é isso, ou seja, no mais curto espaço de tempo, devolver a sensação de segurança para a população”, confirmou.

O vice-governador Major Rocha aproveitou para falar sobre o sistema penitenciário do Acre. Disse que, proporcionalmente, Acre é o Estado é o que tem o maior número de preso do País, mas que essa é uma realidade que o atual governo pretende mudar. Para ele, a instabilidade econômica do Estado resulta nessa grande população carcerária.

“Para resolver isso nós precisamos dar condições dignas aos que estão presos e investir na economia do Estado, que é o que o nosso governador vem defendendo. É só assim, criando oportunidades, retirando pessoas do crime e colocando no mercado de trabalho que vamos conseguir acabar com esse encarceramento em massa”, explicou Rocha.

Ainda dentro de sua fala, Wherles Rocha aproveitou para elogiar a direção do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), Lucas Gomes, e sua equipe que, de segundo ele, retomou o comando das unidades prisionais do Estado que estavam nas mãos das facções criminosas.

Reforma administrativa

Gladson Cameli confirmou o que já vinha sendo anunciado pela imprensa há alguns dia: vai mesmo ser realizada uma mini reforma administrativa na estrutura do governo. Mas ele negou que esteja planejando trocar algum secretário. Garantiu que todos permanecem no cargo, com exceção daqueles que, por vontade própria, desejarem pedir demissão do cargo.

Respondendo a pergunta dos jornalistas, o governador disse que a reforma administrativa executada no início do seu mandato precisava acontecer, mas que esta teve uma dosagem muito alta. Agora, com esta mini reforma, argumenta ele, será feito um reajuste que dará mais condições para sua equipe técnica trabalhar.

O destaque dessa mini reforma será a volta da Secretaria de Ação Social, que deve ser ampliada com o acréscimo de atribuições voltadas para os direitos humanos, mulher e políticas indígenas. A nova pasta ficará a cargo da primeira-dama Ana Paula Cameli.

“Ainda não está definida qual será a nomenclatura dessa secretaria. Estamos definindo essa questão para logo mais anunciar a sua criação”, anunciou o governador.

O governador também falou sobre a contratação de petistas e a despetização, que seria a demissão de assessores ligados ao Partido dos Trabalhadores. Disse ele ter sido necessário, no início de sua gestão, manter determinados quadros que eram importantes para o funcionamento da máquina pública. Contudo, reclamou de indicações que estavam sendo feitas por aliados políticos que priorizavam pessoas com estreita ligação política com os seus antigos opositores, os membros da Frente Popular do Acre que governaram o Estado até 31 de dezembro passado.

Conclusão das obras do Huerb

Com obras iniciadas há mais de 12 anos, o Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb), onde funciona o pronto-socorro da capital, finalmente será concluído e entregue à população em aproximadamente um mês. Essa foi uma das garantias dadas por Gladson Cameli ao tratar do assunto Saúde. De acordo com ele, além da estrutura física, também serão entregues todos os equipamentos, alas e leitos plenamente funcionando.

“O coração da saúde do Estado está ali, pois vem gente de todos os lugares, da zona rural, ribeirinhos, dos países vizinhos e de outros Estados para serem atendidos ali. Nós vamos inaugurar aquela obra, mas não é apenas a estrutura pronta. Vamos entregar ele funcionando.”

Quanto aos medicamentos para abastecer as unidades de saúde do Estado, Cameli disse que o governo deve adquirir R$ 387 milhões em medicamentos, um total superior a 1,3 mil tipos de remédios, o suficiente para abastecer toda a rede até o fim do ano.

Outro ponto destacado refere-se à quitação de dívidas com o hospital Santa Juliana, que passa, novamente, a atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e as dívidas com as equipes médicas que realizavam transplantes de órgãos no Estado. Dessa forma, as cirurgias de alta-complexidade voltam a serem realizadas no Hospital das Clínicas.

Relação com o parlamento

Muitos outros temas deixaram de ser abordados com a devida profundidade, como educação, produção, meio ambiente, etc. A relação com o parlamento foi um desses, mas Gladson ainda comentou alguma coisa a respeito. Disse, por exemplo, que sua ida de surpresa à Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) na última terça-feira é uma das medidas para aproximar os dois poderes.

Acrescentou que está elevando de R$ 200 mil para R$ 500 mil o valor das emendas individuais que cada parlamentar tem direito a apresentar ao Orçamento do Estado todos os anos. Contudo, essas emendas são voltadas para as áreas de saúde, educação e segurança. Ao todo, serão R$ 12 milhões a serem investidos nessas áreas todos os anos.