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terça-feira, 30 de junho de 2026
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Desespero de deixar o país expõe descaso do governo federal

REPÓRTER OPINIÃO

A tentativa dos imigrantes de atravessar na marra a ponte entre o Brasil e o Peru, em Assis Brasil (a 310 quilômetros de Rio Branco) é reflexo da letargia do governo brasileiro, por meio do seu Ministério das Relações Exteriores em Brasília, de resolver de uma vez por todas o impasse com a nação peruana. Na manhã de quarta-feira, 17, o prefeito Jerry Correia (PT) mostrava à imprensa que cobria o movimento, que há quase um ano o município vem sofrendo com a precariedade que é manter as cerca de 500 pessoas com condições de infraestrutura sempre aquém do ideal já por quase um ano.

Desde março de 2020, o governo peruano não deixa que os estrangeiros saiam do Brasil num caminho inverso à diáspora que começou em 2010 – com haitianos fugindo da situação do caos econômico e social na ilha caribenha -, e que se seguiu com outras nacionalidades como os congoleses e senegalesas, na África. Agora, com a crise no Brasil puxada pelas altas de preços e o desemprego, esses mesmos grupos tentam sair do país pelo Peru, para tentar alcançar o México, os Estados Unidos e o Canadá pela rota do Pacífico.

Diante do impasse do governo peruano e da falta de vontade do governo brasileiro de resolver o problema, essas famílias vão sobrevivendo às custas da Prefeitura de Assis Brasil e seus minguados recursos, a maioria retirada dos serviços de manutenção, como a reforma de ruas e a abertura de ramais, por exemplo.

Jerry Correia explica que desde o início de 2020, quando chegaram as primeiras 300 pessoas que conseguiram cruzar a fronteira com o Peru, a prefeitura recebeu apenas R$ 600 mil do governo federal para lidar com a questão. Por um tempo, o dinheiro serviu para a aquisição de alimentos, para a manutenção do abrigo improvisado em duas escolas públicas e para a construção do abrigo definitivo, que ainda está por terminar, segundo o prefeito, até a próxima quarta-feira, 24. “O outro recurso veio do governo do estado, R$ 130 mil, para assistência social”, diz o prefeito.

“Agora, a questão é que nosso município tem um endividamento alto, assim como o nível de desemprego. A parte estrutural da cidade está toda por fazer e os nossos moradores da zona rural também sofrem com o isolamento porque temos de atender como prioridade, por questões humanitárias, essas pessoas”, ressalta o chefe do Poder Executivo de Assis Brasil.

“Não temos como negar que deixamos de amparar a nossa população, com ruas recuperadas, por exemplo, porque não temos estrutura para suportar todas essas famílias, num problema que não é somente nosso, mas também do governo federal”, completa Correia. Em Assis Brasil, há famílias de pelo menos cinco nacionalidades.

Decreto de calamidade pública

Na semana passada, diante do recrudescimento da pandemia de Covid-19 no município e dos casos de dengue, o prefeito decretou estado de calamidade pública, diante também da situação dos estrangeiros que permanecem na cidade por causa do fechamento da fronteira pela nação vizinha.

“Nós nos reunimos por meio de videoconferência com os nossos parlamentares da bancada acreana em Brasília, na terça-feira, 16, para expor a situação e pedir o apoio deles para que intercedam junto ao governo federal por uma solução. Enquanto isso, tivemos que decretar estado de calamidade pública. Não podemos mais caminhar sozinhos. Estamos esgotados financeiramente, sem mais condições de manter essa situação com tantas variáveis juntas”, disse o prefeito.

O estado de calamidade pública permite que o Município tenha a atenção do governo federal com medidas mais enérgicas para solucionar a própria situação de calamidade, incluindo o uso de verbas sem a necessidade de licitações e o envio emergencial desses recursos para a região.

Os imigrantes acreditavam que sair do país seria a melhor opção, tanto para se protegerem da contaminação pelo coronavírus, quanto pela agonia do desemprego. No entanto, encontraram o Peru fechado para ingresso e prosseguimento de viagem pelo continente, justamente por causa da pandemia da qual acreditavam poder escapar.