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segunda-feira, 27 de julho de 2026
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Criptomoedas: entenda como foi feita avaliação de R$ 2,5 bilhões das alexandritas que custaram R$ 6 mil

O ge teve acesso ao laudo técnico que a Xland usa como justificativa para dizer que os 20kg de pedras de alexandrita que possui valem US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões na cotação atual – o valor de R$ 2 bilhões foi dito pela empresa com base numa cotação antiga).

As joias, porém, foram adquiridas por apenas R$ 6 mil pela empresa acusada de aplicar um golpe após investimentos em criptomoedas, como aconteceu com Gustavo Scarpa e Mayke. Os dois chegaram à Xland por indicação de Willian, ex-companheiro dos atletas no Palmeiras e que também alega ter perdido dinheiro.

O certificado de valor, realizado em Petrolina (PE) no dia 18 de março de 2022, é assinado pela gemóloga Weysida Carvalho. Ela retirou 11 pedras do malote com 20kg de alexandritas não lapidadas para fazer a análise e consequentemente o cálculo, que é considerado irreal tanto por quem vendeu as pedras quanto por especialistas na área.

Estas 11 pedras entre 1 e 3 quilates (cada grama equivale a 5 quilates) foram lapidadas e definidas como padrão. A gemóloga depois de testes de luz chegou ao cálculo de que cada quilate desta amostra valeria US$ 16.666,67 (R$ 85.558,35).

– Os valores aqui definidos tem como objetivo demonstrar de forma clara e direta, tomando como base referências de mercado e das características das pedras aqui analisadas, aproveitamento de 30% ao lapidar, chegando aproximadamente a 30.000 Ct’s (quilates) – diz um trecho do documento.

A partir do cálculo do aproveitamento de 30% ao lapidar, a gemóloga conclui que os 20kg de pedra bruta valem US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões).

Procurada pela reportagem, Weysida confirmou ter feito a avaliação presencialmente das pedras. Ela disse que seu trabalho foi técnico e não tem conhecimento das operações de seus clientes – neste caso, a Xland.

As pedras foram compradas na Bahia, enviadas para a análise em Petrolina e de lá despachadas para o Acre, onde é a sede da Xland. A empresa levou o malote com as alexandritas (veja na foto abaixo) para uma caixa de segurança em São Paulo (SP). As joias estão bloqueadas por decisão de Justiça, após pedidos de Scarpa e Willian.

Valores são considerados irreais

Ainda que a quantia de R$ 2,5 bilhões tenha a chancela de um laudo técnico, os relatos ouvidos pelo ge mostram que não é normal uma diferença tão grande entre o valor pago pelas pedras (R$ 6 mil) e o que se considera que elas valem.

A R Andrade, empresa que comercializou as alexandritas para a Xland por R$ 6 mil, explica que R$ 2,5 bilhões equivalem a quase o dobro do valor necessário para comprar todo o garimpo destas joias no Brasil.

As alexandritas podem custar um valor alto, de fato, mas há diferentes categorias delas à venda. A adquirida pela Xland como garantia está entre as mais simples, e a empresa ainda negociou para comprar por um valor ainda mais barato. De acordo com a nota fiscal, cada kg custou R$ 300.

Gemólogos especialistas no mercado argumentaram ao ge que não há como ter uma disparidade tão grande nos valores como o deste caso. Uma margem de lucro considerada normal calcula-se quatro ou cinco vezes o valor pago (entre R$ 25 mil e R$ 30 mil), mas não ir de R$ 6 mil para R$ 2,5 bilhões.

Como a análise parte de uma avaliação individual, há casos de pedras usadas no mercado financeiro calculadas com valor bem acima do pago inicialmente e até acima do que valem de fato.

Por isso, gemólogos dizem ser necessário cuidado mesmo se for apresentado um laudo técnico para justificar valores altos demais em negócios atrelados a pedras preciosas.

Citado no processo, Willian quer perícia

A defesa de Gustavo Scarpa pediu o bloqueio do malote com as pedras de alexandrita em uma ação que tentava travar R$ 5,36 milhões da Xland, mas só foram encontrados R$ 674,89 nas contas da empresa. A saída foi pedir o arresto das joias dadas como garantia.

O advogado de Willian também pediu o bloqueio do malote recebido pela Sekuro, local onde está a caixa de segurança com as pedras, na segunda-feira. Bigode se dizia parceiro da Xland e tem uma empresa de assessoria financeira, também citada nos processos de Mayke e Scarpa.

A defesa do atual jogador do Athletico diz que a medida é uma forma de proteger os interesses de Bigode e também de Scarpa e Mayke. Ela se baseia na avaliação de que as pedras mais puras de alexandrita podem valer uma quantia altíssima. Mas depende de uma perícia para ter certeza da quantia.

– O valor de mercado da gramatura desta pedra, hoje, se eu não estou equivocado, está no valor de US$ 9 mil (R$ 46 mil). Pela gramatura de mercado não vejo uma perspectiva de incongruência. Agora, se efetivamente esta pedra possui o valor apontado no próprio documento apresentado pela Xland, isto é algo que não podemos ter um posicionamento categórico, porque vai precisar haver uma perícia judicial. Até aqui, estamos nos pautando exclusivamente no documento – disse Bruno Santana, advogado de Willian.

– Não podemos colocar nossa convicção absoluta de que de fato os documentos atestam a realidade. O que vai ser requerido em momento oportuno é que seja realizada uma perícia para avaliar a procedência da pedra para ver o valor de mercado dela hoje.

Na decisão da Justiça que acatou o bloqueio das pedras é citado que diante da segurança necessária para o transporte deste tipo de produto “não há como se efetuar a busca e apreensão dos bens depositados”. O malote está lacrado na caixa de segurança.

O que é alexandrita?

Alexandrita é uma variação do mineral crisoberilo. Trata-se de uma das pedras preciosas mais caras atualmente. O Brasil se tornou um dos maiores produtores, principalmente em Minas Gerais (os 20 kg comprados pela Xland são da Bahia). A pedra ficou caracterizada por mudar de cor. Durante o dia, fica num tom azul-esverdeado. À noite, vermelho-arroxeado.

Entenda todo o caso

Gustavo Scarpa e Mayke decidiram abrir um Boletim de Ocorrência horas depois de o Palmeiras conquistar o título brasileiro, em novembro. Os dois reclamam do sumiço de mais de R$ 10 milhões investidos em criptomoedas na Xland. Além deles, Weverton também é citado como uma vítima.

O meia, atualmente no Nottingham Forest, acusa a empresa de Willian, a WLJC Consultoria e Gestão Empresarial, e a Xland Holding Ltda do golpe de R$ 6,3 milhões. Uma outra ação é movida pelo lateral-direito Mayke, que investiu mais de R$ 4 milhões.

Antes Scarpa era muito próximo de Willian Bigode, mas a relação ficou estremecida diante dos acontecimentos.

Scarpa foi apresentado à empresa Xland por Willian em junho de 2020 graças a um arquivo com uma apresentação sobre criptomoedas. Em áudio, Bigode afirmou que a empresa na qual é sócio tem “nossa fidelidade e parceria com a Xland”.

A promessa era de que o lucro poderia chegar a 5% ao mês, muito acima do que qualquer aplicação no mercado. Para convencer Scarpa a investir, Gabriel Nascimento, um dos donos da Xland, chegou a dizer que a empresa tinha a quantidade bilionária em pedras de alexandrita, além de chácaras e terrenos como garantia.

Scarpa até ironizou uma das mensagens de Willian reveladas pelo Fantástico em que o atacante diz que agora só “resta orar”, diante do sumiço do dinheiro.