Compra de vacina para funcionário é insustentável e moralmente inaceitável, diz presidente da Natura

Enquanto uma parte do empresariado brasileiro pressiona governo e Congresso para liberar a vacinação de funcionários, o grupo Natura vai na contramão com “uma posição bastante firme em relação a isso”, nas palavras de João Paulo Ferreira, presidente da Natura &Co América Latina.

“Uma vacinação que siga critérios de determinados grupos econômicos ampliará ainda mais as desigualdades sociais, já aprofundadas pela pandemia, especialmente no Brasil, onde temos mais de 14 milhões de desempregados”, diz.

Para ele, antecipar a vacinação de funcionários em relação aos grupos prioritários é algo moralmente inaceitável e economicamente insustentável.

Na semana passada, a multinacional de cosméticos brasileira anunciou uma doação de R$ 4 milhões ao consórcio de prefeitos para a compra de insumos hospitalares e vacina, quando houver disponível no mercado.

O executivo lamenta que, apesar do sistema de saúde público estruturado, o Brasil não tenha conseguido articular as esferas de governo e comprar as vacinas com agilidade.

“Contribui para a situação caótica em que nos encontramos o negacionismo nas declarações de algumas autoridades, desestimulando o distanciamento social e o uso de máscaras”, afirma.

Para Ferreira, iniciativas como a carta aberta lançada por 500 economistas, banqueiros e empresários cobrando medidas para a dramática situação brasileira, são um esforço válido. O documento teve a assinatura de um dos fundadores da Natura, Pedro Passos.

“Apesar da continuidade do discurso negacionista na retórica oficial, essa pressão já tem mostrado resultados, com o aprofundamento de medidas de distanciamento nas cidades, ampliação das frentes de negociação para a aquisição e produção de vacinas e o retorno do auxílio emergencial”, afirma.

Para o futuro, Ferreira alerta que o Brasil terá de lidar com os prejuízos que a pandemia vai deixar na educação.

“Adiciono a necessidade de requalificação de trabalhadores e o retrocesso na educação pública. Antes, discutíamos como melhorar o desempenho dos estudantes. Agora, estamos novamente lidando com a evasão escolar”, diz.

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Foto: Reuters