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segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Boca do Acre tem uma sociedade adoecida mentalmente, adverte a psicóloga

Em entrevista realizada no mês passado com a psicóloga Aline Tavares, um alerta: “Boca do Acre está adoecida mentalmente”. Seríamos uma sociedade potencialmente suicida, uma coletividade depressiva? Essas perguntas serão respondidas pela profissional que falou sobre suicídio, entre outras práticas contra a própria vida, que são consequências graves de mentes doentes, que precisam de ajuda.

O psicólogo está atento sempre. Ele desconstrói ideação, tentativa e até mesmo a consumação do suicídio, que é o último estágio de um estado depressivo, de desesperança e descrédito na própria vida. O psicólogo reconstrói a vida a partir daquilo que ele escuta de cada paciente, por meio de argumentos que transformam aquele paciente, que já estava praticamente morto mentalmente, para abrir os olhos e ver o mundo a partir de outro prisma.

Aline Tavares atua há quatro anos como psicóloga clínica em Boca do Acre. Aline é pós-graduada em Psicologia Hospitalar e da Saúde, Saúde Pública com Ênfase em Estratégia em Saúde da Família, Perícia Criminal e Investigação Forense, além de outras formações que está em fase de conclusão.

Sociedade adoecida mentalmente
Aline fez um diagnóstico da sociedade bocacrense e constatou que as pessoas estão com alto índice de adoecimento mental, tendo em vista que os transtornos mentais só aumentam, principalmente a depressão.

De acordo com a psicóloga, a faixa etária onde há maior preocupação é com a adolescência e juventude, que são mais propensos à depressão, consequentemente ao suicídio. Entre esses, a maior atenção fica com os homens, pois de acordo com Aline, o sexo masculino é que o mais tem consumado as tentativas de tirar a própria vida.

“Os jovens de 15 a 29 anos têm se sobressaído em relação ao suicídio. Os jovens estão cada vez mais adoecidos. Os homens conseguem mais entrar na fase final, que é o suicídio”, informou.

Suicídio abaixo
“Mas apesar do alto índice de adoecimento mental, o suicídio tentado tem um número muito baixo, isso porque as pessoas que buscam ajuda, temos conseguido transformar, desconstruindo aqueles pensamentos ruins”, comentou.

Prevenção do suicídio
Aline garantiu que a melhor prevenção ao suicídio, se dá através da divulgação, mobilização, campanhas de conscientização, fazer com que as pessoas venham aderir a valorização da vida, como as ações que aconteceram no Setembro Amarelo.

Outro ponto bastante positivo é o próprio paciente se reconhecer e procurar por ajuda. “O que falta é a disposição do paciente de pedir ajuda. Precisamos quebrar a resistência que as pessoas têm com os profissionais da saúde mental. Algumas pessoas que chegam até nós estão em um nível de adoecimento preocupante, e isso reflete na sociedade como um todo”, disse.

Um assunto preocupante
Quando perguntada se o suicídio em Boca do Acre é um assunto preocupante, Aline respondeu que sim. “A questão do suicídio se tornou uma questão de saúde pública, pois as pessoas têm se tornado cada vez mais adoecidas, e isso tem influenciado os altos índices de suicídios. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a cada 40 segundo, uma pessoa consegue por fim à própria vida”, respondeu a psicóloga.

“Devemos ter um olhar atento para esta causa, não só em setembro, mas em todos os dias, e que venhamos valorizar a vida acima de tudo”, complementou.

De acordo com a profissional, a demanda de atendimento de pessoas com ideação suicida tem crescido assustadoramente, em Boca do Acre. “Em Boca do Acre o suicídio não tem sido tão elevado, mas o suicídio tentado tem sido muito, e a ideação suicida é ainda maior”, afirmou.

Autoflagelo
A psicóloga identificou também um crescente índice de jovens e adolescentes que se automutilam, que segundo ela, é uma ideação suicida mascarada. “Acredito que a cada dez pacientes, um ou dois já tentou suicídio. A cada dez pacientes, cinco tem a ideação suicida”, informou.

A esperança, segundo Aline, é quando o paciente toma a iniciativa de procurar ajuda. Na maioria dos casos de ideação, o trabalho da psicóloga tem conseguido alcançar o paciente e o feito mudar de ideia, e nos casos mais felizes, a superar todas as dificuldades da sua vida, que influenciam diretamente nos pensamentos suicidas.

Os sinais
Perguntada sobre os sinais dados pelas pessoas que estão sofrendo e tendo pensamentos suicidas, Aline explicou que na maioria dos casos eles são muito claros. “Quando está no sofrimento muito intenso, ela manifesta sentimentos e pensamentos. Os principais sentimentos são o desamparo, a tristeza, desesperança, depressão, choro, insegurança, complexo de inferioridade, sempre se sente pior do que os outros, sente muita culpa, pega a sobrecarga do outro para si, começa a se isolar, pelo fato de não se sentir capaz, e muitas vezes entra no isolamento, afetando a autoestima. A pessoa passa a ter uma imagem distorcida de si, é como se ela se olhasse e não conseguisse se reconhecer”, explicou.

“Os pensamentos são: perdedor, se acha um lixo, preferia estar morto, gostaria de dormir para sempre, ninguém me ama, então são esses sinais verbais que precisamos estar atentos. Algumas pessoas conseguem mascarar o que sentem. Há pessoas que estão profundamente adoecidas, mas que sorriem, que trabalham, mas só elas sabem o que passam”, acrescentou.

O suporte
Segundo a psicóloga, a Secretaria Municipal de Saúde tem dado o suporte através dos profissionais da saúde. O mês de setembro é especificamente a época do ano voltada para a conscientização com palestras em escolas, unidades básicas. Além disso, durante o ano todo, a equipe de saúde mental do município, se desdobra para dar conta da demanda, que conforme disse Aline, cresce sem medida.

“O ano todo, a gente recebe uma demanda muito intensa de pacientes que necessitam desse suporte”, afirmou a psicóloga, que reiterou a atenção especial para pessoas que apresentam ideação suicida. Segundo Aline, feito esse diagnóstico e confirmado que a pessoa está adoecida mentalmente, com pensamentos suicidas, é dada prioridade para ela.

24 horas disponíveis
“Estamos o tempo todo à disposição da população. Já tive caso de pacientes que ligam altas horas da noite, dizendo que estão em crise e em algumas situações, dizendo que vão tirar a própria vida”, revelou a psicóloga.

“Eu me coloco à disposição da sociedade e dizer que não é vergonha pedir ajuda. Nosso objetivo é acolher, ouvir, mostrar caminhos, soluções, que às vezes sozinho não se consegue. Precisamos valorizar a saúde mental, porque se a minha mente não estiver bem, eu não consigo desempenhar minhas funções básicas. Seja ouvido, não se isole, não se cale. O profissional da psicologia não tem olhar de julgamento, nós queremos abraçar essas pessoas”, afirmou.

“Quero agradecer a oportunidade de compartilhar a temática e que várias pessoas sejam alcançadas. Às vezes a pessoa que está em uma situação difícil, ao ouvir uma palavra, ela pode encontrar forças para sair daquela situação em que ela se encontra”, agradeceu.