A crise instalada no FrigoRaça, antigo Frizam, transformou uma das principais atividades econômicas de Boca do Acre em motivo de apreensão entre trabalhadores, pecuaristas, transportadores e fornecedores. Desde a segunda-feira (21), uma grande quantidade de caminhões boiadeiros passou a permanecer estacionada em frente ao frigorífico, enquanto aumentavam as reclamações de pessoas que afirmam ter valores a receber da empresa.
Segundo relatos de credores e trabalhadores, o passivo acumulado pelo frigorífico ultrapassaria R$ 30 milhões. A cifra, entretanto, ainda não foi oficialmente auditada ou confirmada por autoridade pública e envolve diferentes categorias de credores, entre elas funcionários, pecuaristas que entregaram gado para abate e fornecedores de serviços e insumos, como combustíveis.
A situação ganhou maior repercussão depois que a pecuarista e influenciadora digital Bruna Chiarelli publicou vídeos diretamente da frente do frigorífico. Nas gravações, ela acusa os responsáveis pela empresa de não honrarem compromissos financeiros e cobra uma manifestação das autoridades municipais diante da dimensão do problema.
Do Frizam ao FrigoRaça
O empreendimento localizado às margens da BR-317, no Platô do Piquiá, é tradicionalmente conhecido em Boca do Acre como Frizam. O estabelecimento pertence à Agropam – Agricultura e Pecuária Amazonas S/A, empresa que tem José Lopes como presidente, segundo dados cadastrais públicos atualizados em setembro de 2026.
Documentos do Ministério Público Federal confirmam que a Agropam celebrou um contrato de locação industrial com a Falcão Indústria de Alimentos Ltda., que passou a exercer as atividades de abate de bovinos e outras atividades relacionadas no estabelecimento.
A empresa responsável pela operação em Boca do Acre está registrada como Falcão Indústria de Alimentos Ltda., utilizando o nome fantasia Frigorífico FrigoRaça. O cadastro empresarial indica atividade principal de abate de bovinos e capital social declarado de R$ 9,8 milhões.
Produção aumentou e chegou perto de 500 animais por dia
Durante o período de operação do FrigoRaça, o ritmo de abate teria aumentado significativamente. Segundo relatos que circulam entre produtores e trabalhadores, a unidade chegou a abater próximo de 500 cabeças de gado por dia.
Esse volume é compatível com registros públicos anteriores sobre a unidade. Reportagem publicada em 2025 descreveu o Frizam, ainda associado ao empreendimento de José Lopes, operando com capacidade de abater pelo menos 500 bois e vacas por dia.
O aumento da movimentação representava uma injeção expressiva de recursos na economia local, envolvendo produtores rurais, transportadores, funcionários, fornecedores de combustíveis, alimentação, manutenção, peças, serviços e diversos outros segmentos.
Por isso, uma eventual interrupção prolongada da atividade não representa apenas um problema empresarial: seus efeitos podem alcançar toda a cadeia econômica ligada à pecuária de Boca do Acre.
Pecuaristas afirmam estar sem receber pelo gado entregue
Entre os grupos mais atingidos estão pecuaristas que venderam animais para abate e afirmam não ter recebido pelos bovinos entregues.
De acordo com relatos divulgados nas redes sociais, produtores chegaram a se reunir para tentar obter explicações e negociar uma solução diretamente com representantes da empresa.
Segundo Bruna Chiarelli, que participou da mobilização dos pecuaristas, teria ocorrido uma reunião na qual o proprietário da empresa teria informado aos credores que não faria os pagamentos reivindicados e que aqueles que se considerassem prejudicados deveriam procurar seus direitos na Justiça.
Essa declaração é atribuída por Bruna ao representante da empresa e, até o momento, não foi apresentada uma manifestação pública da Falcão Indústria de Alimentos que confirme ou conteste a versão.
Trabalhadores também relatam dificuldades
Além dos pecuaristas, trabalhadores do frigorífico estão entre os possíveis atingidos pela crise.
Os relatos apontam para mais de 400 funcionários ligados diretamente à operação que podem ter sido afetados pelo atual cenário. A quantidade exata de empregados e a situação individual dos contratos de trabalho ainda precisam ser confirmadas documentalmente pelos órgãos competentes.
A dimensão social da crise, contudo, é evidente: centenas de trabalhadores representam centenas de famílias que dependem diretamente da renda gerada pela indústria.
Antes mesmo da atual crise, trabalhadores já haviam relatado insatisfação com as condições de trabalho e com o tratamento recebido durante a administração do empreendimento arrendado. Essas reclamações, assim como eventuais débitos trabalhistas, precisam ser apuradas pelos órgãos de fiscalização e pela Justiça do Trabalho.
Frigorífico já foi alvo de autuação ambiental
O histórico recente do empreendimento também inclui problemas ambientais.
Em novembro de 2024, o Ibama informou ter flagrado o frigorífico Frizam, então identificado como pertencente a José Lopes, despejando resíduos provenientes do abate de animais. A operação resultou em uma multa de R$ 2,8 milhões por infrações ambientais, segundo informações divulgadas à época.
O episódio ficou conhecido pela imagem de resíduos formando o chamado “rio de sangue” nas proximidades do empreendimento.
É importante separar esse episódio ambiental da atual crise financeira: a autuação mencionada ocorreu em 2024 e estava relacionada às atividades ambientais do empreendimento então identificado como Frizam. Já as atuais acusações de inadimplência são atribuídas à operação do FrigoRaça/Falcão e dependem de apuração específica.
Ministério Público já registrava a mudança de operador
A documentação do Ministério Público Federal ajuda a esclarecer a relação entre as empresas.
Em procedimento relacionado ao TAC da cadeia da carne, o MPF registrou que a Agropam celebrou contrato de locação industrial com a Falcão Indústria de Alimentos, que assumiria as atividades de abate de bovinos no estabelecimento. O documento também registra que a empresa locatária declarou ter ciência dos compromissos ambientais e de rastreabilidade anteriormente assumidos.
Portanto, embora o empreendimento seja historicamente conhecido como Frizam, os registros públicos atuais distinguem a proprietária da estrutura, Agropam, da empresa que passou a operar a unidade, Falcão Indústria de Alimentos, responsável pelo nome FrigoRaça.
Bruna Chiarelli cobra atuação das autoridades
Diante do impasse, Bruna Chiarelli tem utilizado as redes sociais para cobrar uma posição das autoridades municipais.
Nos vídeos publicados, a pecuarista afirma que o problema ultrapassa os interesses particulares dos credores e representa uma ameaça à economia de Boca do Acre.
Ela pede que o poder público ajude a encontrar uma solução ou, ao menos, dê uma direção aos trabalhadores e produtores que afirmam não saber como receber os valores que lhes são devidos.
A principal preocupação é que a paralisação ou redução das atividades provoque um efeito dominó sobre toda a cadeia produtiva.
Um problema que pode atingir toda a economia local
O frigorífico é uma das maiores unidades industriais de Boca do Acre e ocupa posição estratégica na economia do município.
Quando centenas de animais deixam de ser abatidos, o impacto não fica restrito à indústria. O produtor deixa de vender, o caminhoneiro deixa de transportar, o funcionário deixa de receber, o posto de combustível perde movimento e comerciantes que atendem trabalhadores e pecuaristas também sentem a retração.
Além disso, uma eventual dívida superior a R$ 30 milhões, caso confirmada por documentos e processos, representaria uma circulação de recursos extremamente significativa para uma economia municipal do porte de Boca do Acre.
Por isso, produtores e trabalhadores defendem que o caso seja esclarecido rapidamente.


?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>
?>