O agravamento do conflito entre Irã e Estados Unidos já provoca reflexos nos mercados internacionais e pode afetar diretamente a economia brasileira. O fechamento do Estreito de Ormuz, anunciado nesta segunda-feira (2), elevou o preço do petróleo e aumentou a pressão sobre o dólar, cenário que pode encarecer combustíveis, energia e alimentos no Brasil.
A passagem marítima, considerada uma das rotas energéticas mais estratégicas do mundo, é responsável pelo trânsito de cerca de 20% do petróleo global. Um comandante da Guarda Revolucionária iraniana afirmou que o país pode atacar embarcações que tentarem cruzar a região.
A medida foi tomada após a escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos iniciada no último sábado (28). Segundo economistas, os efeitos da crise já começaram a ser sentidos no mercado internacional.
Alta imediata no preço do petróleo
De acordo com o economista João Victor da Silva, aproximadamente entre um quarto e um quinto da produção mundial de petróleo passa pela região do Golfo Pérsico. Com o bloqueio da rota, os preços reagiram rapidamente.
Nesta segunda-feira, o petróleo registrou alta de cerca de 8%. Os contratos futuros do Brent, referência global para o petróleo produzido no Mar do Norte, chegaram a subir 13%, atingindo US$ 82,37 por barril, o maior valor desde janeiro de 2025.
O impacto também atinge o mercado de gás natural e pode repercutir diretamente no custo de energia em diversos países.
Impactos no Brasil
No Brasil, a política de preços da Petrobras considera as referências do mercado internacional para definir o valor dos combustíveis. Com a alta do petróleo, existe a possibilidade de reajustes no preço da gasolina e do diesel.
Esse movimento tende a afetar o setor de transportes e, consequentemente, diversos segmentos da economia. Segundo especialistas, o aumento do custo da energia pode provocar reflexos em cadeia.
“O impacto no preço dos alimentos tende a ocorrer justamente por causa do aumento no custo da energia”, explicou o economista.
Dependência comercial da região
Estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) indica que, entre 2021 e 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 73,84 bilhões para países do Golfo e do Oriente Médio, o equivalente a aproximadamente 4,5% das exportações brasileiras no período.
Entre os principais produtos exportados estão carnes, açúcar, milho, soja e minério de ferro.
No mesmo intervalo, as importações brasileiras da região totalizaram US$ 42,87 bilhões, cerca de 3,3% das compras externas, com destaque para combustíveis minerais e fertilizantes.
Segundo a Fiemg, essa relação comercial torna a economia brasileira mais sensível às oscilações de preços e às tensões geopolíticas no Golfo Pérsico.
Exportações de grãos e carnes podem sentir impacto
Dados da XP Investimentos apontam que, em 2025, cerca de 48% das exportações brasileiras de milho foram destinadas a países afetados pela crise no Oriente Médio, como Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Israel, Jordânia e Omã.
Segundo a instituição, os fretes internacionais, seguros e prêmios de risco devem encarecer as exportações para a região. Ainda assim, produtos essenciais como alimentos tendem a continuar sendo comercializados mesmo em cenários de conflito.
No caso da carne bovina, a participação do Oriente Médio e do Norte da África nas exportações brasileiras caiu de 19% para 13% entre 2024 e 2025.
Já no setor de frango, a dependência é maior. Países diretamente afetados pelo conflito representam cerca de 21% das exportações brasileiras do produto.
Dólar e juros sob pressão
Além do impacto no petróleo, o cenário geopolítico também influencia o mercado financeiro. Em momentos de crise internacional, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como o dólar.
Nesta segunda-feira, a moeda norte-americana começou o dia cotada perto de R$ 5,13, chegou a atingir R$ 5,21 e encerrou próxima de R$ 5,18.
Esse movimento pode dificultar o controle da inflação no Brasil e prolongar o período de juros elevados.
Segundo estimativas da XP Investimentos, um aumento de 10% no preço do Brent pode gerar impacto de aproximadamente 0,25 ponto percentual no IPCA.
Além disso, a defasagem de cerca de 15% no preço do diesel em relação ao mercado internacional aumenta o risco de reajustes no combustível, o que pode elevar custos de frete e pressionar ainda mais os preços de alimentos e produtos industrializados.


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