Na primeira semana de depoimentos da CPI da Covid, o presidente Jair Bolsonaro desferiu ataques à China, ameaçou editar decreto contra medidas restritivas adotadas por prefeitos e governadores e deu declarações que foram lidas como um recado ao Supremo Tribunal Federal. As falas repetem um padrão do mandatário de reagir com virulência em momentos em que está sob pressão.
A CPI da Covid no Senado apura, entre outros pontos, a gestão do governo federal na pandemia. As investigações podem culminar em sugestões de indiciamento ou embasar pedidos de impeachment contra o presidente, além de desgastá-lo politicamente. As informações colhidas até o momento dão munição à visão de que a conduta do governo no combate à covid-19 foi marcada por omissões e pressões por medidas ineficazes.
Na quarta-feira (5), dia em que o ex-ministro da Saúde Nelson Teich prestou depoimento ao colegiado, Bolsonaro insinuou que a pandemia seria parte de uma estratégia de “guerra bacteriológica” da China para garantir crescimento econômico. Não há evidências que embasem essa tese.
Horas depois, na própria quarta-feira, Bolsonaro negou ter citado o país na declaração em que colocou em dúvida a origem do vírus. “Eu não falei a palavra China”, argumentou. Além de ser o maior parceiro comercial do Brasil, o país asiático é considerado fundamental para o plano de imunização contra a covid-19, já que é um dos principais fornecedores de insumos e vacinas.
Na quinta-feira (6), o Instituto Butantan divulgou que pode atrasar a entrega de novas doses da vacina CoronaVac, desenvolvida em parceria com o laboratório chinês Sinovac, por falta de insumos importados da China – o que foi atribuído pelo órgão ligado ao governo paulista de São Paulo à atuação do governo Bolsonaro na relação com o país asiático.
As declarações do presidente não se restringiram às relações exteriores. Foi também na quarta-feira (5) que Bolsonaro ameaçou editar um decreto contra medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos. “Se eu baixar um decreto, ele vai ser cumprido, não vai ser contestado por nenhum tribunal”, disse o presidente. Além de afrontar governos locais, a fala foi lida como um recado ao Supremo Tribunal Federal, que em abril de 2020 reconheceu que estados e municípios também têm autonomia para tomar medidas de combate à pandemia, como as quarentenas.
As cortinas de fumaça do presidente
Desde que assumiu a presidência, em janeiro de 2019, Jair Bolsonaro fez sucessivos ataques ao Supremo, ao Congresso, à imprensa, a partidos e personalidades de esquerda, à China, a governos locais, a cientistas, entre outros. Essas falas são frequentemente apontadas como “cortinas de fumaça”, ou seja, declarações que buscam desviar a atenção de outros pontos tidos como mais sensíveis para o presidente.
Em março de 2020, por exemplo, no dia em que foi divulgado o baixo crescimento da economia no primeiro ano de governo Bolsonaro, o presidente usou uma encenação com o humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, para evitar responder a perguntas de jornalistas sobre o tema.
Ataques e atitudes do tipo haviam se tornado menos comuns por um período após a prisão de Fabrício Queiroz, em junho de 2020. Ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio, Queiroz é acusado de ser o operador de um esquema de rachadinha no gabinete do filho do presidente. A “moderação” do presidente, porém, não durou muito.
Já em novembro daquele ano, um outro episódio que ganhou destaque foi quando Bolsonaro sugeriu ser necessário usar “pólvora” contra os Estados Unidos, em reação a uma cobrança do presidente americano Joe Biden por uma atuação mais firme do Brasil na área ambiental. A fala ocorreu dias após a derrota eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, após uma série de questionamentos do republicano ao sistema eleitoral – um discurso que frequentemente é repetido por Bolsonaro no Brasil. Sua fala sobre “pólvora” ocorreu ainda uma semana depois de ter vindo a público que o Ministério Público do Rio havia denunciado seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro no caso das rachadinhas.
O presidente mantém os ataques em 2021. A declaração do mandatário de que o sofrimento da população em meio à pandemia seria “mimimi”, por exemplo, chegou a ser apontada como um desvio de atenção do fato de que Flávio Bolsonaro havia comprado, por R$ 6 milhões, uma mansão no Lago Sul de Brasília – montante apontado como incompatível com seu patrimônio. A fala foi feita ainda em meio a uma escalada de mortes pelo novo coronavírus e um dia após o país registrar um recorde diário de óbitos pela doença.
