Lula e Xi Jinping conversaram por mais de uma hora na noite de domingo (26) e concordaram em acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a China com “as flexibilidades necessárias”, segundo a nota do Planalto.
A mudança no tom deste tópico é surpreendente e difere radicalmente do adotado na última década, quando a diplomacia brasileira gastava capital político no bloco justamente para impedir que a negociação de um tratado saísse do papel.
Quem sustentava a pauta era o então presidente uruguaio Luis Lacalle Pou, que encomendou um estudo de viabilidade com os chineses em 2021 e repetia que o protecionismo do bloco sufocava a capacidade de um país pequeno se abrir ao mundo.
- Os números davam alguma razão ao uruguaio, já que o Mercosul exibe a menor razão entre comércio exterior e PIB entre os blocos de integração, 14,9% contra uma média global de 33%;
- Brasília e Buenos Aires trataram a iniciativa como ameaça à sobrevivência do bloco, apoiadas no Tratado de Assunção, que obriga os sócios a negociar em conjunto com terceiros. O receio era de triangulação, com produtos chineses levemente processados no Uruguai circulando pela região com as preferências reservadas aos membros.
Não por acaso, Lula escolheu Montevidéu como parada da primeira viagem internacional do terceiro mandato, em janeiro de 2023, e comprou a desistência uruguaia com a retomada de obras de infraestrutura e a volta das contribuições ao fundo do bloco.
Lacalle Pou levou a conversa com Pequim para dentro do Mercosul, onde ela vinha hibernando por três anos seguintes. O atual presidente Yamandú Orsi reabriu a porta em fevereiro, ao levar 150 pessoas a Pequim e assinar declaração conjunta pedindo o início imediato das tratativas. Bastaram cinco meses e duas rodadas de tarifas americanas para que o Brasil aderisse à agenda que havia sabotado.
Por que importa: a diversificação que Lula apresenta como resposta ao tarifaço cobra um preço industrial que o próprio governo passou anos tentando evitar, e as “flexibilidades necessárias” antecipam a briga por salvaguardas que aço, têxtil e automóveis vão travar na mesa. Enquanto isso, Pequim recebe de graça a demonstração de que a coerção americana empurra parceiros na direção oposta à pretendida por Washington.
Tela do artista chinês Fang Lijun, conhecido pelo uso vibrante de cores. Ele é um dos precursores do estilo “realismo cínico”, que se popularizou no país após as manifestações na Praça da Paz Celestial, em 1989. Fang tem obras espalhadas pelo mundo todo e já expôs no Museu de Arte de Macau e no prestigiado Centro Pompidou, em Paris. Saiba mais sobre ele aqui.
FONTE: FOLHA DE S. PAULO


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