O que move a virulência retórica, em 3 análises
Especialistas ouvidos pelo Nexo concordam que as declarações recentes fazem parte de um padrão repetido pelo presidente Jair Bolsonaro em momentos de pressão, mas divergem sobre o grau de cálculo por trás da medida.
Protagonizar o debate
Para a antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina Leticia Cesarino, “uma das formas de ver esse padrão de comportamento é reconhecer que o presidente trabalha de forma muito consciente seu lugar na economia da atenção”. “Ele busca sempre pautar, e nunca ser pautado”, diz ela, que relembra ainda a reação de Bolsonaro ao primeiro discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após o petista recuperar seus direitos políticos. “Na ocasião, o presidente chegou ao ponto de divulgar a carta de um suposto suicida na sua live semanal.” Lula e Bolsonaro são tidos como os principais cotados para disputarem as eleições de 2022.
Reação intuitiva
Já para o cientista político e professor da FGV-SP Cláudio Couto, há “muito mais impulso, uma forma intuitiva de agir, do que propriamente cálculo” nesses arroubos do presidente. “Quando ele se vê sob pressão, é mais difícil para ele, talvez, fazer os cálculos políticos de longa duração, de tentativa de algum tipo de acomodação. Ele parte para o ataque, ele reage”, afirma.
“Só volta e meia talvez [Bolsonaro] se sinta um pouco mais acuado, e aí ele fica quieto”, diz Couto, que vê como exemplo disso a reação do presidente às investigações que miram sua família. “Mas isso não é o mais comum do Bolsonaro. Quando ele sente um pouquinho de segurança, seja porque o centrão lhe deu apoio em certo momento, seja porque ele teve essas manifestações na rua [no dia 1 de maio] a favor dele, ele se imbui de confiança e parte para o ataque novamente.”
Apelo à base
A professora da Escola de Sociologia e Política de São Paulo Isabela Kalil, por sua vez, vê um possível cálculo eleitoral de Bolsonaro nessas falas, que dialogam com suas bases. “A carreira política do Bolsonaro se faz nesse lugar de frases absurdas, de fomentar a polêmica, de ataques, de radicalismos, de posições antidemocráticas, de posições violentas. A volta para esse lugar faz sentido dentro dessa lógica que, sob pressão, Bolsonaro estaria voltando para onde lhe é mais familiar”, diz ela, que enxerga as manifestações pró-governo do dia 1º de maio como algo que abre caminho para uma atitude com maior perfil de candidato por parte do presidente. “A impressão que eu tenho é que Bolsonaro está tentando usar a mesma fórmula de voltar a uma performance que ele já fez antes.”
A antropóloga diz ainda que, no momento em que a CPI da Covid avança, a mobilização da base bolsonarista ganha relevância para o mandatário. “Ele vai precisar disso na CPI, não dá para contar só com a tropa de choque de senadores no Parlamento.”
As consequências da retórica
Para o cientista político Cláudio Couto, o discurso do presidente fragiliza a democracia. “A democracia se baseia na possibilidade de diálogo, na possibilidade de avaliar o governo de acordo com seu desempenho, não segundo princípios puramente afetivos – e o afeto, às vezes, é um desafeto, não é só o afeto positivo, pode ser um afeto negativo. Então entendo que esse irracionalismo de base é fundamentalmente contrário à democracia”, afirma.
Ele cita ainda o caráter autoritário de discursos recentes do mandatário. “Quando o presidente diz que vai fazer um decreto para passar por cima de governadores e prefeitos, e que não aceita que ninguém ouse questionar, inclusive os tribunais, ele está ameaçando a ordem institucional, ele está dizendo que vai impor, ditatorialmente, sua vontade”.
Couto questiona, porém, a ideia de que essas falas possam gerar resultados para o presidente. “Eu não creio que essas ameaças dele, do ponto de vista prático, tenham muita capacidade de atingir os efeitos que ele gostaria. Mas eu acho que elas têm um efeito prático de desgastá-lo ainda mais”, diz ele, que cita derrotas recentes do presidente, como a própria instalação da CPI da Covid.
Já a antropóloga Leticia Cesarino diz que “um efeito meio paradoxal desse comportamento recorrente [de Bolsonaro], inclusive as seguidas ameaças de golpe ou intervenção nas instituições, parece ser uma certa indiferença ou apatia por parte do público, apesar da revolta aparente.” Ela vê ainda um “padrão de duplo comportamento” do presidente, e diz que “a ambiguidade – um dia fala uma coisa, no outro dia outra – dificulta traçar responsabilidades diretamente a ele, por exemplo pelos efeitos negativos da pandemia.”


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